| Geração
reeditada
resenha de luiz armando
bagolin
Depoimento
de uma geração
retorna em nova edição da Cosac & Naify após exatos 15
anos e redita discursos emblemáticos sobre a arquitetura brasileira
moderna. Os textos que a compõem, coligidos em publicações de
diversos gêneros espalhados desde a década de 20 do século XX,
configuram agora um importante e imponente material de pesquisa
reunido num só volume competentemente organizado por Alberto Xavier.
A reunião investe os vários discursos captados aqui e ali como
sequentes às obras e instruindo-as,
porquanto valiosos para o entendimento da implantação do modernismo
em nossa arquitetura. O editor adverte, contudo, quanto à não
inclusão de textos sobre Brasília, tema copiosamente tratado em
muitas outras edições, e chega a espantar ao leitor desavisado a reclamação feita pelo egrégio professor Katinsky em prefácio, sobre a ausência de Niemeyer que, ao
contrário, muito bem representado na referida edição, comparece
com nada menos do que oito textos.
Estas
opiniões, ou depoimentos críticos, assinados por nomes não menos
emblemáticos tais como Gregori Warchavchik, Rino Levi, Lúcio Costa,
Mário Pedrosa, Giulio Carlo Argan, entre
outros, são importantes vias de acesso ao pensamento sobre arquitetura
moderna num momento de nossa história em que a revolução decretada
pela modernidade na prática e no ensino da arquitetura era vista
como algo incontornável. Como incontornável parece ser a assimilação
visceral das idéias de Le Corbusier
pelos arquitetos brasileiros do primeiro modernismo. Warchavchik,
Lúcio Costa e Rino Levi, na primeira parte de Depoimento, assumem
posições semelhantes quanto à tópica lecorbusieriana
– a casa é a máquina de morar – admitindo a edificação como um
processo eminentemente racional, não personalista, obedecendo
tão somente a uma lógica construtiva que se vê inexplicavelmente
oposta ao espírito da tradição. Em certo trecho de um texto datado
de 1925, Gregori Warchavchki diz : "O arquiteto, educado no espírito das tradições
clássicas, não compreendendo que o edifício é um organismo construtivo
cuja fachada é a sua cara, prega uma fachada postiça, imitação
de algum velho estilo, e chega muitas vezes a sacrificar as nossas
comodidades por uma beleza ilusória". Muito próximo ao tom
derrisório de manifestos de vanguarda, por exemplo, dos futuristas,
Warchavchik desconhece, assim como os outros colegas, a arquitetura
como arte de doutrina em que circulam e são interpretadas as tópicas
vitruvianas, entre outras, variamente; estas doutrinas, no entanto, recusam as arquiteturas
de fachada, porque os três princípios firmitas-utilitas-venustas
se interpolam sempre, comparecendo na educação do arquiteto antigo
que não desconhece, por sua vez, os efeitos da imitação e da emulaçao
enquanto operações retóricas. Esta última, ou seja, a emulação,
também é tópica relativa ao certamen,
isto é, o concurso entre arquitetos, não sendo absolutizada
como comportamento antitético ao criativo ou ao lógico na construção.
Nas doutrinas, o tríplice firmitas-utilitas-venustas está em toda parte, agenciando
a edificação. Por exemplo, Francesco Milizia,
em tratado sobre arquitetura do XVIII, não recusa a beleza (venustas)
da Cloaca Maxima, o esgoto
romano, mas investe-a na justaposição entre solidez (firmitas)
e utilidade (utilitas). Muito bem e solidamente construído, e
útil para toda a Roma, a Cloaca não é bela em si, mas
a beleza comparece como um efeito do acordo mútuo entre os dois
outros princípios partícipes.
Desse
modo, a arquitetura como resultado de uma lógica construtiva
não pode ser absolutizada como fenômeno
pertinente somente à modernidade, como ingenuamente propõe o discurso
de nossos primeiros arquitetos modernistas. No entanto, a rígida
dicotomia entre um presente plenamente livre e promissor, particularmente
quanto à técnica para Rino Levi (texto de 1925), e um passado
outorgante de regras, não é apartável, contudo, de gênero de discurso ativo naquela época,
em que soa ainda o tom dos primeiros manifestos modernistas europeus,
como já referido. A queima do tratado de Vignola,
tendo as suas cinzas espalhadas pelas praias do Rio de Janeiro
após Lúcio Costa assumir a direção da Escola Nacional de Belas
Artes, relatada em depoimento de Abelardo de Souza (texto de 1978),
no tocante a este gênero de discurso, é ato sumamente alegórico.
Como também o é o modo pelo qual Lúcio Costa (texto de 1936) desencarece
o ornamento, apassivando-o pelo pejorativo enfeite, vestígio
bárbaro, segundo diz, que na contrafação modernista perde
para os procedimentos industriais, dotados de perfeição de
acabamento. Também aqui não é possível ativar o diálogo entre
o que Lúcio Costa propõe como ossatura independente e
as tópicas relativas à arquitetura como campo doutrinário porque
o discurso modernista é, no talante do novo, impassível, irretorquível.
Perde com isso o Lúcio da década de 30, de confrontar, por exemplo,
a sua lâmina de cristal com a fileira de colunas
perpassada por muitas aberturas de Leon Batista Alberti.
Como não se quer cânonica, a nova arquitetura
não admite em nível de seus discursos qualquer possibilidade de
dialogar com outros cânones, os antigos, sendo apenas possível
o apartamento deles, entre outras estratégias, pela irrisão, na
aplicação do termo arquitetura-de-fachadas.
Em
campo real, contudo, outro inimigo irrompe, muito mais ameaçador,
porque justamente academicizante, que
resulta de atividade construtiva em demasia, pois para o mesmo
Lúcio (em texto de 1951) alguma arquitetura escapa à febre construtiva
e o quadro da arquitetura em São Paulo e Rio de Janeiro, no final
dos vinte e início dos anos trinta, como manifestação isenta,
desinteressada, e, portanto, essencial, não
pode ser comparado à repetição meramente formal desprovida da
arte de projetar.
As
repetições de formas e soluções implementadas posteriormente àquele
primeiro modernismo, embora louváveis, ressentem-se de uma orientação,
que é tão somente estilizante, e que
sustenta superfluidades denominadas pingentes do modernismo.
No limite, a crítica de Lúcio Costa censura a utilização de formas
compositivas acadêmicas agenciadas em
roupagem modernista, o que faz resultar uma espécie de classicização
do modernismo motivada e desenvolvida pelo ensino oficial.
Lúcio
opera uma polarização que joga os oponentes deste ensino, os primeiros
modernistas, em campo distintivo, à revelia da institucionalização,
representantes de um deliberado alheamento circunspecto, segundo diz. Descontinuada, porque não
plenamente entendida pelos seus sucessores, a primeira arquitetura
modernista defendida por Lúcio Costa fica isolada como uma ilha
num mar de transigências. Quanto a este isolamento, a nostalgia
revivida pelo autor em seu texto permite que se acrescente ao
colonial, já resgatado bem antes enquanto sabedoria construtiva
popular, os seus velhos mestres da academia ou escola nacional,
por exemplo, um Lucílio de Albuquerque
ou um Rodolfo Chambelland, entre outros, que pendem como contrapontos necessários
à formação daqueles que mobilizaram as ações em torno da construção
do Ministério da Educação e Saúde. Paradoxal pela defesa de posturas
no mais das vezes dicotômicas, como as que encenam simultaneamente
nos discursos, razão e intuição, passado e presente, tradição
e vanguarda, acadêmicos e vanguardistas, utilidade
na arquitetura e isenção da mesma frente a demandas extemporâneas
à arte, Lúcio Costa não pode ser encarado como crítico amargurado
diante da oficialização do moderno. Isso porque a sua
critica exige ainda hoje, mesmo com todos os seus paradoxos, uma
reflexão cerrada sobre a arquitetura como processo, a um só tempo,
artístico e social.
A
utilização de soluções formais e estilísticas modernistas antecipando,
contudo, as necessidades de expressão de onde elas poderiam surgir,
permitem além da gratuidade nos usos das referidas soluções, a
transformação da arquitetura brasileira modernista em escola,
no mau sentido. Em parte, contribuíram para isso os próprios modernistas
de primeira hora, inebriados, conforme texto de Mario Pedrosa
de 1953, recolhido neste Depoimento, com o clima
de revolução da década de 30. Os favorecimentos concedidos
pela ditadura Vargas aos nossos primeiros modernistas colocaram-nos
diante de contradição grave, e não plenamente satisfeita aos olhos
do crítico: se por um lado, a associação entre artistas e poder
tornou possível construir a nova arquitetura brasileira, por outro,
representou uma conivência perigosa em que os grandes espaços
da arquitetura modernista puderam preencher a necessidade de suntuosidade
demandada pela extrema direita populista. O gosto dessa, ainda
ligado àquela arquitetura de partido classicizante,
pôde, contudo, ser atendido por um programa modernista conciliador
entre os pressupostos técnico-construtivos modernos e os valores
de beleza absolutizados pela cultura
humanista burguesa, segundo Giulio Carlo
Argan em texto de 1954.
Para
Argan, este programa reflete a assimilação canônica das propostas
arquitetônicas de Le Corbusier
pelos arquitetos brasileiros, e que, alegoricamente, é comparada
pelo autor como uma colonização da arquitetura brasileira em relação
à arquitetura européia, ocupando Le
Corbusier o posto de Vice-Rei. Em sua estrutura
programática e canônica, a nova arquitetura brasileira estaria
a serviço da plena demonstração de sua adesão, encenando a eficácia
e presteza do Governo Novo getulista, à forma moderna,
sem, contudo, representar os verdadeiros ideais da sociedade
brasileira, coforme diz o marxista Argan.
Tal tese, obviamente põe em colapso a arte desinteressada
proposta por Lúcio Costa em texto aqui já referido, mas principalmente
predispõe os maus humores daqueles modernistas que se apresentaram,
mais pela via do discurso, como vermelhos incorruptíveis.
Para
Lúcio Costa, algo como um milagre aconteceu naqueles
primeiros vinte anos, sugerindo a formação congenial
do primeiro modernismo e as suas relações com as mudanças na ordem
política e social que se faziam então no Brasil. Mas outras opiniões
podem sugerir que a aproximação entre modernistas e Governo
Novo não necessariamente pode ser pensada como relação histórica
de causa-e-efeito, o que deliciaria
os idealistas de plantão.
O
ex-Secretário do Interior e braço direito de Getúlio, Gustavo
Capanema, por exemplo, tido como o articulador político de todo
o processo que levou à construção do Ministério de Educação e
Saúde, confessa-se em depoimento de 1985 um amador nessas matérias
de cultura, tendo na ocasião compreendido o termo moderno
como algo genérico. Associa-o apenas a uma turma de gente
moderna (...) que o secundava (...),
como diz, desmascarando o assédio que grassava nos bastidores
do poder. Diante dessa exposição, os idealistas têm de mascar
o riso, pois a relação determinante entre história e cultura,
ou particularmente entre política e arquitetura é algo que simplesmente
pode não ter ocorrido como parte de um plano para uma política
cultural nacional planejada pelo Governo Novo. Por outra
hipótese, menos elevada, a relação referida estaria contemplada
pela categoria despacho, aplicando-se nas mesas dos gabinetes,
referendados os lobbies. Por estas e outras questões,
que contigencialmente emanam dos textos
reunidos nesta edição, Depoimento de uma geração deve
ser re-lido e debatido, analisado e posto sob os olhares, ainda
reticentes, das novas gerações.
Luiz
Armando Bagolin é professor de História da Arte e Arquitetura
no Curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC/Poços de Caldas e professor de Estética no Curso de Artes
Plásticas da FAAP |