| Charles Jencks: un critique
sans pitié
resenha de roberto segre
tradução
marina rodrigues amado
Na dedicatória
de um livro a Leleta, esposa de Lucio Costa, Le Corbusier escreveu
em 1952: ”la vie es sans pitié”. Esta é a única referência
a um arquiteto brasileiro no recente volume de Jencks, Le Corbusier
and the Continual Revolution in Architecture. Tampouco nenhum
latino-americano é citado, em que pese ao considerável número
de desenhistas, urbanistas, políticos, clientes e artistas, que
mantiveram estreitos vínculos com o Maestro dentro e fora do Continente.
Pouco afortunada resultou nossa região no panorama ecumênico da
arquitetura moderna que o autor iniciou nos setenta com sua evolutionary
tree: um sistema ameboidal em branco e preto cuja estrutura
volúvel e cambiante, integrava personagens e movimentos que definiram
a contemporaneidade. Niemeyer foi o protagonista latino-americano
sempre em primeira linha, acompanhado logo pelo Argentina Bank
(sem citar nem a obra nem os autores), e atualmente em 2000,
por Costa, Legorreta, Villaneuva (talvez tenha imaginado
que Villanueva foi um arquiteto francês?). Finalmente, também
foi incluída a onipresença de nossa dura realidade: o 3rd.
World Ghetto.
Quando no
início dos anos setenta, Jencks publicou Le Corbusier and the
Tragic View of Architecture, evidenciou algumas facetas pessoais
do Maestro que não tinham sido assinaladas até então, e elaborou
certas análises filosóficas, sociológicas e psicológicas originais.
Posteriormente, ocorreu a avalanche de livros e ensaios a fim
de celebrar-se o centenário de seu nascimento (1987), aprofundando-se
em temas ainda ignorados de sua trajetória. Surgiram trabalhos
rigorosos realizados na Argentina, no Brasil e no Chile, que investigaram
a significação de suas visitas ao Continente em 1929 e 1936; tanto
pela incidência da América Latina em sua nova visão urbana, como
pelo impacto que exerceram suas ideias entre os jovens profissionais
da região.
Resulta então
inadmissível que um ensaio publicado no ano 2000, esquive totalmente
o tema, ao referir-se aos fatores que marcaram a obra do Maestro
entre 1928 e 1945: a América Latina, ou melhor, apenas o Rio de
Janeiro, é citado em função das relações ( amorosas ou artísticas)
sustentadas com Josephine Baker, outorgando grande importância
à dinâmica (ou precariedade) sexual de Le Corbusier: seu difícil
matrimônio com Yvonne Gallis; a tentativa (fracassada) de sedução
da periodista hindu Taya Zinkin; os vínculos com Marguerite Tjader-Harris
e Minette da Silva; sua emoção pelas teenagers do Vassar
College. Caracterização que pouco, a nosso critério, incidiu em
sua personalidade criadora ou nas etapas “estilísticas” de sua
vida: até agora por sexo ou erotismo, somente passaram para a
história Don Juan, Casanova e o Marquês de Sade.
Hoje, peca
por ligeireza e superficialidade desconhecer o impacto exercido
sobre Le Corbusier pela visão de La Pampa e a extensão infinita
de Buenos Aires; os meandros dos rios Paraná e Uruguai ou a inusitada
paisagem de morros, mar, praia e bosques, que a cidade
do Rio de Janeiro hospeda. A mudança profunda de suas visões urbanas
— consideradas por Manfredo Tafuri como as mais importantes do
século XX —, ocorreram no Rio, ao imaginar um edifício de apartamentos
que se estendia por quilômetros como uma cinta continua, fluindo
livremente entre os morros e a baía de Guanabara. Desta
primeira concepção se materializaram logo em 1932, as sequências
de projetos do Plan Obús para a cidade de Argel. Seus contatos
com a cultura popular se intensificaram nas favelas cariocas,
ficando impressionado pela sensualidade e erotismo das mulatas,
homólogas à exuberância da paisagem. Percepções anteriores às
similares experimentadas com argelinas e espanholas no continente
africano.
Por sua vez,
Jencks enfatiza a influência do pensamento de Nietzsche em Le
Corbusier, através do livro Also Sprach Zarathustra, referindo-se
ao vitalismo do “predicador” representado pelo espírito combativo
do “super-homem”, voltado a transformar uma realidade estática
e obsoleta. Aonde se materializa a metáfora do Anticristo? Pois,
na América Latina. O Maestro, frente à pequenez e à mediocridade
da Academia (os planos ”clássicos” das capitais locais), desde
as alturas dos morros ou dos arranha-céus cartesianos flutuando
no Rio da Prata, realiza o gesto demiurgo criando a cidade do
futuro. No Rio, abandona a abstração metafísica e realça a espontaneidade
da vida ao projetar — parafraseando Tafuri —, “uma imensa máquina
biomórfica”, síntese entre arquitetura e natureza, entre homem
e paisagem. É então na Latino-américa aonde — além das mudanças
ocorridas em sua produção pictórica ao interessar-se pela Natureza,
os “objetos de reação poética” e os corpos femininos —, se iniciam
as mudanças radicais que, das “caixas brancas”, culminaram em
Ronchamp e Chandigarh. É uma história marginalizada por Jencks
e é nosso dever esclarecê-la e reafirmá-la.
Publicado
originalmente na revista argentina Summa+, n 53, Buenos Aires,
fev./mar. 2002, p. 120.
Roberto
Segre, arquiteto e crítico de arquitetura, professor da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
onde é atual coordenador do PROURB.
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