| Lições
de um mestre da arquitetura
resenha de antônio agenor
de melo barbosa
Homem
que teve a vida e a obra tão extensa quanto fundamental para a
construção do Brasil no século 20, Lúcio Costa, na maturidade,
dedicou-se a produzir este opúsculo de bolso, intitulado Arquitetura.
Ao idealizador de Brasília e da Barra da Tijuca, foi delegada
a tarefa de escrever sobre o seu ofício – a arquitetura – tendo
como público-alvo estudantes secundaristas.
Patrocinado
pelo Ministério da Educação – cujo edifício-sede no Rio Lúcio
Costa projetou em 1936, juntamente com uma equipe de jovens promissores
arquitetos brasileiros e mais a consultoria de Le Corbusier –
este Arquitetura passou, infelizmente, mais de 20 anos
escondido do público. Era, portanto, uma obra praticamente desconhecida,
até por alguns estudiosos renomados da obra desse homem que, pode-se
assim dizer, foi um dos principais mentores e construtores do
Brasil moderno novecentista.
A
despeito da visível singeleza da obra em questão, Lúcio Costa
empenhou-se de tal maneira que nos fez lembrar o célebre ensinamento,
dedicado aos jovens estudantes de arquitetura, do arquiteto norte
americano Frank Lloyd Wright, seu contemporâneo: ''Considere tão
desejável construir um galinheiro ou uma catedral; o caráter pode
ser grande no pequeno ou pequeno no grande".
Pois
a leitura de Arquitetura nos revela, numa edição simples
e sem ornamentos, a grandeza do pensamento de Lúcio Costa. Já
nos preâmbulos do livro, a partir das palavras da arquiteta Maria
Elisa Costa, sua filha e colaboradora, temos a exata medida do
significado e da importância que Lúcio dedicou a esta tarefa que
lhe fora delegada: ''Como se tratava de contribuir para a formação
de gente moça, Lúcio se empenhou e conseguiu concentrar, num só
volume compacto, aquilo que a seu ver era o mais relevante, não
apenas para formar um eventual futuro arquiteto, mas no sentido
de mostrar a todos um caminho para chegar mais perto da qualidade
brasileira.'.
Arquitetura
é, originalmente, parte integrante de uma coleção composta por
dez títulos, na qual Lúcio Costa tinha como colegas escritores
figuras importantes como Gilberto Freyre (Realidade brasileira),
Josué Montello (Literatura) e Maria Clara Machado (Teatro).
O livro é estruturado em 12 capítulos, mais a apresentação escrita
pelo arquiteto Jorge Hue, um glossário e, pedagogicamente, um
capítulo de ''orientação para o professor'', onde o autor fornece
os objetivos gerais e específicos de sua obra, como também sugere
uma série de atividades didáticas que os professores poderão desenvolver
em sala de aula. Trata-se, portanto, de uma leitura essencial
não apenas aos estudantes secundaristas mas para todo aquele interessado
em aspectos fundadores da nossa arte e arquitetura.
©
Resenha publicada originalmente no Jornal do Brasil, Caderno Idéias,
seção Livros, 08 mar. 2003
Antônio
Agenor de Melo Barbosa é professor de Urbanismo da Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, da Universidade Gama Filho e
do Centro Universitário Plínio Leite. |