| Uma
visão fragmentária do “outro”: arquitetura latino-americana 1930-1960
resenha
de roberto segre
O
tema da oscilação entre o interesse ou desinteresse pela arquitetura
latino-americana entre os estudiosos do “Primeiro Mundo”, seria
digno das pesquisas realizadas com os recursos informatizados
por Juan Pablo Bonta sobre a teoria e a crítica nos Estados Unidos
(1). Ao longo do século XX, ocorreram sucessivas ondas de apaixonados
estudos resgatando as contribuições locais ao Movimento Moderno.
Iniciados nos anos trinta por Alberto Sartoris – que incluiu obras
do Continente em sua Encyclopédie
de l´Architecture Nouvelle –, se prolongaram nos catálogos
editados pelo MOMA de Nova York: o Brazil
Builds realizado por Philip Goodwin em 1942 e Modern
Architecture in Latin America since 1945 de Henry-Russell
Hitchcock. Nos anos sessenta foi Brasília quem atraiu a atenção
– positiva e negativa – dos historiadores, assim como a relevância
de algumas personalidades: Carlos Raúl Villanova em Venezuela
– estudado por Sybil Moholy Nagy –, e Clorindo Testa na Argentina.
Nikolaus Pevsner afirmou naquela ocasião (1963) que o Banco de
Londres e América do Sul em Buenos Aires, constituía uma obra
digna de figurar entre as principais do “Primeiro Mundo” (2).
Ao receber Luis Barragán em 1980 o cobiçado Prêmio Pritzker, surgiu
uma nova onda de publicações difundindo na Europa e Estados Unidos
a produção latino-americana, resumida nas obras de Niemeyer, Legorreta,
Barragán, Miguel Ángel Roca, Clorinda Testa, Ricardo Porro e Rogelio
Salmona. Autores pouco relacionados com a área – por exemplo,
Kenneth Frampton, Manfredo Tafuri, Francesco dal Co, Josep Maria
Montaner –, se aproximaram superficialmente do tema em busca das
estrelas – ou negando-as –, ainda que sem descobri-las em sua
totalidade, como ocorreu com o brasileiro Paulo Mendes da Rocha,
recém iluminado ao receber o Prêmio Mies van der Rohe 2000 (3).
Valerie Fraser se insere, no início do século XXI, dentro desta
corrente de estudiosos e críticos.
É
arriscada a tarefa de entrar num campo do conhecimento arquitetônico
no qual já tratou com profundidade um grupo considerável de críticos
locais. O acúmulo de livros, textos e ensaios publicados por Marina
Waisman, Ramón Gutiérrez, Roberto Segre, Roberto Fernández, Silvia
Arango, Arturo Almandoz, Francisco Liernur, Hugo Segawa, Ruth
Verde Zein, Enrique de Anda, Carlos Eduardo Comas, Antonio Toca,
Humberto Eliash, Mariano Arana e outros; definiram teses e elaboraram
documentos imprescindíveis sobre o desenvolvimento da arquitetura
e do urbanismo de seus respectivos países. A autora, ao percorrer
em várias ocasiões a região, conheceu alguns destes trabalhos
– ainda que não todos os necessários –, com o fim de amadurecer
sua visão pessoal sobre os temas tratados no livro. Formada em
história da arte em Inglaterra, centrou sua atenção sobre o vínculo
entre a arquitetura e o Estado no México, Venezuela e Brasil entre
os anos trinta e sessenta; e também sobre a inter-relação com
as artes plásticas, tanto nas duas cidades universitárias de Caracas
e México D.F., como nas obras da vanguarda brasileira – o Ministério
de Educação e Saúde e a Cidade Universitária de Rio de Janeiro
– até Brasília. Ainda que sua análise da produção dos países citados
não pretenda alcançar um exaustivo aprofundamento, conquistou
algumas aproximações novas: no México, assinala aspectos desconhecidos
da relação de José Vasconcelos com a arquitetura acadêmica mais
que com a vertente neocolonial, e apresenta um desenho original
de O´Gorman (1932) – talvez antecessor do conjunto Pedregulho
de Reidy – de um bloco de habitações coletivas com serviços comuns;
da Venezuela, aparece uma foto inédita do pavilhão realizado por
Carlos Raúl Villanova e Luis Malaussena na Expo Universal de Paris
de 1937, destacando bastante a figura de Cipriano Domínguez, ainda
pouco difundida fora de seu país; sobre o Brasil, é provocativa
a interpretação da obra paisagística de Burle Marx, desde sua
intervenção no MES do Rio de Janeiro (1938).
Sem
dúvida, cabe assinalar alguns aspectos que não foram totalmente
esclarecidos em sua tese. Não é fácil privilegiar três países
no contexto latino-americano sem referência às tendências globais
do período estudado, tanto no que se refere ao apoio estatal a
obras significativas no período de entreguerras – mesmo os países
que não tiveram governos “fortes”, casos da Argentina, Uruguai,
Colômbia e Chile, promoveram edifícios públicos de importância
–, como no surgimento de um movimento “regionalista”, a partir
dos anos sessenta, resultado da busca de uma identidade nacional
latino-americana. A autora assume como paradigmas os edifícios
da CEPAL em Santiago do Chile e as Escolas Nacionais de Arte de
Havana – talvez sobre-valorizadas em sua significação no contexto
latino-americano –, o caminho que elas representaram foram desenvolvidas
também por múltiplos profissionais de cada país: Severiano Porto
e Sergio Bernardes no Brasil, Fernando Martínez Sanabria, Rogelio
Salmona e Laureano Forero na Colômbia, Eduardo Sacriste e Claudio
Caveri na Argentina, Julio Vilamajó e Mario Payssé Reyes no Uruguai,
Enrique Seoane e José García Bryce em Perú, entre outros. No epílogo
do livro se emite um juízo injusto, superficial e descontextualizado
sobre a crítica realizada por Roberto Segre a as Escolas Nacionais
de Arte, sem recorrer às fontes bibliográficas recentes que justificaram
a análise ideológica da mencionada obra crítica, alheia a qualquer
vínculo conceitual com a então União Soviética (4).
Existem
significativas ausências na temática estrutural – a relação Estado-Movimento
Moderno e o conseqüente regionalismo – desenvolvida pela autora
nos três países estudados: México, Venezuela e Brasil. No primeiro,
surpreende a escassa presença de Luis Barragán, só citado fugazmente,
cuja obra resume em termos estéticos e conceituais, as buscas
iniciadas por O´Gorman e a Cidade Universitária. Pode se afirmar
que o intimismo de Barragán pouco tinha a ver com as iniciativas
construtivas do Estado mexicano, resultou numa obra paradigmática,
o Museu de Antropologia de Pedro Ramírez Vázquez (1963), síntese
entre tecnologia e tradicionalismo, seguido pelo hotel Caminho
Real de Ricardo Legorreta e as igrejas de tijolo de Carlos Mijares.
Edifícios que introduziram a linguagem regionalista na dimensão
urbana local (5).
Na
Venezuela, teria sido interessante aprofundar a delicada relação
entre Carlos Raúl Villanova e o ditador Pérez Jiménez, fazendo
alusão à vertente monumental que o governo apoiou com maior ênfase,
materializada nos projetos de Luis Malaussena: a Escola Militar
e o Passeio dos Próceres, obras contemporâneas à Cidade Universitária
(6). Asimismo, resultaron obviados os profesionais que continuaron
a herencia do Maestro, com anterioridade a a realização do Metro,
obra descrita por Fraser: Tomás Sanabria, José Miguel Galia, Jimmy
Alcock e Carlos Gómez de Llarena, entre outros.
É
incompreensível a presença de inúmeros erros no estudo da arquitetura
brasileira, ante a profusão de textos, ensaios e documentos publicados
sobre o tema. Ao citar o texto de Lucio Costa, Razões
da nova arquitetura, o coloca em 1930, como uma conferência
na ENBA, quando foi escrito em 1934 como proposta para o curso
de Urbanismo da Universidade do Distrito Federal (7). Sobre o
MES, tampouco é verdadeira a afirmação de que “a maioria dos materiais
foram importados do exterior”. A parte pesada da construção e
a serralheria foram realizadas localmente e somente foram importados
os equipamentos técnicos e as luminárias. Também atribui a solução
final do projeto a Le Corbusier, quando ela foi elaborada pela
equipe de arquitetos cariocas, sob a liderança de Oscar Niemeyer
(8). O croquis de Le Corbusier que aparece na página 155 não se
refere ao “segundo projeto” do Mestre para a Esplanada
do Castelo, mas a reprodução do edifício terminado, realizada
após a construção do MES, publicada
na Oeuvre Complete e
que tanto irritou a Costa e Niemeyer (9). Ao saltar de forma brusca
da arquitetura de Rio de Janeiro para a de Brasília, fica totalmente
incógnita a produção da década do sessenta. As figuras de Álvaro
Vital Brazil, dos irmãos MMM Roberto (e não Milton) e Sergio Bernardes
são fundamentais para compreender as alternativas de projeto que
se contrapuseram a as imagens formais de Oscar Niemeyer. É certa
que em São Paulo foi essencial a presença de Gregori Warchavchik
para definir a Primeira Modernidade, o “regionalismo” paulista
é incompreensível sem a presença de João Vilanova Artigas ou Joaquim
Guedes.
Em
resumo, cabe reconhecer o esforço significativo realizado por
Valerie Fraser para interpretar algumas das vertentes da arquitetura
moderna latino-americana. Os defeitos citados no empenam os objetivos
do livro, de difundir a arquitetura da região entre os pesquisadores
do “Primeiro Mundo”, pouco familiarizados com o tema. Sem dúvida,
o estudo de nossa complexa realidade, implica um domínio mais
detalhado das fontes elaboradas localmente em cada país, tanto
sobre a arte e a arquitetura como sobre o novelo inescrutável
dos fenômenos sócio-econômicos-culturais que definem o universo
do “real maravilhoso” latino-americano. Apenas assim, a superficialidade
do very typical, se
transforma no descobrimento profundo da multifacetada paisagem
arquitetônica que nos diferencia e nos caracteriza.
Notas
1
Juan Pablo Bonta (1933-1996), arquiteto e crítico argentino, professor
da Escola de Arquitetura da Universidade de Maryland, realizou
um estudo sobre os historiadores e críticos da arquitetura mais
importantes do século XX nos Estados Unidos, e como foram citados
e referidos ao longo desse período, ordenando os dados estatísticos
com a ajuda de computadores. Juan Pablo Bonta, American
Architects and Texts. A computer-aided analysis of the literature,
MIT Press, Cambridge, 1996.
2
Francisco Bullrich. Arquitectura Argentina 1960/70, Summa,
n. 19, Buenos Aires, out. 1969, p. 37.
3
Nos referimos ao juízo depreciativo sobre a arquitetura brasileira
que aparece na obra de Manfredo Tafuri e Francesco dal Co, Architettura Contemporanea, Electa Editrice, Milán 1979, pág. 337;
à declaração de Kenneth Frampton, de desconhecer Paulo Mendes
da Rocha em Malcolm Quantrill (Edit.) Latin American Architecture. Six Voices,
Texas A&M University Press, Collage Station, 2000, pág. ix;
e aos juízos emitidos por Josep María Montaner sobre os críticos
locais em sua nota “Crítica de arquitetura em Latinoamérica”,
publicada em Summa+, n. 38, Buenos Aires, ago./set. 1999,
p. 178. Cabe assinalar que alguns scholars
norte-americanos, como Quantrill – em seu livro participam
Marina Waisman, Fernando Pérez Oyarzún, Mariano Arana, Louise
Noelle, Silvia Arango e Alberto Petrina –, e Koshalek, tiveram
o cuidado de apoiar-se nos críticos da região: Ver: Jorge Francisco
Liernur, “América Latina. Los espacios do outro”, em Richard Koshalek
e Elisabeth A. T. Smith, A
fin de século. Cien anos de arquitetura, El Antiguo Colegio
de San Ildefonso, The Museum of Contemporary Art, Los Ángeles,
México D.F., 1998.
As críticas às Escolas Nacionais de Arte e à Brasília se basearam
mais nos conteúdos ideológicos do que no questionamento a seus
valores estéticos e à capacidade criadora de seus respectivos
autores. Naquele momento (a década dos anos sessenta), se considerava
o regionalismo formalista ou esteticista como um freio à necessária
modernização “apropriada” – parafraseando a Cristian Fernández
Cox – dos países latino-americanos. No caso de Cuba, se identificava
a formação da sociedade socialista com a possibilidade de empregar
tecnologias e métodos construtivos que permitissem resolver os
agudos problemas habitacionais e o déficit de serviços públicos,
dentro das possibilidades econômicas e materiais locais. De nenhuma
maneira os juízos emitidos tiveram relação alguma com “a aproximação
de Cuba à União Soviética”. Além disso, a autora não recorreu
aos dois principais livros escritos sobre o tema: Roberto Segre
Diez años de arquitetura
em Cuba revolucionaria, Ediciones Unión, La Habana, 1970;
e Arquitectura e urbanismo
da revolução cubana, Editorial Pueblo e Educación,
La Habana, 1989.
5
Se a tese da autora consiste em demonstrar que a arquitetura latino-americana
maturou uma personalidade própria nas obras realizadas na década
dos anos cinqüenta, devia culminar sua análise com as correntes
e figuras que se desenvolveram na década de sessenta, e abrem
um caminho contraposto à perda de identidade que se produz com
o tecnocratismo das ditaduras militares e a influência do International Style corporativo. Por isso,
Ramírez Vázquez, Carlos Mijares e principalmente Ricardo Legorreta,
constituim a afirmação dos enunciados presentes na Cidade Universitária
e a continuidade da estética de Barragán. Ver: Enrique X. de Anda,
Historia da arquitetura mexicana, G. Gili, México, 1995; Enrique X.
de Anda (Coord.), Ciudade
de México. Arquitectura: 1921-1970, Gobierno do Distrito Federal,
México; Conserjería de Obras Públicas e Transportes, Sevilla,
2001.
6
Todavia, a antítese entre Villanova e Malaussena não foi aprofundada
na caracterização dos critérios assumidos pelo governo de Pérez
Jiménez em relação à arquitetura. A vertente monumental era, sem
dúvida, mais aceita que a corrente de vanguarda identificada com
a Cidade Universitária. Um indício claro aparece na recusa oficial
ao monumento para o coronel Carlos Delgado-Chalbaud realizado
por Le Corbusier, com o respaldo de Villanova, que seria realizado
por Malaussena. Ver: Silvia Hernández de Lasala, Malaussena. Arquitectura académica na Venezuela moderna, Fundação
Pampero, Caracas, 1990; Alejandro Lapunzina, “La Pirámide e o
Muro: notas preliminares sobre uma obra Inédita de Le Corbusier
em Venezuela”, em Joseph Quetglas (Edit.) Massilia,
2002. Anuario de Estudios Lecorbusierianos, Fundação Caja
de Arquitectos, Barcelona, 2002, p. 148-161.
7
Lucio Costa. Registro
de uma vivência, Empresa das Artes, São Paulo, 1995, p. 108-116.
8
A documentação detalhada sobre a evolução do projeto do Ministério
de Educação e Saúde está contida no livro de Mauricio Lissovsky
e Paulo Sergio Moraes de Sá, Colunas
da Educação. A construção do Ministério da Educação e Saúde,
Edições do Patrimônio, Ministério da Cultura, Fundação Getúlio
Vargas, Río de Janeiro, 1996.
9
Le Corbusier teve conhecimento do edifício terminado ao receber
em seu estúdio de Rue de Sévres à engenheira Carmen Portinho (1945),
esposa de Affonso Reidy, que lhe mostrou as fotos da obra. Logo,
reproduziu na Oeuvre Compléte, o croquis que aparece neste livro. Na carta escrita
por Lucio Costa em 1949, afirma “O
esboço feito a posteriori, baseado nas fotos do edifício construído,
e que você publica como se se tratasse de uma proposição original,
nos causou, a todos, uma triste impressão”. Em Cecília Rodrigues
dos Santos, Margareth Campos da Silva Pereira, Romão Veriano da
Silva Pereira, Vasco Caldeira da Silva, Le Corbusier e o Brasil, Tessela/Projeto,
São Pauo, 1987, p. 200.
Roberto
Segre, arquiteto e crítico de arquitetura, professor da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
onde é atual coordenador do PROURB |