| Encolhimento
e morte da vida urbana em São Paulo
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resenha de cibele saliba
rizek
O centro tradicional,
a Avenida Paulista e o eixo nucleado pela Avenida Luiz Carlos
Berrini são examinados em Centralidade em São Paulo, de Heitor
Frúgoli Jr., à luz de um conjunto de temas presentes nas discussões
das grandes cidades contemporâneas: fragmentação, desertificação,
abandono das velhas centralidades, dualizações de toda ordem,
declínio e encolhimento e morte dos espaços públicos e da própria
vida urbana. A indagação de Frúgoli pretende conduzir à discussão
do significado dos processos de produção da uma centralidade múltipla,
da hierarquização destes núcleos de acordo com sua "novidade"
ou "decrepitude", da necessidade, do desejo e da possibilidade
da cidade, da pergunta sobre a cidade que nasce destes processos.
No diálogo entre
estes temas e os processos em curso na cidade de São Paulo, o livro
obedece a um projeto ambicioso e bastante bem sucedido de identificação
de três centros paulistanos, dos atores que os produzem ou que neles
intervêm, das relações entre estes atores e as transformações no
espaço da cidade. Estes atores - empresários, investidores e gestores
do capital financeiro (ou mesmo um único sindicato que atua no interior
da Viva o Centro), por um lado, "profissionais da cidade", arquitetos
e urbanistas que estão envolvidos nas discussões, projetos e intervenções
urbanas, por outro - são identificados em suas relações e conflitos
internos e externos, para além das grandes categorias que são figuradas
na discussão das cidades contemporâneas. Assim, o "mercado imobiliário"
ou "o mercado financeiro", as "novas institucionalidades", os "novos
atores", "os poderes públicos", os "saberes da arquitetura e da
cidade" ganham contornos nítidos, ganham voz e identidade.
Por isso os estudiosos
da cidade - e da cidade de São Paulo em particular - encontrarão,
no livro de Frúgoli, um material de pesquisa fértil, que permitirá
um conjunto de novas indagações e rumos de investigação, assim como
a rediscussão de questões já clássicas a respeito da cidade. A primeira
é a relação entre espaços centrais e periféricos, visivelmente instabilizada
quer pela constatação da presença ou ausência de velhos e novos
elementos (veja-se o exemplo dos investimentos culturais, na região
da Luz, ou a argumentação da necessidade de novos serviços para
novos clientes - especialmente grandes corporações e escritórios,
no vetor sudoeste), quer pela crescente ocupação dos centros tradicionais
pelas populações de baixa renda - apontada como fator de degradação
urbana, por excelência.
A segunda é a
constatação de que a realidade metropolitana da São Paulo acaba
por ser marcada pela competição entre várias centralidades. Estas
centralidades em disputa dependem de investimentos reais e simbólicos
de empresas e bancos, de seu dinamismo econômico, de sua força política;
de atores e grupos sociais que se localizam e interferem nestas
áreas, projetos e concepções urbanísticas que propõem e enunciam
concepções divergentes a respeito da vida urbana, das relações sociais,
da metrópole e de seus usos, dos elementos de definição e redefinição
do que se entende por centralidade e por metrópole.
Estes pontos
de partida, em torno das discussões recentes sobre a questão urbana
se ancoram na idéia de que, apesar da fragmentação e descentralização
que caracterizam São Paulo, "é impossível postular que isto signifique
a perda de um `centro', mesmo que não se possa mais falar (...)
em uma única centralidade, de feição tradicional e histórica. Persiste,
de toda forma, a importância constitutiva do papel desenvolvido
pela centralidade no contexto urbano, porém em novos termos" (p.
42). Assim, mapear, descobrir e dar corpo aos conflitos em torno
da centralidade, identificando claramente atores e interesses, acaba
desvendando um conjunto de processos que vinculam "projetos de centralidade
em disputa, suas semelhanças e diferenças", revelando um "padrão
metropolitano de redefinição da centralidade" assim como "a dinâmica
social que lhe é inerente" (p. 44).
O livro se compõe
de três partes dedicadas aos três centros e seus processos de constituição,
assim como sua situação nas curvas ascendentes ou descendentes de
apogeu e queda. O centro tradicional e a Avenida Paulista recebem
um tratamento mais generoso e mais homogêneo, desdobrando-se nos
quatro primeiros capítulos que se dedicam aos processos de formação,
assim como à caracterização das formas de associativismo - empresarial
ou "interclasses" - que caracterizam, respectivamente, a Paulista
Viva e a Viva o Centro.
A terceira centralidade,
em torno do vetor sudoeste de crescimento de São Paulo, é tratada
mais brevemente, ainda que coloque questões muito interessantes
e dimensões ainda pouco discutidas, sobretudo em relação à forma
pela qual esta região e sua centralidade foram produzidas. Segue-se,
então, um conjunto de conclusões que permitem uma percepção mais
clara da complexidade das relações entre a cidade, seus núcleos
e os atores analisados.
Uma das questões
centrais no livro segue o caminho do próprio trabalho de investigação:
trata-se de pensar, em relação a cada uma das três centralidades
analisadas, um eixo de conflitos que, por assim dizer, alinha e
desalinha atores e interesses diversos, para além de perceber as
discordâncias e concordâncias relativas aos processos de manutenção,
requalificação, "reparação", prevenção do esvaziamento e desertificação
ou consolidação das áreas em questão.
No caso do centro
tradicional, trata-se especialmente da espinhosa questão dos camelôs
e de suas formas de alocação do espaço da cidade. Esta questão se
mantém quando a análise se volta para a Avenida Paulista, mas muda
de foco quando se trata de pensar o vetor sudoeste de crescimento
da cidade de São Paulo. É interessante notar que, para cada uma
das centralidades analisadas, há a figuração de um outro - camelôs
e favelados, respectivamente - responsáveis por outros modos de
uso da cidade e de seu espaço, sempre vinculados à esfera da sobrevivência
e do domínio imperioso da necessidade. De certo modo, este eixo
central de conflitos em torno da cidade põe em cena, nos três casos,
a questão geral da "pobreza" e da "pobreza urbana", que ganha contorno
pelas falas e matizes dos "novos atores" como a Viva o Centro, a
Paulista Viva, o pool de empresários do vetor sudoeste e os urbanistas
que trabalharam nas consultorias a estes movimentos e associações.
Ao final deste
percurso, algumas das conclusões relativas especialmente a estes
eixos de conflitos entre as novas dimensões associativas, mais empresariais
do que "interclasses" (com uma única exceção - o Sindicato dos Bancários
e o Projeto Travessia), quando submetidas ao exame de suas práticas,
acabam apontando, para além de todas as boas intenções, para um
tratamento da questão social, figurada tanto pelos camelôs quanto
pelos favelados, como "caso de polícia".
No caso do centro
tradicional, importa ressaltar a oposição, flagrada pelo autor nos
discursos das lideranças da Viva o Centro, entre os trabalhadores
- empregados e disciplinados - e o trabalho ambulante e informal,
criminalizado e culpabilizado pela degradação dos espaços que ocupa
"ilegalmente", desfigurado e esvaziado por seu enredamento na esfera
da sobrevivência. Por outro lado, a novidade do associativismo que
marca a Viva o Centro e a Paulista Viva é, ao mesmo tempo, reconhecida
como parte integrante das iniciativas da sociedade civil e relativizada,
pelos dilemas e aporias que resultam da combinação impossível entre
cidadania e mercado no Brasil; pela hegemonia ou exclusividade de
setores empresariais no interior destas formas de associação, que,
nas palavras de Frúgoli, podem ser lidas como "acordos políticos
articulados sob a forma de lobby" que apóiam "intervenções urbanas
que dialogam bastante com interesses mais gerais do mercado" (p.
229).
Do ponto de vista
dos horizontes de democratização da cidade e de suas centralidades,
a situação piora consideravelmente quando o autor examina o vetor
sudoeste de crescimento de São Paulo. O que se verifica, na produção
desta nova centralidade, por meio da ação que combina um pool de
empresários e o poder municipal, pode ser caracterizado como um
exemplo empírico da "desnecessidade do público" e, no limite, da
desnecessidade da cidade e de seus moradores de baixa renda, de
seu caráter supérfluo.
Utilizando os
dados coletados em sua pesquisa, assim como o trabalho de investigação
de Mariana Fix, Frúgoli aponta, por um lado, o ideário de uma arquitetura
e de uma intervenção urbana marcadas pelo caráter privado e de mercado,
que ganha as qualificações de "espontânea", "voltada para a realidade",
em "benefício dos usuários", no discurso do arquiteto e empreendedor
responsável pela maior parte dos projetos ali executados; por outro
lado, a violência de uma operação de "limpeza" e remoção de favelados
marcada pelo engodo, pela manipulação, pela expulsão e apropriação,
valorização e especulação imobiliária, sem falar da vigilância e
interdição da presença de camelôs pela Administração Regional. Aqui,
a já escassa pluralidade de atores do centro tradicional se extingue,
já que poder público e empresários atuam conjuntamente, quer na
expulsão da população de baixa renda, quer em operações que vincularam
o vetor sudoeste da cidade a outros eixos de especulação, como a
"Nova Faria Lima".
Deste modo, ao
procurar os novos fenômenos e os novos atores da cidade, Frúgoli
reencontra redefinições e conflitos, revisões e recomposições de
uma velha questão: o caráter excludente, ainda que em graus e de
modos diversos, de diferentes práticas de intervenção na cidade,
permitindo que se observe o que há de velho nos novos atores e nas
novas práticas que buscam constituir ou requalificar e reparar as
centralidades da cidade. Cibele
Saliba Rizek é professora do Departamento de Arquitetura eUrbanismo
da Escola de Engenharia de São Carlos/USP. Pesquisadora doCentro
de Estudos dos Direitos da Cidadania
© Texto originalmente publicado
no Jornal da Tarde, Caderno de Sábado, 26
de agosto de 2000.
Reprodução proibida sem autorização
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