| Quando
o pós-modernismo era uma provocação
resenha
de silvana barbosa
rubino
É
possível afirmarmos que se o leitor quer entender as duas rupturas
simbólicas que a arquitetura empreendeu no breve e interessante
século XX, há pelo menos dois autores obrigatórios: Le Corbusier com Por uma arquitetura e Urbanismo,
e Robert Venturi com Complexidade e contradição em arquitetura
e Aprendendo com Las Vegas.
Pouco mais de cinqüenta anos separa os dois blocos, e os textos
são tão distintos como uma singela e exata casa branca corbuseana,
de um lado, e um colorido e iluminado shopping-center suburbano. Um tempo um pouco menor do que
aquele entre a Revolução de 1917 e a queda do muro de Berlim.
É
possível que estejamos diante de um dos livros mais citados nos
últimos anos. Para Fredric Jameson, Aprendendo... é
mais do que um texto sobre arquitetura, chegando quase a constituir
um manifesto pelos chamados estudos culturais. O geógrafo David
Harvey alinha esse texto polêmico com
outro evento do longínquo 1972, quando
– segundo a frase de efeito de arquiteto Charles Jenks
– o movimento moderno terminou em hora e lugar exatos, com a implosão
do conjunto residencial Pruitt-Igoe,
em Saint Louis, EUA. Kenneth Frampton, por outro lado, associa as conseqüências desse livro
à vertente arquitetônica populista e cenográfica. Paolo Portoghesi localiza em Venturi o
início da reflexão a respeito de uma arquitetura
mais inclusiva, que viria a desembocar na Bienal de Veneza de
1980, a que recebeu pela primeira vez a arquitetura – pós-moderna
– com a polêmica exposição Strada Nuovissima.
Ou
seja, muitos daqueles que se dedicaram a falar do pós-modernismo,
seja como uma celebração do fim das grandes ideologias, seja para
circunscrever nossa cena contemporânea em seus constrangimentos,
têm em comum alguma referência a Venturi
e ao longínquo 1972, quando na beira da crise do petróleo, o modernismo,
dizem, ruiu. Interessante notar que, ainda que muitos desses trabalhos
não sejam a respeito de arquitetura, é como se esta fosse hoje
o grande sintoma, tanto da mudança do fordismo
para sociedade pós-industrial, como de uma transformação em nossas
sensibilidades.
E
o autor do libelo a quem tantos rendem críticas e homenagens,
a quem presta as suas? As críticas, a alguns representantes do
movimento moderno em arquitetura. Os agradecimentos, de Michelangelo
às locadoras de automóveis do centro-oeste norte-americano, passando
pelo arquiteto Luis Kahn, pelo antropólogo
Herbert Gans e pelo geógrafo John B. Jackson.
Aprendendo
com Las Vegas não foi, contudo,
seu primeiro manifesto por uma “outra
arquitetura”.
Robert
Venturi nasceu em 1925 no Estados Unidos.
Estudou arquitetura em Princeton entre 1947 e 1950, antes de começar
a trabalhar com Luis Kahn em 1959. Estávamos
em pleno pós-guerra, o que no campo da arquitetura e do urbanismo
significava, de um lado, a publicação da Carta de Atenas,
de Le Corbusier e de Can
our cities survive?, de Josep Lluis Sert
– duas versões para as atas do mesmo encontro, o CIAM
(Congresso Internacional da Arquitetura Moderna) de 1933. Formuladas
num contexto e publicadas em outro, tais teses do movimento moderno
a respeito do urbanismo começavam, de um lado, a ser amplamente
divulgadas e, de outro, a sofrer suas primeiras revisões. Se virmos
então que os anos de formação de Venturi se deram em um momento de crítica
ao modernismo sem sair de seu âmbito – o que teria, entre
outras conseqüências, a criação do Team
X que terminou por implodir os ciams
– há que se considerar também o contexto geográfico de seus anos
de formação. Mais do que nos Estados Unidos do pós-guerra e enriquecidos
por esta, período do chamado modernismo rotinizado que erigiu totens empresariais para grandes corporações,
a Universidade de Princeton merece um destaque. Ao contrário da
maioria dos cursos de arquitetura do país que, baseados
do modelo da Bauhaus – lembremos as presenças de Walter
Gropius e Mies van der Rohe no ensino superior
nesse momento – Princeton não havia excluído, tampouco minimizado,
a importância das disciplinas de história da arquitetura em seu
currículo. E ao concluir sua graduação, o arquiteto de ascendência
italiana recebeu a láurea do Roman Prize, destinados a jovens
talentosos que passavam assim um período em Roma – ele permaneceu
por dois anos – desenhando monumentos do passado.
A
Itália do pós-guerra também havia sido um campo fértil para a
crítica ao modernismo, desde o ciam
de Bergamo, em 1947. Para a delegação italiana que organizou
o encontro, o grande tema era a remodelação de Milão, que incluía
como novidade a restauração de seu centro histórico, tema que
não fazia parte das preocupações centrais dos arquitetos modernos
e que na Itália do pós-guerra assumiu importância cada vez maior,
chegando a alimentar o discurso anti-modernismo
arquitetônico a partir dos anos 1960, quando temos a emergência
de um discípulo de Ernesto Nathan Rogers,
Aldo Rossi. Rossi publicou, ao mesmo tempo que
Venturi, a versão italiana, européia da crítica ao modernismo
dos ciam, especialmente em seus aspectos
urbanísticos. Nome do livro: Arquitetura da cidade.
Não
por acaso, o tema do CIAM seguinte,
em 1951, foi “O coração da cidade”, e os sub-temas
anunciavam a mudança de foco: “centros para a vida comunitária”,
“raízes históricas do centro”. O final dessa década foi da inauguração
de Brasília, cidade planejada de acordo com os princípios modernistas
e que chegou junto com suas mais severas críticas. Entre estas,
as críticas da esquerda italiana, como a insistência de Manfredo
Tafuri em assinalar que a arquitetura
moderna fez parte da tentativa burguesa de resolver, no âmbito
da ideologia, as contradições da reorganização capitalista no
mercado mundial. Mas nenhuma crítica teve o efeito daquela proposta
por Jane Jacobs em Morte e vida das
grandes cidades, de 1961, best-seller lido por iniciados
e não iniciados, que fazia a defesa das cidades de uso misto,
quadras pequenas, das qualidades da cidades
anteriores ao planejamento moderno.
Ou
seja, ao contrário do que muitos crêem, a crítica ao chamado movimento
moderno começou em seu interior, ganhou novos adeptos após a dissolução
dos CIAM (em 1959) e adquiriu força no início da década de 1960.
Venturi, com seu Complexidade
e contradição em arquitetura, chegou como representante de
uma nova geração, para somar em um debate que vinha amadurecendo.
O livro, de 1966, argumentava que a complexidade da vida contemporânea
não admitia projetos simplificados e que os arquitetos precisavam
voltar-se para projetos multifuncionais. O centro de seu argumento,
contudo, era que a arquitetura deveria transmitir
significado. Quanto a esse aspecto, seus exemplos de arquitetura
expressiva vinham em sua maioria da Itália entre 1400 e 1750,
estendidos à França e Inglaterra do século xviii,
ladeados pelos primeiros projetos de Le
Corbusier, outros do nórdico Alvar Aalto,
além do mestre Kahn. Resgatou também
a importância de Sir Edwin Lutyens,
o arquiteto da Nova Deli imperial, do até então condenado movimento
City Beautiful.
Às
questões que levantou por escrito – e lembremos que a crítica
ao modernismo foi em grande medida uma querela discursiva –
respondeu com projetos como a residência que fez para sua mãe
em Chestnut Hill, conhecida como Casa
Vanna, cuja fachada alinha referências
históricas como uma janela corbuseana
– notemos bem que o modernismo virou história e “fonte”
– ao lado de outra em Shingle Style.
Como bem percebeu a crítica Sophia Silva Telles, citações clássicas
e outras recebem um agenciamento pop. Em outros termos: a concentração
de elementos simbólicos na fachada evidencia que as referências
seriam iconográficas e não mais tectônicas. São bidimensionais,
gráficas, como uma tela de Lichtenstein.
Contudo,
ao redefinir a arquitetura, Venturi
renegociou também o papel do arquiteto em relação a suas próprias
escolhas, sua profissão e a sociedade de modo mais geral. Não
por acaso, o livro veio em primeira pessoa do singular para lançar
suas frases bombásticas como “less is bore”, endereçada claramente
ao “less is more” de Mies van der Rohe, palavra de ordem da
geração modernista; e suas preferências: eu prefiro, escreveu
“e...também” a “ou..ou”. Por isso houve que considerasse o livro
o manifesto de uma arquitetura includente
– mas não era a inclusão social preconizada
por Jane Jacobs poucos anos antes. A inclusão não era de atores
sociais e suas subjetividades, e sim da subjetividade do arquiteto
e seus “gostos”, ainda que muito bem informados.
No
livro de 1972 o próprio título, ao contrário do primeiro manifesto,
é pura provocação. Aprender com o realmente existente, e buscar
essa evidência no artifício plantado em pleno deserto, afirmando
aí residir o gosto popular, este era o tom do manifesto, expresso
na afirmação: “Aprender com a paisagem existente é uma maneira
de um arquiteto ser revolucionário”. O alvo desse statement
era a “excludente” estética modernista.
Nos
dois livros, assim como em sua obra, o alvo era o modernismo do
pós-guerra. Aquele modernismo que, em meio à Guerra Fria, quando
o eixo da produção artística de ponta migrou da França para a
América do Norte, viu emergir não apenas arranha-céus esguios
envidraçados emblematizando o capitalismo
corporativo, como também firmas como Skidmore,
Orwell e Merril
(som) e John Portman, dentre outras.
Tal modernismo, com pouca ou nenhuma carga utópica,
esteve na mira não apenas de Venturi
como dos outros críticos também na década de 1960. De um lado,
essa arquitetura era acusada de indiferente à tradição disciplinar
arquitetônica; de outro, pouco vinculava-se
ao contexto. Em seus dois libelos, Venturi
elaborou cada um desses aspectos da crítica corrente.
Esse
aspecto é levado às últimas conseqüências em Aprendendo com
Las Vegas. A linguagem é direta
e irreverente. O autor, juntamente com sua esposa Denise Scott
Brown e seu colaborador Izenour, estendem as questões relativas ao significado à chamada
cultura de massa. O argumento central era que arquitetos poderiam
aprender muito com o estudo das paisagens populares e comerciais,
mais do que com a perseguição de ideais doutrinários, teóricos
e abstratos. O espalhamento urbano, palavra sem conotação pejorativa,
na falta de termo melhor, precisava ser aceito e estudado. A strip,
a auto-estrada com comércios, postos de gasolina, entendida. Os
luminosos e placas, em seus textos e sinais, deveriam ser tema
para teses de doutorado. O ornamento não deveria constituir um
crime, como havia preconizado Adolf Loos
em 1911 e o kitsch era bem vindo. Não é por acaso, também,
que uma das idéias mais sugestivas do livro é a respeito das duas
modalidades de arquitetura comercial: a loja decorada e o pato.
Pato é pato mesmo, a idéia emblematizada por uma loja em New
Jersey que vendia carne de pato em um edifício em formato de pato,
mas que podia ser estendida a lanchonetes em formato de hamburguer
ou similares – isso comunicava. Além disso, o livro argumenta
que não há nada de errado em dar às pessoas aquilo que elas desejam
em termos estéticos. Eis, segundo, David Harvey,
um ponto fundamental do movimento pós-moderno: relaciona-se e
integra-se com uma cultura da vida cotidiana, ordinária. Nas palavras
do historiador Kenneth Frampton,
puro populismo. Um aspecto, contudo, deve ser ressaltado: como
um típico pós-moderno, muitas das proposições
de Venturi dão-se por um movimento especular,
afirmando-se a partir do que não querem ser, do modernismo do
pós-guerra. Segundo Jameson, essa é
a primeira característica do pós-moderno. Aprendendo com Las
Vegas é, contudo, um livro afirmativo,
que preconiza o lugar o kitsch, do feio, da rota
66, do popular suburbano no universo de referência do arquiteto.
O que nos leva à segunda característica assinalada por Jameson; o pós-moderno esmaece qualquer fronteira entre arte
culta, popular e de massa.
Talvez
por isso, Pop como Zabriskie
Point, de Antonioni – mas sem
o final catártico em sua revolta – ou como uma banda de rock californiana
da época (pode ser lido ao som do Jefferson Airplane),
o livro ainda guarde parte de seu fascínio e de seu incômodo.
O elogio aos cassinos e seus neons caracterizam Venturi como
um Joãozinho Trinta avant-la-lettre,
da arquitetura e urbanismo, como se dissesse que quem gosta de
formas e regras são os arquitetos, que o “povo” (entidade que
ele não define) gosta mesmo é de outdoors e outras marcas do comércio.
Mas, afinal, não vêm do comércio os espetáculos das ruas presentes
desde as reformas urbanas do século xix?
Não é esta a cidade espetacular e com vida? Quando hoje se fala
em revitalizar a cidade não é para trazer o comércio de volta
a certas áreas?
Trinta
anos depois de seu lançamento, a edição em português, com suas
ilustrações que se desdobram e sua linguagem precisa e irreverente,
pode parecer trazer um livro datado. É o caso, no sentido de que
a apologia da auto-estrada veio antes dos movimentos ecológicos
e da crise do petróleo. E também no sentido de que as obras mais
significativas e influentes têm lugar e data. Nesse caso, Estados
Unidos, início dos anos 1970, do mesmo modo que manifestos modernistas
são europeus, década de 1920. Ao mesmo tempo, podemos aprender
com a publicação, ainda que seja aprender a ver o que desaprendemos.
Basta olhar para novos e celebrados edifícios em São Paulo, com
formas que lembram livros e frutas. Comunicam, sem dúvida. Edifícios-pato?
Ou então, viajemos por algumas de nossas estradas de quatro pistas,
plenas de shopping-centers, grandes complexos comerciais, hotéis,
clubes, parques temáticos, condomínios fechados em ambos os lados.
Há muito que a arquitetura real, a construção da “cidade-como-ela-é”
já entendeu, a seu, modo, a lição de Las
Vegas. Paraísos artificiais como as cidades da Disney Corporation
têm patos, main-streets, galpões decorados. E foram projetados
por arquitetos da geração de Venturi,
assim como por ele, Denise Scott-Brown e seus associados.
Podemos
terminar escutando Giancarlo di Carlo,
arquiteto que pertenceu ao Team X, ou
seja, que foi crítico do movimento moderno nos anos 1950. Para
ele, Venturi não passa de um demagogo ao propor Las Vegas como arquitetura popular, não se dando conta de
que a cidade foi planejada pela máfia do jogo, que o kitsch
do cenário irreal é ele mesmo planejado, desenhado, calculado.
Eis um aspecto que de fato o livro não toca, em seu fervor anti-modernista:
que essa cidade espontânea não existe, assim como é inatingível
a forma fechada e utópica dos urbanistas modernos.
Silvana
Barbosa Rubino
é antropólaga, mestre e doutora pelo IFCH Unicamp, professora
da FAU PUC-Campinas e do Departamento de História da UNICAMP
Leia
também "A
cidade dos prazeres", de Luis Espallargas Gimenez, sobre
o livro de Robert Venturi, Denise Scott Brown e Steven Izenour
|