| Casa
e cidade. Um mestre da moderna arquitetura brasileira *
resenha de joaquim guedes
O grande arquiteto
brasileiro Rino Levi nasceu em São Paulo em 1901, de pais italianos,
e formou-se em Roma. Há 400 publicações dispersas sobre ele, a
maioria estrangeira, número espantoso, sobretudo para quem se
manteve longe da obrigação da pesquisa acadêmica. Existe, completamente
esgotado há anos, o livro "Rino Levi" (Edizioni di Comunità,
Milão, 1974). Mas este é o primeiro livro no Brasil, publicado
37 anos após sua morte (1965), que organiza (ou desorganiza) as
imagens com todas as repetições, cores e escalas a que tem direito.
Destaco o corajoso prefácio de Lúcio Gomes Machado.
Rino era discreto.
Embora o admirássemos, eu não imaginava que fosse tão conhecido
e respeitado, como ao ouvir o arquiteto finlandês Heikki Siren
dizer em voz baixa, no Rio de Janeiro, em 1963, enquanto Rino
falava do outro lado da mesa: "Ele é um dos grandes mestres
do racionalismo mundial".
O livro se
abre com seis fotos de interiores residenciais, em que Rino Levi
era exímio. Ótimo, porque a casa condensa todos os grandes problemas
da arquitetura, sendo considerada o laboratório por excelência
da invenção arquitetônica do século 20 e da investigação dos limites
da arte de construir o espaço humano possível em cada momento
e lugar.
Citam-se muitas
casas de Alvar Aalto; a casa da Cascata, de Frank Lloyd Wright;
a Savoye, de Le Corbusier; a Farnsworth, de Mies van der Rohe;
além das de Jean Prouvé, Marcel Breuer, Buckminster Fuller, Frank
Gehry etc. Muitas vezes mostrei a própria residência de Rino Levi,
na esquina das ruas Bélgica e Suécia, em São Paulo, como uma das
obras mais importantes do Brasil.
O terreno
irregular é totalmente fechado pela construção, cede os recuos
legais à rua e os recupera como jardim público, onde as únicas
janelas são as da cozinha! Os espaços interiores de uso diurno,
dormitórios e serviços se distribuem em torno de três pátios perfeitos,
em que as aberturas não são janelas quaisquer, são "constructos"
complexos e especiais em cada caso, considerando vistas, orientação
e natureza das atividades. Sobre a entrada principal, uma reentrância
na esquina, o corte, inclinado em planta, da cobertura alarga
as ondas nuas das telhas de fibrocimento, as terças expostas.
A primeira
aula de Rino Levi na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP,
em agosto de 1954, começou assim: "Hoje nós projetamos de
dentro para fora. Vamos ao terreno e imaginamos como viver nele,
desde a entrada, os movimentos, o lugar da mesa, dos livros, sofás,
camas, os aparelhos sanitários, equipamentos de cozinha... Aí
colocamos as paredes, definimos espaços, aberturas, começam os
detalhes". "Nunca se atrelou a modelos", comprometido
apenas "com a arte e a técnica de seu tempo, com os costumes
e a natureza de seu país", diz Antonio Carlos Sant'Anna Jr.
numa das apresentações do livro. Seu mestre em Roma, autor do
edifício Matarazzo em São Paulo, o "grande Marcello Piacentini"
lutava por formar um "arquiteto integral, capaz de intervir
com competência nas grandes transformações por que passavam as
velhas cidades", segundo o depoimento de Roberto Cerqueira
César, em outra das apresentações ao texto de Renato Anelli. Creio,
como Piacentini, que se deva desenvolver "a eficácia dos
arquitetos, com uma formação técnica e científica mais completa",
um método de trabalho abrangente que permita à arquitetura triunfar
sobre os complexos problemas a resolver.
No fundo,
arquitetura-cidade como uma só coisa. Piacentini defendia o respeito
às peculiaridades italianas, destacando entre elas as exigências
especiais do clima. O jovem Rino transpôs as lições no famoso
artigo "Arquitetura e Estética das Cidades", enviado
da Itália em 1925. Como observa Anelli, queria compatibilizar
"a universalidade inerente ao moderno com as especificidades
brasileiras". Desde o início, procurava "uma arquitetura
com "alma brasileira", entendida como um caráter decorrente
da interpretação do clima, natureza e costumes brasileiros",
segundo as palavras de Sant'Anna Jr.
Responsabilidade
social
Se Piacentini
tivesse construído a nova Cidade Universitária do Rio de Janeiro,
ao que fora convidado e depois dispensado pelo ministro Gustavo
Capanema, sendo substituído por Le Corbusier, é possível que nossa
arquitetura fosse outra. O barroco colonial foi adotado como referência
histórica e identidade permanente e única, limitando nossa formação
e aquilo que aí está: retórica obscura, formas indiferentes à
vida, ineficientes, inóspitas.
Rino foi arauto
do crescimento urbano planejado, do estímulo à cidade vertical
e controlada, do zoneamento, da metropolização como modernidade,
pioneiro do discurso sobre "a responsabilidade social do
arquiteto". Confrontando, pela primeira vez, o pensamento
de dois mestres, Anelli afirma que Rino é criticado por Lúcio
Costa, que defende "uma nova cidade brasileira, onde se conciliassem
modernidade e passado colonial, do qual deveríamos resgatar a
intimidade da casa rural com a natureza, propícia a um modo de
viver sereno e tranquilo".
Os desenhos
do livro são rigorosos, densos de pequenas e grandes idéias. Devem
ter causado uma verdadeira revolução. Detalhes primorosos inovavam,
como os da porta de canto envidraçada da sala, em ângulo, sem
aresta, que se abre para o terraço curvo e livre do edifício Columbus,
na avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo (já demolido).
Aqui não é razoável lembrar o arquiteto expressionista alemão
Eric Mendelsohn. Embora as curvas do observatório Einstein, em
Berlim, com seus espaços internos torturados, estejam em nossas
retinas para sempre, dizer que Rino foi "influenciado"
por ele, pela moda da apropriação do legado romano entre os italianos,
ou ainda por Gropius não ajuda a compreender a gênese daquele
canto nem os edifícios Schiesser, Cine Ufa (Arte Palácio), hospitais
ou casas.
Numa viagem,
Rino me falou sobre seu amor à matemática, que estudara por dez
anos, todas as noites, até altas horas. Acreditava que ela fosse
o instrumental lógico para elucidar o sentido do mundo e inventar
a construção perfeita do ambiente humano. Decepcionado, passara
a considerá-la inútil. Hoje, penso que já havia incorporado aos
seus neurônios uma "metamatemática" sensível, humanizada,
que gerou detalhe por detalhe seus extraordinários edifícios.
Olhem as grelhas quadradas de concreto pré-moldado vistas contra
pilares, lajes e passarelas sinuosas da Faculdade Sedes Sapientiae,
em São Paulo, mostradas nos ensaios fotográficos de Nelson Kon
produzidos para o livro de Anelli. Às vezes, uma simples planta
de prefeitura e alguns detalhes à volta eram suficientes e faziam
milagres. Desenhava muito, "pensava construção", sentado
à prancheta o tempo todo até o fim da tarde, quando saía a ver
amigos, como gostava de contar meu querido amigo e sócio, o arquiteto
Carlos Milan, morto tragicamente em 1964.
O livro contém
preciosas informações sobre o ambiente da arquitetura na Itália
entre as guerras, que demonstram a originalidade das plantas de
alguns pátios de Rino em relação à mediterraneidade facista ou
a dois refinados arquitetos italianos, Daniele Calabi e Bernard
Rudofsky, muito publicados nas revistas de arquitetura de Milão
e que chegaram ao Brasil em 1939.
Aliás, certa vez topei com um magnífico projeto de Rudofsky, intitulado
"Casa per una Donna senza Pregiudizio" ("Casa para
uma Mulher sem Preconceito"). O tema eram muros e pátios,
vestidos e sandálias, que podiam ser facilmente calçadas e descalçadas,
miradas exclusivas por janelas internas e externas, camas baixas
que permitiam aos amantes cair e rolar sobre tapetes até o gramado.
Lascívia. Para mim, foi uma preciosa descoberta, aos 18 anos,
do programa de necessidades do cliente como cultura-guia no processo
de invenção da construção da forma (evidentemente, ainda hoje
continuo questionando a futilidade do programa em pleno fascismo).
Lúcio
Costa e Rino
Rino, já maduro
em 1940, não estava à mercê de atávicas reminiscências romanas,
do repertório renascentista ou da moda que chegava da Europa.
Ele inventara aqui, em sereno exercício da razão emocionada, pátios
para introspecção, sociabilidade, lazer e trabalho, criando magníficos
jardins, um "panorama artificial" em lote plano e confinado,
a substituir a paisagem impossível na baixada do Pinheiros. É
relevante para os estudos brasileiros o confronto que Anelli estabelece
entre as interpretações de Brasil dos terraços de Lúcio Costa
e dos pátios de Rino.
Devo a Carlos
Milan ter-me mostrado a singular importância dos desenhos de Rino
Levi e Cerqueira César, suas maneiras elegantes, corajosas e diretas
de escolher e utilizar os materiais necessários e suficientes
em cada caso. Quanto a Levi, os exemplos são muitos: o Cine Universo,
em São Paulo, com capacidade para 4.500 pessoas, onde o teto se
abria; a inserção urbana do conjunto Iapi (Instituto de Aposentadoria
e Pensões dos Industriários); o edifício Porchat (SP); o Cine
Ipiranga (SP), com a magistral estratégia da entrada invertida
sob palco e hotel; o terraço jardim do Café Jardim (SP); a arquitetura
das indústrias e fazenda em São José dos Campos, destaque especial
à casa grande de Olivo Gomes, com a espetacular parceria dos Gomes,
de Burle-Marx e do pintor de telas e paredes, meu primeiro vizinho
de escritório, Rebolo Gonsales.
Ouso dizer
que Rino Levi e Lina Bo Bardi foram os mais competentes arquitetos
brasileiros de seu tempo. Ele, preocupado com o Brasil, discorria
encantado sobre marantas de sua casa e bromélias, que colecionava.
Morreu a procurá-las no morro do Chapéu, no interior da Bahia,
ao lado de Burle-Marx. Lina, além das obras, foi autora da imensa
exposição, hoje perdida, "A Mão do Povo Brasileiro",
prova do amor pelo país que adotara. Ambos constituem a iluminada
"outra face da arquitetura brasileira", a face questionadora:
eram "italianos".
Gostaria que
o livro se chamasse "Rino Levi, Roberto Cerqueira César e
Luis Roberto Carvalho Franco – Arquitetura e Cidade".
Juntos, eles deram a grande lição possível sobre a cidade moderna,
na inserção pontual, perfeita e conciliada das edificações urbanas:
o Columbus, cinemas, teatros, casas, apartamentos, escritórios,
indústrias, bancos, hospitais e o notável edifício da Fiesp (1969),
de Cerqueira César e Franco, sem Rino. É muito! Muito mais do
que os projetos para as Residências da USP, para o Paço de Santo
André (SP) ou o interessante plano de Brasília (como se sabe,
Rino ficou em terceiro lugar no concurso para o plano piloto da
cidade), assumido, de modo consciente e quase acintoso, como pura
pesquisa, pois sabia que jamais ganharia o concurso. A melhor
cidade parece ser um tecido de projetos singulares em conflito,
conciliação e reinvenção permanentes, insubmissos às ideologias
e geometrias simplificadoras.
Joaquim
Guedes é arquiteto e professor na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da USP
©
Texto originalmente publicado no Jornal de Resenhas, Folha de
S. Paulo, nº 86, 08/06/2002, p 5. Reprodução
proibida sem autorização do autor. |