| Paradoxos
revisitados
resenha de antônio agenor
de melo barbosa
É
inexorável que as cidades, em qualquer tempo ao longo da história,
passem por transformações e modificações na sua morfologia geradas
por fatores dos mais diversos. Assim, as guerras, terremotos,
incêndios, atentados terroristas e outros infortúnios oriundos
da natureza, da mão humana e, sobretudo, das tendências culturais
vigentes em cada época são capazes de, a um só tempo, destruir
e modificar cidades ou partes delas de maneira irreversível.
São
célebres algumas destas trágicas ocorrências – naturais ou artificiais
– que, inevitavelmente, transformaram em definitivo o aspecto
de cidades inteiras desde a Antiguidade aos nossos dias. Na Europa,
do grande terremoto que destruiu quase completamente a velha Lisboa
em 1755, surgiu uma nova urbanidade apoiada na razão iluminada
do Marquês de Pombal. Desta forma, tradição e modernidade foram
ali alçadas a um patamar comum. No Novo Mundo, após o trágico
incêndio que arrasou Chicago em 1871, uma geração de jovens arquitetos
emerge propondo modelos e tipologias arquitetônicas até então
inusitadas para uma cidade que, ainda no início do século XX,
era mais conhecida pela fama internacional do gângster Al Capone
que pela qualidade de sua arquitetura. Esta nova tipologia de
edifício, disseminada e construída paulatinamente após o incêndio,
é hoje o símbolo (cultural) maior de Chicago e também de outras
grandes cidades norte-americanas: o arranha-céu.
Arranha-céu,
edifício alto, espigão (sic) e torre são, dentre outras, as denominações
mais comuns para aquele tipo de arquitetura que, pela sua espetacular
dimensão vertical, parece tangenciar o firmamento. Certamente,
ainda freqüentam a nossa memória as impressionantes imagens dos
atentados às Torres Gêmeas do complexo WTC – verdadeiros símbolos,
“em pedra”, do poder hegemônico dos EUA – no episódio de 11/09/2001.
Aos que se impressionam com esta aventura arquitetônica da modernidade,
cabe registrar que a intenção dos homens de edificar uma grande
torre – ou um protótipo de arranha-céu –, está relatada na Bíblia
com a construção (impossível) da Torre de Babel. O castigo celestial,
fomentado pela incapacidade dos homens de se comunicarem, foi
uma resposta à tamanha pretensão humana: a de igualar suas obras
terrenas às criações divinas.
Por
estas breves linhas acima o leitor já pode perceber o alto valor
simbólico que um arranha-céu, a despeito da qualidade de sua arquitetura,
consegue imprimir à paisagem de uma cidade. E este simbolismo,
certamente, está calcado nas forças do capital que, dentre outros
fatores secundários, dominaram boa parte da produção sócio-espacial
dos ambientes urbanos ao longo do século XX. Também não se pode
pensar a respeito deste tema sem se levar em conta algumas das
novas tecnologias que, juntas, permitiram a excessiva verticalização
das edificações na virada do século XIX para o XX: o concreto
armado e o elevador.
Ainda
que os nossos arranha-céus tropicais não sejam tão imponentes
quanto os similares norte-americanos – a despeito de Le Corbusier,
provocativamente, tê-los achados baixos quando da sua visita a
Nova Iorque em 1935, quatro anos após a inauguração do famoso
Empire State – , vejamos o caso do Rio de Janeiro e de toda a
sua Área Central, que deita suas raízes no século XVI, e mais
especificamente o entorno da atual Praça XV de Novembro outrora
denominada de Largo do Carmo. Como foi possível que, nas bordas
de um dos berços pioneiros da história urbana carioca, fossem
construídos tantos edifícios altos que pouco – ou quase nada –
contribuem para a boa integração entre o nosso passado histórico
tradicional e o desenvolvimento urbano moderno inerente à sua
condição de metrópole?
Pois
são reflexões como esta que norteiam o excelente livro “Paradoxos
Entrelaçados – As torres para o futuro e a tradição nacional”
da Professora Cêça Guimaraens. Arquiteta por formação, Doutora
em Planejamento Urbano pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento
Urbano e Regional (IPPUR) e professora da FAU – UFRJ, Guimaraens
produziu um livro que deve ser lido obrigatoriamente por todos
aqueles agentes (públicos ou privados) que estão envolvidos direta
ou indiretamente na produção social do espaço urbano do Rio de
Janeiro.
Já
nos preâmbulos de sua obra, revela-se a força do seu intento pelos
elogiosos comentários de especialistas do porte de Maurício Abreu,
Ana Clara Ribeiro e Ruth Verde Zein. Desta forma, a autora construiu
uma obra que, pela originalidade da temática abordada, já poderia
pertencer ao seleto rol de obras de referência sobre o assunto.
Composto
de nove capítulos centrais mais a introdução e conclusão, o livro
em questão aborda de maneira instigante conceitos aparentemente
análogos mas, na verdade distintos e, paradoxalmente, complementares
que são o “Patrimônio e a Memória aplicados ao estudo da área
central do Rio de Janeiro”, conforme anuncia o texto introdutório
do Professor Maurício Abreu, na contra-capa do livro.
Mais
ainda, a autora busca revelar de que maneira homens e instituições
que tinham como principal missão a de preservar o nosso patrimônio
edificado – em última instância a nossa “tradição nacional” –
, permitiram que este patrimônio fosse descaracterizado por conta
das inúmeras construções, a partir da segunda metade do século
XX, de “torres para o futuro”.
A
mais importante destas instituições preservacionistas, de âmbito
federal, à qual a autora dedica vários capítulos é o IPHAN: sigla
de Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Originalmente
denominado SPHAN – com o “S” significando Serviço – , o órgão
foi fundado em 1937 por um grupo de intelectuais e artistas liderados
por Rodrigo Melo Franco de Andrade que capitaneou o “Serviço”
por quase 30 anos. Homem de vasta cultura, educado em Paris na
adolescência, jornalista, advogado, poeta e com trânsito livre
entre políticos e personalidades da República, Rodrigo era sobrinho
do jurista Afonso Arinos, primo do Embaixador Afrânio de Melo
Franco e neto do Senador Virgílio de Melo Franco. Tudo isto para
que o leitor possa perceber, em breves linhas, conforme nos relata
Guimaraens, “a largueza de sua visão no que diz respeito aos termos
designativos de bem cultural.”
A
sede do IPHAN permaneceu, desde a fundação do órgão, no Rio de
Janeiro até o início da década de 90 quando, após o Governo Collor,
a equipe foi imediatamente transferida para Brasília. Feita esta
brevíssima genealogia do IPHAN e de seu principal mentor, a autora
tenta fundamentar a hipótese central de que a “idéia de centro
urbano dinâmico conduzida pelo IPHAN gerou a inserção de edifícios
altos em áreas centrais e flexibilizou as normas de proteção
de arquiteturas e paisagens tombadas”. Também faz-se importante
reiterar que o desenvolvimento da trajetória profissional da maioria
dos jovens personagens iphanianos, ocorreu simultaneamente à “época
de intensa modernização das cidades e de suas linguagens” arquitetônicas
e urbanas. É pois, com esta tese bastante criativa que Guimaraens
tece o complexo caminho para que percebamos os “paradoxos entrelaçados”,
à luz da dicotomia tradição e modernidade, que intitulam sua obra.
Aqui
cabe registrar que, para aqueles que acompanham os escritos da
autora, em seu mais conhecido livro – sobre o Urbanista Lúcio
Costa – anteriormente publicado, em 1996, como parte integrante
da coleção “Perfis do Rio”, Guimaraens já sinalizava nitidamente
nesta direção de tentar entender as instigantes relações estéticas
dos arquitetos do modernismo com a dita “tradição nacional”. Naquela
obra, ainda nas primeiras páginas, o leitor mais atento fica sabendo
que Lúcio Costa, também pioneiro fundador do IPHAN, “construiu
a sua singularidade quando entrelaçou (...) incompatibilidades
culturais: à tarefa de preservar as arquiteturas antigas adicionou
simultaneamente o desejo (...) de construir, gerando os paradoxos
conformadores da idéia contemporânea de proteção do patrimônio
histórico.” (grifo nosso).
Por
fim, cabe mencionar que, se à primeira vista o conceito de tombamento
de edifícios e de áreas urbanas antigas parece incompatível com
a concessão (ética e estética) da licença iphaniana para a construção
de arranha-céus ao redor destas áreas, pelo relato minucioso da
autora, fica-se sabendo que este complexo jogo de “pólos opostos”
foi, paradoxalmente, unido pelos ideólogos pioneiros do IPHAN
e, em última instância, pelo Modernismo.
Antônio
Agenor de Melo Barbosa é professor da Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo (FAU) da UFRJ , da Universidade Gama Filho e do Centro
Universitário Plínio Leite
Leia
também, sobre
o livro de Cêça Guimaraens:
"Tradição
e tecnologia: uma convivência harmoniosa",
de Anita Regina di Marco
"Paradoxos
explicados",
de Carlos Kessel |