| Zevi
e Rykwert: messianismo, misticismo e paixão arquitetônica
resenha de roberto segre
Neste
convulso e dramático início do século XXI, a Editora Perspectiva
publicou dois livros de autores de tendências divergentes na visão
e interpretação da arquitetura; mas ao mesmo tempo unidos pela
procura das raízes, do ancestral, do originário da nossa cultura,
da nossa sociedade, da nossa história, com o objetivo de ajudar
a compreender e resolver as incógnitas deste presente incerto
e o de um futuro imprevisível. Presos nas estruturas duais de
um pensamento obsoleto; nós estamos submetidos á “unidimensionalidade”
política do Império – tão questionada por Herbert Marcuse – em
um momento em que deveriam desaparecer as contradições radicais
com a crise dos grandes sistemas ideológicos, e começar uma época
de articulações e nuances entre similitudes e diferenças
(Jacques Derrida); de rizomas e multiplicidades (Gilles Deleuze
e Félix Guattari). Voltamos á antítese do bem e o mal; de Deus
e o Diabo. A harmonia entre os deuses foi extinta: Cristo se contrapõe
a Allah; Bush proclama a validade do Evangelho – God
Bless América –; Saddam Hussein recita o Corão. Uns matam
em nome do cristianismo e da civilização ocidental; os outros
se suicidam para defender o islamismo. Eles imaginam que as guerras
“santas” são um mal necessário para chegar mais rápido ao Paraíso.
No entanto, a dúvida persiste: será que Deus e o Paraíso existem
em outras vidas ou em outros mundos?
Zevi
e Ryckwert também foram vitimas da incompreensão e da perseguição
racial e religiosa: o primeiro teve que sair da Itália de Mussolini
para os Estados Unidos em 1940; o segundo, em 1939, fugiu da Polônia
invadida pelos nazistas para a Inglaterra. Marcados pela Diáspora
e pela herança Mosaica que, desde a saída do povo judaico do Egito,
inspira a luta contra a injustiça e a repressão, e pela liberdade
de expressão individual; eles encontraram na história da arquitetura
– “seduzidos pela memória”,
segundo Andreas Huyssen – o caminho para desenvolver apaixonadamente,
na pesquisa, na crítica e na ação projetual, um instrumento de
luta que orientasse os profissionais na elaboração de soluções
urbanísticas e arquitetônicas, apropriadas para o desenvolvimento
harmônico da vida social. É admirável o otimismo no gênero humano
que se evidencia nos textos escritos ao longo da segunda metade
do século XX, definindo duas posições contrapostas na historiografia
deste período. Zevi, desde os anos quarenta defendendo como um
bersagliere os conteúdos orgânicos e expressionistas
do Movimento Moderno – assumindo como modelos Wright e Mendelsohn,
e evitando sempre utilizar a palavra “estilo” –; Rykwert, tentando
de manter viva a chama do Iluminismo e da tradição clássica, desde
a antiga Grécia até os mestres do Neoclassicismo, que ele define
como os “primeiros modernos”.
Os
dois livros tratam de temas diferentes: o primeiro, é uma seleção
de artigos escritos por Zevi para estabelecer os conteúdos conceituais
e filosóficos da arquitetura atual relacionados com o pensamento
judaico; e exemplificados na obra de Erich Mendelsohn, considerado
como o principal arquiteto do século XX, e síntese da identidade
cultural dos judeus assentados em Israel. O outro, é um profundo
e sofisticado estudo sobre as origens da arquitetura, associados
com a imagem, interpretação e difusão do protótipo da cabana primitiva.
O que estes textos têm em comum? Inicialmente, o abandono dos
grandes ciclos históricos e o estudo de casos específicos em profundidade,
para extrair daí a interpretação de fenômenos mais abrangentes
e generalizáveis: é a implementação da “micro-história” definida
por Carlo Ginszburg. Além disso, a procura da complexa significação
da arquitetura, nas suas múltiplas dimensões como assinala Josep
Maria Montaner – política, cultural, arqueológica, antropológica,
sociológica, artística, literária, psicanalítica e religiosa –
, para encontrar a essência e os conteúdos éticos e morais da
produção contemporânea, coincidentes com as necessidades e aspirações
sociais; o que não coincide com a realidade ambiental do mundo
contemporâneo, tão dominada por modismos, desperdícios, excessos
e a hipocrisia dos profissionais, voltados ao serviço do grande
capital e das vantagens econômicas, como acontece com alguns dos
“mestres” da arquitetura moderna: Rem Koolhaas, por exemplo, representaria
o padrão do cinismo vigente e dos valores opostos às teses de
Zevi e Rykwert.
Os
dois livros foram escritos muito antes dos acontecimentos que
marcaram o fim e o início do século XXI: a queda do Muro de Berlim,
o atentado ao WTC em 11 de setembro de 2001, e as guerras de Afeganistão
e Iraque. Ou seja, não contêm a visão pessimista que se poderia
ter hoje. Zevi, defende euforicamente o surgimento do “deconstrutivismo”,
identificado com as obras de arquitetos judeus – Daniel Libeskind,
Frank Gehry, Richard Meier e Peter Eisenman –, como um resgate
renovado dos princípios de liberdade formal e espacial dos pioneiros
do Movimento Moderno; em contraposição ao “decadente” pós-modernismo,
que ele agressivamente identifica na figura de Paolo Portoghesi.
Rykwert tem esperanças no futuro próximo, com as iniciativas progressistas
que enumera no último capítulo do recente livro The Seduction of Place. The City in the Twenty-First Century. Ou seja, que o mergulho deles na história
e na memória, não é um retórico exercício acadêmico, mais um resgate
de mitos e ritos, que ainda estão presentes na cultura social
moderna. Quando se fala da “história como amiga” – parafraseando
Louis Kahn –, é justamente com o desejo de olhar o passado a partir
do nosso presente; contudo, Zevi e Rykwert, segundo o historiador
grego Panayotis Tournikiotis, o assumem com uma atitude diferente:
para o primeiro, as fontes são procuradas como catarse e demonstração
de uma verdade assumida e messianica: a evolução do espaço arquitetônico
se identifica com a luta pela liberdade criativa dos iconoclastas
ou inconformistas contra a repressão da academia, que culmina
no movimento orgânico de Wright, agora resgatado pelo deconstrutivismo.
Por outro lado, Rykwert não propõe um modelo, mas demonstra –
seguindo os passos de Ernst Cassirer, Erwin Panofsky, Rudolf Wittkower
e Christian Norberg Schulz – que o homem é um animal simbólico,
e que este universo semântico de signos existe como componente
referencial para as obras ou cidades construídas na atualidade.
Sua visão “metamoderna” descobre os enunciados estéticos, religiosos
ou ideológicos vigentes desde as fundações dos primeiros assentamentos
gregos e romanos até o racionalismo do século XX, caracterizando
os conteúdos simbólicos profundos determinantes da densidade da
linguagem artística que se desenvolveu com o classicismo, onde
a linha reta não se contrapõe á decoração. O rigor e o ascetismo
desta tradição aparece nas obras de Aldo Rossi, Giorgio Grassi
e no recente resgate da cabana primitiva na casa Rudin de Herzog
& De Meuron em França, e na Zachary
House de Stephen Atkinson em Louisiana, Estados Unidos.
Não
tenho notícia se eles tiveram um relacionamento pessoal. Estiveram
ao mesmo tempo em Londres no início dos anos quarenta sob os bombardeios
alemães dos foguetes V1. Zevi, com 25 anos, segundo o testemunho
de Andréa Oppenheimer, em vez de descer ao refúgio de noite, escrevia
o primeiro livro Verso una
architettura organica, publicado na Itália em 1945. Rykwert,
com 18 anos, começava os estudos de arquitetura na Bartlett
School. Posteriormente, ele passou um período em Roma, onde
conheceu Roberto Calasso que propôs a escritura da “Casa de Adão”.
Poderia ter encontrado Zevi no final dos anos sessenta. Mas as
posições diferentes que sustentaram, no campo das suposições,
os distanciavam nas afinidades pessoais. No pequeno texto Architettura. Concetti di uma Controstoria,
Zevi dedica um parágrafo a Rykwert, com o título Ritorno alle origini in architettura. Mas no recente livro de Rykwert.
sobre as cidades no mundo atual, publicado no ano 2000, Zevi não
aparece citado. Além das diferenças existentes na visão da arquitetura,
eram duas personalidades bem opostas. Rykwert, é um professor
e pesquisador canônico do Primeiro Mundo, totalmente dedicado
à academia, primeiro na Inglaterra, e desde 1988, na Universidade
de Pennsylvania. Os seus escritos expressam a sua seriedade, e
a “fleuma” inglesa, sem a tradição humorística polonesa, de W.
Gombrowitz e de J. S.
Mrozek, que líamos com paixão em Cuba, pelas criticas ao stalinismo.
Com exceção do recente ensaio, mais voltado para um público geral;
os seus textos são de grande erudição e não de fácil leitura.
É
provável que a vida sofrida de Zevi ao longo do século XX – a
Segunda Guerra Mundial; o drama do Holocausto; a perda das ilusões
no socialismo europeu com o stalinismo russo que também perseguiu
os judeus; e a corrupção dos políticos italianos – ; o tenha levado
à postura agressiva e polémica que sempre exibia, além de um caráter
efusivo, expansivo e apaixonado, quase garibaldino.
Primeiramente, na Itália, se posicionou contra Mussolini e o fascismo,
num momento em que ainda não ficava clara a posição de muitos
arquitetos modernos que apoiavam o regime. Zevi compreendeu de
imediato o caráter totalitário e anti-semita do fascismo, e o
apoio ao monumentalismo de Piacentini. Instalado em Harvard, no
curso de pós-graduação dirigido por Gropius, entrou em contradição
com os métodos de ensino e criticou o Mestre. Tinha como colega
Philip Johnson, com quem susteve acaloradas brigas. A sua defesa
apaixonada de Wright levou-o a criticar duramente a arquitetura
das “caixas brancas”.
Voltando à Itália todo o seu esforço foi dedicado à difusão dos
princípios da arquitetura orgânica, como único caminho possível
para superar a rigidez geométrica do Racionalismo, integrando
o movimento norte-americano com as realizações do expressionismo
alemão. Na sua “contra-história” demonstrou o quão esquemáticos
eram os princípios da Carta de Atenas e do CIAM – percepção que
também teve Rykwert no seu período de estudante em Londres –,
valorizando os movimentos marginais e os arquitetos que não faziam
parte do “jet set” racionalista: Gunnard Asplund, Alvar Aalto,
Erich Mendelsohn, e alguns da vanguarda italiana: Sant´Elia, Pérsico
e Pagano. Uma visão alternativa da historia canônica que culmina
com as sete categorias que ele estabelece como fundamentação da
arquitetura moderna.
Para
nós que estudamos arquitetura na segunda metade do século XX,
Zevi foi um “guru” intelectual. Todos os estudantes de arquitetura
na América Latina, leram Saper
vedere l´architettura, que nos entusiasmava com uma visão
original, inovadora e criativa da história; que nada tinha em
comum com os tediosos Fletcher, Choisy, ou o mais recente Pevsner.
Ainda que sem concordar totalmente com a sua identificação irrestrita
ao movimento orgânico e com Wright – pouco compreendido no contexto
latino-americano –, suas interpretações dos mestres clássicos,
eram sempre inéditas e insólitas: compreendemos as contribuições
“anticlássicas” de Brunelleschi,
de Miguel Angelo, de Borromini, de Guarino Guarini. A revista
L´Architettura. Cronache e Storia, foi lida avidamente, em particular
com grande interesse pelos desenhos de obras e de arquitetos pouco
conhecidos que apresentava. Mas, a visão de Zevi era muito restrita,
valorizando obras italianas de duvidosa significação cultural,
e com um tratamento gráfica pouco atraente, e progressivamente
perdeu interesse. Mas o que foi admirável em Zevi, era o seu compromisso
político – foi deputado pelo Partido Radical no Parlamento italiano
–, e o seu desejo de criar uma cultura arquitetônica popular.
Por anos fui leitor da coluna que manteve no L´Espresso, e que a cada semana explicava ou criticava os acontecimentos
da arquitetura e do urbanismo no mundo, sempre com uma visão polêmica,
tentando chegar à um público não especializado, para sensibilizá-lo
com os graves problemas da realidade “ambiental” no mundo. O estilo
jornalístico de alguns destes artigos estão presentes neste livro
publicado pela Perspectiva.
Em
resumo, os dois estudos guardam semelhanças e diferenças. São
a expressão da seriedade e vocação pela história de dois dos mais
importantes pesquisadores e críticos da segunda metade do século
XX. As teses que Rykwert demonstra ao longo do ensaio, com a sua
profundidade e erudição, são dificilmente questionáveis. Não é
o mesmo com Zevi, que com a sua exuberância e veemência, assume
posturas sem nuances. É possível admitir que exista uma expressão espaço-temporal
que tenha alguma conexão com a cultura judaica; mas que o deconstrutivismo
seja uma conseqüência desta cultura só porque participam do movimento
alguns arquitetos judeus, constitui uma visão limitada, dificilmente
aceitável: Zaha Hadid, Bernard Tchumi, Rem Koolhaas, os grupos
holandeses: MVRDV e Mecanoo, Van Berkel e Bos, Coop Himmelblau,
Maximiliano Fuksas e outros, utilizam a mesma linguagem, e não
têm nada em comum com a cultura judaica. É a expressão de uma
contemporaneidade que se define por múltiplos fatores – culturais,
tecnológicos, sociais e econômicos –, que predominam nos países
desenvolvidos. E Erich Mendelsohn, sem dúvida teve uma importância
essencial no início do Movimento Moderno, nem sempre aceita no
contexto europeu daqueles anos como bem explica Zevi, mas as obras
realizadas na Inglaterra, Estados Unidos e Israel, não possuem
a mesma originalidade e o caráter inovador que tiveram as construídas
nos anos trinta na Alemanha. Sem falar dos desenhos realizados
no período da Primeira Guerra Mundial, que marcaram o desenvolvimento
da linguagem expressionista até hoje.
Não
seria justo fechar esta nota sem uma referência à editora Perspectiva,
e ao seu diretor Jacó Guinsburg e ao equipe de trabalho, neste
caso dirigida pela engenheira Anat Falbel, que teve a responsabilidade
da edição dos dois livros, com a colaboração de Mário H.S. D´Agostino
no
caso da Casa de Adão no Paraíso. Nestes tempos de TV, Multimídias,
CD-Roms, acreditar na leitura apaixonada de livros especializados
como estes, por arquitetos e estudantes, pode até parecer uma
ilusão, para não dizer uma aspiração utópica. Guinsburg é um otimista,
e um grande lutador pela cultura brasileira. Os mais de 700 títulos
publicados ao longo de quase quarenta anos nas duas coleções “Debates”
e “Estudos”, constituem um acervo indispensável para os intelectuais,
estudantes, pesquisadores e profissionais que trabalham nos diferentes
campos da cultura no Brasil. Seu apoio aos temas de design, arquitetura
e urbanismo, abriu o caminho que posteriormente trilharam outras
editoras como a Martins Fontes e a persistente Carla Milano da
Editora Nobel. Os principais pensadores, filósofos, críticos e
historiadores da arte e da arquitetura universal; assim como os
especialistas brasileiros, têm algum livro editado pela Perspectiva.
Estes dois novos volumes, se somam a esta longa série de títulos
inesquecíveis sobre a arquitetura mundial.
Roberto
Segre, arquiteto e crítico de arquitetura, professor da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do
Rio de Janeiro, onde é atual coordenador do PROURB
Leia
também "Arquitetura
e judaísmo: Mendelsohn",
de Vittorio Corinaldi, sobre
o livro de Bruno Zevi
Leia também
"Aurora
paradisíaca do homem e da arquitetura",
de Mário H. S. D'Agostino, sobre o livro de Joseph Rykwert
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