Um
livro crítico e sem preconceitos, reverente mas sem evitar a
polêmica, denso mas com momentos líricos, complexo e paradoxal.
No seu mais recente trabalho publicado, a arquiteta Cêça Guimaraens,
ex-diretora do Iphan, doutora em Planejamento Urbano e Regional
e professora adjunta do programa de mestrado em arquitetura
da FAU/UFRJ, aborda um tema familiar, sobretudo nas grandes
cidades, mas quase sempre omitido, esquecido, disfarçado ou
negado: a presença paradoxal dos grandes edifícios e torres
e vidro no entorno de bens tombados. É o da área central da
cidade do Rio de Janeiro, onde é primordial a participação do
Iphan na concessão das licenças para a edificação dessas torres
– ao mesmo tempo em que é indiscutível o papel atuante da instituição,
na preservação do patrimônio da cidade. Na sua minuciosa pesquisa,
Cêça refere-se, sobretudo às participações e ações dos dois
mais relevantes membros do Iphan, Lúcio Costa e Rodrigo Melo
Franco de Andrade, na construção, preservação e consolidação
do centro moderno do Rio, bem como nas diretrizes que “criaram
e nortearam a maneira de preservar o patrimônio histórico de
nossas cidades”.
Os
paradoxos entrelaçados se revelam na observação e análise minuciosa
de alguns lugares onde esse relacionamento entre torres e patrimônio
fica mais candente: o Arco dos Teles (onde se entrelaçam o antigo
sobrado do brigadeiro d’Alpoim e o edifício às suas costas);
o entorno do antigo prédio do Ministério da Educação e Saúde
(Palácio Gustavo Capanema); a Praça XV, onde estão o Convento
do Carmo e a torre da Faculdade Cândido Mendes; o Largo da Carioca,
onde as sedes da Petrobrás, BNDES, Caixa Econômica e a Catedral
Metropolitana convivem com o conjunto colonial da Igreja e com
o Convento Santo Antônio; ou a área da Cinelândia, com a presença
marcante do Museu de Belas Artes e da Biblioteca Nacional em
meio a outras torres.
A
participação do Iphan no processo de concessão de licença para
construção dessas torres é compreendida através de um trabalho
metódico, profundo e minucioso de investigação, para o qual
a autora-arquiteta utiliza leituras diversas, documentos iconográficos,
gráficos e textuais, plantas cadastrais e perspectivadas; croquis
de elevações de massas, fotografias, discussões e concessões
de licenças, enfim tudo o que pudesse levar a entender as idas
e vindas das negociações e procedimentos das solicitações de
construções, as negativas, réplicas e pareceres finais acerca
das concessões para construção. Interessante notar que, apesar
de sua “quase longa” e enraizada atuação profissional nas “hostes
iphanianas”, como a própria autora diz, ela não tem quaisquer
pré-concepções formadas, mas busca uma linha de análise isenta
e imparcial, num vai-e-vem crítico-interpretativo que desvenda,
como em um trabalho de escavação arqueológica, as ações sucessivas
ao longo do tempo no centro do Rio de Janeiro.
Cêça
delimita o período estudado – 1950 a 1990 (“da construção de
Brasília à consolidação do Rio como ex-capital federal”) – salientando
que a construção de altos edifícios, no entorno imediato de
bens históricos “expressivos
de diferentes tempos da centralidade do Rio, só reforçava
seu caráter de cidade eminentemente moderna”. Sobre a atitude
de “adensar para preservar”, assumida no centro da cidade do
Rio de Janeiro, a autora faz seus comentários e análises dentro
da ótica do Planejamento Urbano, ao mesmo tempo em que reconhece
o esforço do IPHAN desde a década de 30 para preservar, orientar
e identificar os bens históricos de significativo valor, acabando
por demonstrar que a análise dos processos de licenças para
novas construções é fonte de estratégias ativas na transformação
do centro, pelo próprio IPHAN. Nessa análise, a autora definiu-se
pela demonstração das estratégias criadas para a inserção de
novas construções em dois locais específicos: o edifício Arco
do Telles e o entorno do Palácio Gustavo Capanema. Os dois exemplos
paradigmáticos de sua discussão são o Edifício no Arco do Teles
e o entorno do prédio do Ministério. O conjunto do Arco do Teles
inclui o moderno edifício construído em 1955-1961 e o casarão
histórico tombado em 1938. O casarão foi restaurado em 1961
em troca da autorização dada pelo patrimônio para a construção
edifício nos fundos do prédio, como resultado da solução encaminhada
por Lucio Costa, no sentido de só conciliar as duas posições,
aparentemente antagônicas.
Na
abordagem do conceito “adensar para preservar” utiliza ainda
a obra de Manfredo Tafuri em sua referência a Max Berg, no início
do século XX, que “propôs a construção de torres de serviços
ao redor do centro Histório de Breslau, para preservar a antiga
estrutura para uso residencial; destacando a condição de “exceção
e solução salvadora” de que a utopia dispunha para controlar
e preservar as comunidades em centros históricos.
A
autora utiliza uma linguagem elaborada, às vezes lúdica, criando
momentos irônicos, poéticos, líricos e reverentes quando fala
dos “... diferentes tempos da centralidade do Rio de Janeiro”
ou quando discorre sobre Lúcio Costa e Rodrigo Melo Franco de
Andrade; mas no mais das vezes sua escrita é densa e complexa, brincando com
as palavras e seus significados.
Com
cuidadosos desenhos e grande volume de informações, o livro
é formatado em três partes principais, subdivididas em capítulos.
A forma, a função e a norma; Os arquétipos, um tipo e alguns modelos
e Os monumentos do limite
ou ‘quanto mais a gente sobe, mais o Rio é bonito’.
Na
primeira parte a autora apóia-se em diversos autores e teóricos
no sentido de buscar elementos e conceitos que referendem e
embasem suas hipóteses. Assim, busca as idéias de Giulio Carlo
Argan e seu discurso sobre duas culturas em guerra – a da modernidade
e a da preservação; utiliza os conceitos de Walter Benjamin,
que a ajudam a provar a hipótese paradoxal de que “certa
espécie de produção de mercadorias foi tecida pela entidade
encarregada de proteger o ambiente urbano”; ou ainda trabalha
sobre os diferentes sentidos de verticalidade citando Milton
Santos, Manfredo Taduri, Nádia Somek, Maria Adélia de Souza
e Silvia Fisher e outros. Numa evolução histórica da “arte de
construir cidades”, faz breve histórico dos sentidos da verticalidade;
examinando as causas, o desenvolvimento e o significado dos
edifícios altos, símbolo de poder, abordando suas conseqüências
para o solo, a densidade, a morfologia urbana e a estrutura
social urbana. Nessa linha de raciocínio classifica os primeiros
edifícios – protótipos da primeira escola de Chicago 1888, como
a base dos arranha-céus multifuncionais contemporâneos. Ou seja,
ao integrar forma e função, tais edifícios integravam as necessidades
das sociedades às soluções arquitetônicas, gerando os tipos
mais característicos do funcionalismo e racionalismo modernos,
alterando definitivamente o skyline das cidades contemporâneas.
Faz ainda uma critica contundente das torres mais altas do mundo,
como as Twin Towers de César Pelli , em Kuala Lumpur, que a
autora diz “parecerem projetadas para se tornarem os novos obeliscos
de Quéops: uma obsoleta e inútil exibição do poder”.
Na
segunda parte, a autora trata da trajetória do Iphan, seu surgimento,
histórico e papel desde a criação em 1937 até hoje, discorrendo
sobre os autores das principais cenas que construíram o pensamento
e as ações institucionais da instituição. Na última parte, Cêça
discorre com sua palavra precisa, sobre as tipologias do patrimônio
como sobrados, torres, arranha-céus em diferentes espaços e
relações, além de falar dos processos de verticalização das
avenidas Antonio Carlos e Presidente Vargas.
Recheia
seu texto de exemplos, adjetivos e referências reverentes aos
dois maiores responsáveis pela ética e estética do Iphan, Rodrigo
Melo Franco de Andrade, seu primeiro diretor, de 1937 a 1967
e Lúcio Costa. Evidencia a posição de ambos no caso dos Arcos
da Lapa, que, como diria Rodrigo Melo Franco de Andrade, “então
afogados em construções medíocres”, e que mais tarde, felizmente
seriam liberados da ambiência que cercava o aqueduto, em projeto
de Lucio Costa que lhe dava total visibilidade. Ao cabo e ao
fim, a autora conclui que as idéias do órgão diziam respeito
não só à preservação, mas também às novas construções. Ao referir-se
à área central do Rio de Janeiro, Cêça descreve-a como “local
que abriga a simultaneidade de tempos formais e sociais, (numa
alusão à face criativa do trabalho preservacionista), ou seja,
aponta e constata a herança do Iphan como uma ação intencional
na transfiguração do vazio e do novo”.
Ao
longo do livro, percebe-se claramente a tensão existente, em
todas as épocas, na implementação de projetos de recuperação
e atitudes de preservação. Fica evidente a dúvida, a responsabilidade
e o peso da decisão do autor do projeto: o que se quer destacar;
em que medida/ o que é mais importante até que ponto ceder?
Cada resposta implica em uma decisão metodológica. Daí o acalorado
debate que sempre cerca os projetos de restauração e daí a lição
da história de unir flexibilidade e saber.
Sobre
Lucio Costa, um dos intelectuais que mais contribuíram em diversos
campos da cultura brasileira, Cêça sempre tem muito que falar.
Suas transcrições sobre a altura das edificações analisadas
fundamentam-se nas idéias de Lúcio Costa, deixando cristalina
a atuação multifacetada do arquiteto da modernidade e da tradição,
mencionando os argumentos do urbanista de Brasília para justificar
as torres de seu projeto para a Barra da Tijuca, numa tentativa
de impedir a substituição das casas originais pelos edifícios,
como acontecera em Copacabana, Ipanema e Leblon; na Barra a
idéia era começar pelos prédios, definindo de antemão onde implanta-los
ou onde proibi-los.
A
análise dos documentos do Iphan mostrou o desenrolar do processo
que acabou levando à flexibilização da aplicação do tombamento
e dos “novos modelos de proteção”, no que diz respeito à “inserção
de novas construções” em meio a bens tombados. A autora acaba
concluindo que, ao longo do tempo e por força do mesmo, a estética
iphaniana, que acabou definindo a morfologia das ruas do entorno
do prédio do MEC, parece inspirar-se basicamente em idéias constantes
dos projetos urbanos iluministas e funcionalistas, de base sanitarista
e higienista, do urbanista Alfred Agache. Enfim, caracteriza
a atuação do Iphan como um “redimensionar da idéia de ter o
olho e a mente no futuro”. Afinal, desde sua fundação, o grupo
do Iphan possuía “a competência e o saber para permitir e bem
construir”, o que lhe assegurava pleno poder político.
Todo
este discurso de flexibilização criativa, competência e o saber
para fazer, preservar e deixar fazer, o discurso da criatividade
nas obras de restauro, conservação e proteção nos parece uma
reafirmação de um novo velho caminho, um “abre-alas” para vários
casos, sobretudo para as cidades médias e pequenas que, se por
um lado, ainda não têm muitos imóveis tombados, por outro lado,
são permeadas por certo medo irracional e ilógico de, através
dessas ações de tombamento, interferir negativamente no desenvolvimento
urbano. Assim, “competência e o saber para permitir” passam
a ser, mais do que nunca, e provado está desde sempre, a regra
de ouro para a conciliação de opostos e uma convivência adequada
e equilibrada em nossas cidades.