ISSN 2175-6694
 
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Resenhas online maio 2003, ano 2, vol. 17, p. 066

Livro resenhado:
O alvo do olhar estrangeiro. O Brasil na historiografia da arquitetura moderna. Nelci Tinem. João Pessoa, Manufatura, 2002, ilustrado [Imagem: Detalhe da capa do livro]

Arquitetura brasileira sob o olhar estrangeiro
resenha de fernando lara

Qualquer um que goste de vasculhar as prateleiras de periódicos das nossas bibliotecas já se deparou com dezenas de revistas de arquitetura estrangeiras, publicadas entre 1946 e 1960, com o Brasil ou brasileiros na capa. Niemeyer, Reidy, Levi, Irmãos Roberto, Costa, Mindlin, Burle Marx e tantos outros nomes eram tão presentes nas principais publicações internacionais quanto hoje o são Eisenman, Hadid, Calatrava, Koolhas e Nouvel. Uma revista Manchete do final dos anos 50 dizia que o Brasil era o país do futebol, da música e da arquitetura.

Meio século depois, ainda somos o país do futebol e da música, mas nossa arquitetura infelizmente nunca mais desfrutou da mesma inserção e do mesmo prestígio que teve nos anos 50. Dizemos ser urgente resgatar a valorização da nossa arquitetura brasileira contemporânea (para sermos mais objetivos) ou mesmo repensar o papel da arquitetura na nossa sociedade contemporânea (para sermos mais idealistas). Enquanto a tarefa maior de repensar a função social da arquitetura vai sendo adiada e a tarefa menor de reposicionar a arquitetura brasileira no cenário mundial vai acontecendo aos poucos, é imprescindível entendermos melhor e mais profundamente o que se passou nas décadas de 40 e 50.

Neste sentido, um pequeno livro publicado na Paraíba traz contribuições preciosas para o debate e merece ser extensivamente divulgado. O alvo do olhar estrangeiro – tese de doutorado de Nelci Tinem defendida na Universidad Politécnica da Cataluña – analisa nas suas duas primeiras partes a construção e a consolidação (palavras da autora) do discurso hegemônico da Arquitetura Moderna Brasileira. Passando pelos nacionais Costa, Mindlin, Ferraz e Lemos, a autora descostura o tecido tramado pelos pioneiros do nosso modernismo e vai discorrendo sobre os acontecimentos “eleitos” como dignos de valor histórico por estes autores. O termo eleição é aqui muito apropriado porque implica que alguns fatos foram eleitos e outros não, e o livro vai aos poucos revelando as tramas por trás das escolhas, e posterior transformação dos acontecimentos “eleitos” em verdades absolutas ou mesmo mitos. Cabe notar que a autora coloca Yves Bruand junto aos brasileiros na construção desta trama vista por dentro. Sobre a mesma trama vista de fora, é extensa a lista de estrangeiros cujo olhar é analisado pela autora: Zevi, Pevsner, Dorfles, Hitchcock, Benévolo, Giedion, Argan, Tafuri e Frampton. Segundo Nelci Tinem, Zevi, Pevsner e Dorfles seriam mais ecléticos, mais propensos a interpretações diversas acerca do moderno brasileiro. Hitchcock, Benévolo e Giedion já fazem parte de uma visão canônica, enquanto Argan, Tafuri e Frampton estariam reinterpretando os anteriores, de certa forma já desencantados com as promessas frustradas do Movimento Moderno. A autora não diz isto diretamente, mas fica claro que quanto mais distante do fato maior a possibilidade de distorções e preconceitos, o que seria o caso dos três últimos citados.

O fato de analisar de um só fôlego todos estes autores e suas contraditórias visões lançadas sobre a Arquitetura Moderna Brasileira já valeria a leitura do livro. Mas a autora guardou o melhor para a terceira e última parte do O alvo do olhar estrangeiro. A análise de 4 das principais revistas de arquitetura internacionais da época revela, em detalhes, os caminhos que levaram a arquitetura brasileira a obter o destaque internacional que desfrutou nos anos 50. As 4 revistas analisadas pela autora: L’Architecture d’Aujourd’hui, Architectural Review, Casabella e Architectural Forum respondem juntas por quase a metade de tudo que se publicou sobre o Brasil lá fora nos anos 40 e 50 (ver LARA, Fernando. Espelho de fora, Texto Especial Arquitextos 012). O texto de Nelci Tinem trabalha várias questões que sabíamos ser importantes mas não haviam sido tratadas antes com a devida base documental. Como por exemplo a ligação com Corbusier era enfatizada pela francesa L’Architecture d’Aujourd’hui ou como a Architectural Forum norte-americana perguntava insistentemente: “como pode um país atrasado produzir uma arquitetura tão vibrante e moderna”? A relação entre tradição e modernidade era muito presente na inglesa Architectural Review enquanto a questão do equilíbrio entre formalismo e invenção era tema da italiana Casabella. Em resumo, aos poucos O alvo do olhar estrangeiro vai nos dizendo muito mais sobre os filtros deste olhar estrangeiro do que sobre o alvo propriamente dito. Italianos preocupados com formalismo, franceses preocupados com Le Corbusier, ingleses preocupados com a tradição e norte-americanos preocupados com o fato de que com menos dinheiro e menos tecnologia se fazia uma arquitetura melhor do que a deles. O recado é claro: leiamos as revistas estrangeiras com o devido distanciamento, cientes de que elas tem seus próprios preconceitos e seus objetivos inconfessáveis. Mais uma vez o livro em questão presta um serviço ao estudo da Arquitetura Moderna Brasileira ao detalhar a polêmica entre Gropius, Max Bill e Ernesto Rogers, mostrando que mais do que criticar ou defender o modernismo brasileiro, defendiam seus próprios pontos de vista e atacavam quem quer que ousasse pensar ou fazer diferente.

O livro de Nelci Tinem traz informações preciosas e com elas desmonta vários mitos suas construções, nos deixando, um recado importante. Cuidemos nós mesmos de resgatar, preservar e celebrar nossa Arquitetura Moderna porque O olhar estrangeiro continua o mesmo: celebrando nos outros aquilo que justifica seus próprios caminhos e denegrindo, nestes mesmos outros, aquilo que os ameaça.

Fernando Lara é professor do Departamento de Projetos, Escola de Arquitetura da UFMG

 

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