| Cultura
arquitetônica brasileira: evolução ou continuidade?
resenha de mônica junqueira
de camargo
Passando
em revista a produção arquitetônica brasileira dos últimos 40
anos, a arquiteta e pesquisadora Maria Alice Junqueira Bastos
escreve uma obra de coragem e de referência. Coragem porque vasculha
tabus, enfrenta fantasmas, e de referência porque vem preencher
um vazio de publicações sobre esse período. Trata-se de uma produção
ainda inexplorada. Há muito, estudantes e pesquisadores, esperavam
por um trabalho como esse. Garimpando revistas e trabalhos acadêmicos,
Maria Alice recolheu as principais idéias, tanto de projetos como
de pensamento arquitetônico, construindo uma trama que pioneiramente
analisa a arquitetura brasileira do final do século XX.
Nos
últimos anos tem se registrado um aumento considerável de publicações
sobre a produção brasileira, especialmente a moderna, mas quase
sempre avaliando a trajetória de um determinado arquiteto. Sem
dúvida excelentes contribuições, mas que nos permitem uma compreensão
apenas parcial do processo de desenvolvimento da arquitetura brasileira.
Em contrapartida temos poucas obras que buscam analisar a produção
sob a ótica da produção nacional, de maneira mais abrangente,
percorrendo um panorama arquitetônico mais amplo: Quadro da
arquitetura no Brasil; Arquitetura brasileira; Modern
architecture in Brazil; Arquitetura contemporânea no Brasil;
Arquitetura moderna brasileira; Arquiteturas no Brasil
– anos 80; Arquiteturas no Brasil 1900-1990; algumas
coletâneas: Arquitetura moderna brasileira: depoimentos de
uma geração; O lugar da crítica / ensaios oportunos de
arquitetura. Uma bibliografia ainda muito tímida se considerarmos
a quantidade e a diversidade das nossas construções. Pós-Brasília os rumos da arquitetura brasileira
assume de antemão um valor considerável que ganha mais destaque
por tratar de um período deveras conturbado.
A
estratégia adotada de confrontar as diversas idéias em função
das obras escolhidas permite vislumbrar não apenas o significado
das obras selecionadas no panorama da crítica nacional, mas também
as idiossincrasias do pensamento arquitetônico, que se aguçam
na difícil retomada do debate arquitetônico com a abertura política
do início dos anos 1980. Maria Alice dá o destaque necessário
a textos que esclarecem idéias que ficaram perdidas ou que não
quiseram ser lembradas e que são muito esclarecedoras dos rumos
que a nossa arquitetura tomou. Esclarecer que paralelamente à
repressão política dos anos de governo militar havia, por parte
de alguns arquitetos, uma declarada intenção de romper, sob o
ponto de vista da informação, com o mundo exterior traz uma nova
luz à compreensão do nosso desenvolvimento arquitetônico. A idéia
de que não tínhamos muito a aprender, que sabíamos o suficiente,
acabou por se alastrar também internamente e contribuiu ainda
mais para o esvaziamento do debate.
Avaliar
uma produção consagrada, mais hegemônica, mesmo que seja para
discordar, é sempre mais ameno, ou pelo menos mais seguro, do
que introduzir obras polêmicas, de tendências variadas que de
forma alguma constituem a maioria da produção nacional. Num corajoso
esforço de pesquisa e análise, a autora conseguiu identificar
um pensamento crítico/teórico nacional através do levantamento
de um corpo de idéias dominante, nas apreciações de projeto e
no discurso teórico.
A
análise abrange a produção realizada entre 1969 e 1990. São obras
premiadas e/ou publicadas com destaque pela imprensa especializada
que foram agrupadas pela semelhança das características arquitetônicas
de tal modo a configurar tendências que indicam que a prática
arquitetônica não é tão isolada e que existe, por um lado, uma
permanência de idéias herdadas do legado moderno brasileiro e
por outro, uma busca de novos caminhos. A seleção da primeira
e última obra estudada já são indicadores da perspicácia da autora:
Pavilhão de Osaka e Pavilhão de Sevilha, dois projetos de representação
nacional. Enquanto o primeiro reflete o discurso ideológico da
arquitetura moderna brasileira ainda, naquele momento, dominante:
valorização do coletivo por meio de espaços unificados e da ausência
de barreiras entre público e privado; e o segundo, uma proposta
polêmica, que acabou por não ser executada, sendo um dos pontos
de maior contestação a falta de atualização com o momento, dada
a sua inspiração no projeto anterior, o que sugere uma dificuldade
de superar as heranças modernas e uma falta de ousadia para inovar.
Numa
seqüência cronológica, a autora vai avaliando os projetos, cujas
análises revelam um grande poder de síntese. Todos os projetos
são adequadamente ilustrados com desenhos e fotos que permitem
sua fácil compreensão. As primeiras obras ainda corroboram a tradição
racionalista, introduzindo algum sentido revisionista como no
Pavilhão de Osaka; um certo distanciamento das preocupações construtivas
mais rigorosas como na Estação Rodoviária de Jaú; a tentativa
de incorporação de novas tendências formais como no Edifício da
Petrobrás e a persistente busca de conciliação entre uma forte
expressão formal, a pré-fabricação e a racionalização da construção
verificada nos edifícios das Secretarias no Novo Centro Administrativo
de Salvador.
Os
anos da abertura política vão instigar o reatamento com o mundo
exterior e conseqüentemente a proliferação de novos conceitos
e teorias. Uma mudança de postura do arquiteto, que passa a se
colocar no lugar do usuário e que busca uma nova relação com a
cidade, é constatada por Maria Alice em projetos de distintos
programas: o Centro Cultural São Paulo pela sua concepção balizada
não mais pelo desenho, mas por pensar e sentir os espaços; o edifício-sede
da Companhia Hidroelétrica do Rio São Francisco pela forte preocupação
de sua inserção cultural; o Sesc Pompéia onde é possível verificar
uma clara atitude de aceitação da cidade e nos novos projetos
urbanísticos: o complexo habitacional de Alfabarra; a cidade planejada
de Caraíba; o núcleo habitacional do Inocoop-Cafundá; a relocação
da cidade de Itá – Nova Itá – que promovem uma revisão crítica
de Brasília, contemplando a contextualização cultural como novo
enfoque para o desenho das cidades. Por outro lado o partido de
torres isoladas adotado nos edifícios da avenida Berrini, em São
Paulo, apresenta quase nenhuma preocupação com a criação dos espaços
públicos.
As
outras teorias que passam a alimentar o pensamento arquitetônico
são baseadas na recuperação das tradições populares e da identidade
nacional: a residência Helena Costa, um exercício do que o neocolonial
poderia ter feito; a residência dos Padres Claretianos redescobre
o saber e o prazer do canteiro; o campus da Universidade da Amazônia
evidencia uma sensibilidade e uma abertura para trabalhar a realidade
local; o Centro de Proteção Ambiental de Balbina explora a expressividade
das formas autóctones; o Externato Santa Ignez em Nova Friburgo
valoriza o uso de materiais e técnicas tradicionais, trabalhando
as características regionais; a Moradia de Estudantes da Unicamp
retoma as discussões da pré-fabricação dentro de uma perspectiva
real e não utópica. A preocupação do edifício como constituinte
do espaço urbano definiu o partido adotado no Centro de Treinamento
e Aperfeiçoamento Pessoal, Centap Bradesco Seguros S.A. – o projeto
segundo o microcosmos de cidade.
A
penetração do repertório da arquitetura internacional vai sendo
desvendada segundo as diferentes correntes ou teorias de pensamento.
Inicialmente as torres de escritórios e os shopping centers –
edifício Citibank de São Paulo e Plaza Shopping de Niterói – que
ostentam um desenho marcante referenciado na cultura das grandes
incorporações internacionais. A mudança de atitude frente à compreensão
da cultura popular: para os mestres modernos o popular era visto
pelo aspecto da essencialidade, singeleza, despojamento, que passa
a ser interpretado sob a ótica da pop arte – um gosto popular
corrompido pela televisão que aspira ao luxo e supérfluo. O Palácio
Arquiepiscopal de Mariana é representativo de uma expressão arquitetônica
que tem a preocupação de ser significativa para a população. A
crítica tipológica de origem italiana é apontada no Sesc Nova
Iguaçu, que propõe uma tipologia identificável nas estruturas
leves da região. O Senac São José dos Campos é considerado como
uma obra tributária de boa parte da discussão desenvolvida na
década de 1980: a participação do usuário como integrante da totalidade
arquitetônica e a participação da obra como determinante do contexto
urbano.
As
questões funcionais, de conforto ambiental e de espaço humanizado,
discutidas sob a ótica revisionista das tradições modernistas,
foram identificadas no projeto para o Edifício da Hering do Nordeste
S.A. Malhas. Nas análises das obras da Estação Fepasa do Largo
13 de Maio e da Sede Provisória para a Prefeitura de Salvador
Maria Alice expõe com clareza a familiaridade dos profissionais
com o sistema construtivo: uma dificuldade de adequação às novas
tecnologias expressa na estação, cujo projeto desenvolvido em
estrutura de aço guarda um certo maneirismo paulista de trabalhar
as questões estruturais em concreto aparente; enquanto é possível
notar uma clara evolução na utilização da estrutura metálica combinada
com painéis de argamassa armada na sede provisória, que explora
a versatilidade da tecnologia adotada permitindo a desmontagem
da obra e sua reutilização em outro local.
As
três últimas obras selecionadas são indicativas da consolidação
de uma determinada cultura arquitetônica nacional. O Memorial
da América Latina objetivamente analisado é a obra necessária
que cumpre o papel reforçar a importância de seu autor para a
historiografia arquitetônica brasileira. Seria praticamente impossível
traçar um panorama da arquitetura nacional, a partir do projeto
Ministério e Educação e Saúde Pública, sem que nele se incluísse
uma obra de Oscar Niemeyer, tal a quantidade, a longevidade e
a excelência de sua atuação. O Museu Brasileiro da Escultura,
longe de qualquer atitude de revisão de pensamento, vem reafirmar
a essência da produção paulista dos anos 1950/60. E o Pavilhão
Oficial do Brasil na Exposição de Sevilha, já comentado anteriormente,
reflete o peso dessa cultura e o papel que a arquitetura assumiu
para a imagem do país.
Num
balanço final, o conjunto de obras analisado por Maria Alice Junqueira
Bastos em Pós-Brasília os
rumos da arquitetura brasileira, é muito rico. Não há nenhuma
grande surpresa entre as obras escolhidas e também nenhuma revelação
profissional, mesmo considerando a diversidade de programas e
de tendências apresentadas. Nenhuma obra revolucionária que indique
uma mudança de paradigmas com a audácia que outrora tivemos. Pelo
contrário a leitura nos deixa a sensação de cautela frente às
tentativas de mudanças, de timidez em tentar superar os modelos
consagrados e que estamos longe de uma ruptura com o passado ou
de um salto frente ao futuro. Sintomas talvez de uma evolução,
sem qualquer revolução à vista. Certamente é um panorama representativo
da realidade arquitetônica nacional que ainda não havia sido traçado.
Os critérios, objetivos e claros, de escolha e análise das várias
obras tornam o texto extremamente didático e as inúmeras referências
bibliográficas fornecem muitas pistas, abrindo uma ampla frente
para novas pesquisas.
Mônica
Junqueira de Camargo, arquiteta, doutora, professora FAU-USP,
autora do livro Joaquim Guedes. Editora Cosac&Naify,
2000 |