| As
duas tradições no ensino de arquitetura no Brasil
resenha de josé lamas
O
interesse pela Arquitetura, o seu estudo e compreensão têm constituído
nos últimos 20 anos um tema em franco desenvolvimento. Assim se
têm multiplicado os levantamentos e registros, as dissertações
e investigações sobre a produção arquitetônica nas diferentes
regiões, culturas e períodos da História. Esta reflexão sobre
os edifícios antigos é também uma forma de preservação, repropondo
sua conservação e reutilização nas cidades contemporâneas nas
quais têm imprescindível lugar.
Alberto
Sousa propõe uma abordagem diferente e inédita para o estudo da
arquitetura no período do “Brasil Imperial”: vai procurar e identificar
as características das escolas e do ensino onde os autores / arquitetos
aprenderam, e verificar as influências que essas mesmas Escolas
e sua formação tiveram na produção arquitetônica desses autores
nesse período.
Através
das origens da aprendizagem e formação, encontra em diversos autores
e obras um denominador comum, de influências e afinidades, para
além de outros mais recorrentes e circunstanciais, como o meio
geográfico e cultural ou as correntes européias que exportavam
modelos e arquitetura.
Já
se conhece suficientemente a existência de “modelos” e o seu importante
desempenho no processo de criatividade e trabalho por “imitação”,
que sempre caracterizou a concepção da arquitetura e das artes.
Mas Alberto Sousa coloca o papel (até aqui pouco estudado) que
as Escolas e o Ensino vão ter na produção da Arquitetura. Remetida
neste trabalho a um período estrito (o Brasil Imperial), esta
questão é extensiva a diversas épocas e contextos. Abre também
um importante caminho para o estudo da produção arquitetônica
em diversos períodos e contextos em que se deverá recorrer à noção
de “Escola de Arquitetura” para compreender as obras e os seus
autores. Obras cujo denominador comum se explica pela aprendizagem
que os seus autores terão recebido na sua formação e continuado
na profissão.
É
assim que Alberto Sousa nos expõe duas tradições (e formações)
que se vão confrontar nas construções realizadas no Brasil –
a tradição portuguesa do Arquiteto-Engenheiro e a tradição
francesa do Arquiteto das Academias (Belas Artes) –,
aí gerando duas correntes na arquitetura produzida que resulta
fundamentalmente de escolas também diferentes: a Arquitetura produzida
por Arquitetos-Engenheiros militares formados no Rio de Janeiro,
e a arquitetura produzida por arquitetos brasileiros ou emigrantes,
e formados no estrangeiro em ensino artístico de Belas Artes.
Ressaltam
as diferenças estilísticas entre ambas as correntes, com maior
severidade e despojamento na arquitetura projetada por Arquitetos-Engenheiros
militares, e o mais elaborado e decorado produto da formação artística
nas academias de Belas Artes. Finalmente, as contribuições de
arquitetos estrangeiros, também esses de formação em Belas Artes,
que se fixam no Brasil e aí constroem.
A
validade do método e hipótese propostos por Alberto Sousa lança
pistas para a explicação e também para reflexão sobre a arquitetura
e compreensão dos fenômenos que produzem as responsabilidades
(que são tremendas) do ensino na construção da noção de “Escolas
de Arquitetura”.
Anos
mais tarde, e com o advento da Arquitetura Moderna no Brasil,
ressoam de novo as mesmas questões – a importância da Escola num
dos mais importantes e fascinantes momentos da arquitetura moderna
– a Arquitetura Moderna Brasileira. Aí talvez (mera hipótese)
se poderá encontrar um elo de ligação no arrojo da Arquitetura
Moderna Brasileira, só possível pela integração de profundos saberes
de engenharia, como se de renovados Arquitetos/Engenheiros se
tratasse. Um século após a produção desses grandes construtores
que foram os Arquitetos-Engenheiros militares.
Da
leitura do trabalho de Alberto Sousa sai o leitor enriquecido
e mais esclarecido – como foi o meu caso – pela contribuição do
método e hipóteses propostas, que são extensivas a outros períodos
da arquitetural! Mas também pela demonstração da existência de
uma Escola de Arquitetura Portuguesa, que continua neste período
do Brasil Imperial, pela formação do “Arquiteto-Engenheiro militar”
contraposta à outra formação – a do “Arquiteto-Artista” -, que,
através de ensaios como este, se vai atualmente consolidando e
reconhecendo no seu valor histórico e documental.
José
Manuel Ressano Garcia Lamas é arquiteto, nascido e formado em
Lisboa, Portugal, e doutor em urbanismo (Aix-en-Provence, França,
e Lisboa). Autor do conhecido livro Morfologia Urbana e Desenho
da Cidade, é Professor Catedrático da Faculdade de Arquitetura
da Universidade Técnica de Lisboa. Realizou numerosos projetos
de arquitetura e planos de urbanismo, tendo recebido, em 1997/98,
o “Prêmio de Mérito Especial” do Conselho Europeu de Urbanistas.
Leia
também "O
classicismo arquitetônico no Recife imperial",
de Rafael Moreira, sobre outro livro de Alberto Souza |