| A
forma concisa
luiz armando bagolin
Para
Herbert Read, a modernidade talvez tenha sido a época na qual
a arte escultórica tenha encenado o seu maior conflito, qual seja,
o do posicionamento entre a investigação do espaço mediante o
uso consciente por parte do artista das qualidades e limitações
inerentes a esta arte, investindo-a ainda como arte das massas
e do bloco, e a superação dessa mesma em prol de sua inserção
no plano da percepção coletiva em espaços públicos, resultantes
do desenvolvimento das grandes metrópoles do século XX.
Em
seu livro A concise history of modern sculpture, de 1964, e recentemente traduzido para a língua
portuguesa sob o título Escultura moderna: Uma história concisa,
Read declara ao leitor a impossibilidade de tratar do assunto
anunciado pelo método convencional, em que seqüentes, os “estilos”
prefigurariam uma historiografia meramente linear. Preferirá,
então, tratar pontualmente de alguns artistas cujas produções
excederiam quaisquer determinações estilísticas e, não obstante,
se tornariam referenciais para outros artistas e produções coevas.
Adota, por assim dizer, um viés mais aproximado do da crítica
de arte, em que se encontram ressonâncias que operam desde o conceito
de “gênio”, de Kant, até o de “família artística”, de Focillon,
e em que o entendimento do método ou processo de criação de cada
artista analisado é chave para a significação de sua obra. Mas,
embora Read recuse a narrativa eminentemente sincrônica, mantém
em seu texto o sentido de evolução na medida em que necessita
explicitar as razões do que nomeia “prelúdio” e depois “difusão
de estilos”, sendo aquele primeiro a origem da surgência
desses estilos que se misturam e espargem na mesma velocidade
em que se dissolvem os sentidos daquilo que convencionalmente
(e para Read, apropriadamente) se entende por escultura.
No
prelúdio, Read prefere não apontar a figura de Rodin para precursor da escultura moderna, embora isto fosse
“tentador” uma vez que em termos de sincronia, o autor de A idade do bronze seja o correspondente
“exato” para Cézanne, “pioneiro” na “nova arte da pintura” (tese
defendida em outra obra emblemática de Read, sobre a pintura moderna).
As razões disso explicitam-se pelo fato de que Rodin
ainda está por demais apegado à “atmosfera do subjetivismo que
então predominava”, conforme diz, além de particularmente envolvido
com a recuperação de procedimentos estilísticos semelhantes aos
de Michelângelo. Rodin
está mais atento ao passado do que ao presente e, para Read, a
sua escultura só poderia ser relacionada à modernidade em virtude
da persecução de um forte “realismo visual”. Entretanto, é somente
com Picasso, e depois com González, Brancusi, Archipenko, Lipchitz, Laurens e outros, que seguirão a seara aberta por Cézanne
na pintura, particularmente quanto à “paciente compreensão da
estrutura do objeto” e à “concentração no motivo”, que poderemos
encontrar os intróitos da escultura moderna. Um
outro antecedente, Honoré Daumier, que não pertence a esta família, é antes considerado
pelo Autor uma “intromissão estranha”. Uma obra sua como l’homme à tête plate,
por exemplo, é tratada na chave da caricatura, que pretensamente
deforma a figura pendendo-a para o “moderno” como coincidência
apenas, mas não como parte de um programa consciente e consistentemente
moderno. Aqui fica difícil ao leitor saber de que se trata este
“moderno”, pois o Autor não é claro a este respeito. Fica
claro, contudo, que o mesmo desabona os gêneros e, particularmente,
o satírico, em que circula a plástica de Daumier. Ou então, poderemos lê-lo de outra maneira
– quanto à situação em que os gêneros são supostamente subsumidos
pela “arte moderna” enquanto processo de criação que se atém a
si mesmo e às suas partes constituintes.
O
sentido de ouro da escultura universal, seria
o “tato”, porque mais do que meramente visual, a escultura deve
ser “háptica”. Por isso, Read registra
de forma veemente a sua censura ao elogio que Adolf Hildebrand
fez do pictórico no relevo da escultura. A difusão das idéias
do escultor alemão teria sido desastrosa, e em grande parte responsável
pela adesão de muitos artistas do século XX aos “métodos fáceis
de colagem”, segundo sugere. Contudo, curiosamente é aos pintores
que o Autor credita o “prelúdio” da escultura moderna. Além de
Cézanne, aqui já referido, são também considerados “precursores”
Degas e Matisse, pintores por excelência,
que estenderam as suas preocupações também ao campo da escultura.
Para o primeiro, a escultura terá sido um método de estudo e investigação
acerca dos problemas das figuras em movimento, em circunstâncias
ou posições em que estas se mostravam difíceis de solucionar,
no plano bidimensional. Mas é principalmente em Matisse, segundo
Read, que se pode verificar uma nova atenção à “totalidade” da
figura, e que não se constitui em mera soma de suas partes. Os
“dorsos” aos quais o artista se dedicou entre 1909 e 1929 investem
as formas, principalmente os relevos, numa estrutura que tem no
“arabesco linear” o seu aspecto mais imediato,
compreendido pela visão. Também neste ponto não ficamos,
enquanto leitores, plenamente esclarecidos e satisfeitos com a
distinção entre os “relevos” de Matisse, elogiados, suspeita-se,
como partes fundamentais daquele “prelúdio”, e o relevo pictórico
proposto por Hildebrand, cuja existência,
segundo o Autor, afastaria a escultura de sua condição essencialmente
“háptica”. Mas de acordo com este mesmo
raciocínio, também chama a atenção o elogio que fará sobre o novo
método adotado por Picasso ao “retomar” o trabalho escultórico
após a fase cubista, ou seja, após as experiências nas quais a
“colagem” seria o procedimento mais freqüente de execução.
Na
década de 30, Picasso utilizou um processo construtivo que já
não contava apenas com a incorporação de “materiais já prontos”
e “mesclados”; ao invés disso, iniciou um conjunto de construções
em ferro e arame “que pertenciam a um tipo de arte completamente
novo e inaudito”. E embora tais construções possam ser equiparadas
às produções “construtivistas”, como as de Tatlin e Rodchenko, ao contrário
destas, as “figuras de ferro” de Picasso investem em um humor
ou em um mistério, e são, para além do racionalismo científico,
fletidas pela “magia”. Neste ponto,
Read invoca a obra de Collingwood em
defesa da necessidade de se pensar a “magia”, ainda operante em
nossos dias, como uma atividade que denotaria uma “função social
específica”, equilibrando as produções culturais em geral, de
modo que não pendam somente para o lado da cientificidade e da
razão. A obra de Brancusi seria exemplar acerca deste equilíbrio,
pois traz a noção de uma “harmonia universal” alcançada graças
à utilização precisa dos materiais e à observação “das leis físicas
e de crescimento”. A partir de Brancusi, Hans Arp
chamará suas peças de “concreções” e a escultura passa a descrever
um processo mais de apresentação de um determinado fenômeno do
que de sua representação. Aliás, para Read, a arte moderna representou
uma “ruptura decisiva com a tradição”, na medida em que a ela
interessará não mais a imitação da natureza, mas a “assimilação”,
a “regeneração” e a “substituição”. Quanto às duas primeiras ações
mencionadas, é importante para o Autor a apresentação de duas
categorias, “ecletismo” e “exotismo”, sem as quais teria dificuldade
para superar os modelos estilísticos que se sucedem linearmente
no tempo. Desse modo, a mistura de “estilos” passaria a caracterizar
o próprio comportamento do artista moderno que “revivifica-os”
(para usar uma expressão de Panofsky)
mediante um “exo”, ou seja, uma referência exterior. Mas o mais importante
ainda está na corroboração da hipótese mais convencional às teses
sobre a arte moderna, segundo a qual, no início do século XX ou
final do XIX, substituiu-se o ideal de “representação” da natureza
a partir de uma “imagem fenomênica” pela “elaboração” de um “símbolo”
que contingencialmente a refere. E a
escultura de Picasso é plenamente indicativa deste processo de
simbolização, embora contrarie os “ícones da ciência” para afirmar-se
como “ícone de magia”.
De
qualquer modo, além da pertinência da arte simbólica de Picasso,
que abre caminho à concepção “vitalista”
de Henry Moore (cujo elogio ocupa praticamente
um capítulo deste livro) há a “difusão” das idéias construtivistas
por toda a Europa, a partir de 1922. Para Naum
Gabo, assim como para Tatlin, apesar
da filiação a programas e manifestos distintos, o “motivo” apenas
se apresentaria como um pretexto para a “organização rítmica do
espaço”. Mas é, sobretudo, na Bauhaus que a escultura deixa de
ser pensada como “arte separada” para se desdobrar na “instrução”,
seja quanto às ferramentas, seja quanto aos “exercícios de composição”
ou de “relações estático-dinâmicas”. Além disso, a noção de uma
arte que exceda os seus próprios limites reportava-se ao futurismo
de Boccioni que propunha “descerrar
a figura e encerrá-la no ambiente”.
Para
Read, embora não de todo desejável, a “eliminação da distinção
formal” do que seja considerado “pintura”,
“relevo”, “escultura cilíndrica” e “objeto pronto” foi uma etapa
extremamente significativa, para a qual os procedimentos “futuristas”,
“dadaístas” e “surrealistas” também contribuíram acerbamente quanto
à limpeza das convenções artísticas burguesas, e ao “retorno à
natureza”. Mas não será mais possível classificar um “Merzbild”
de Kurt Schwitters, por exemplo, como escultura, e por isso o artista
o nomeia construção-alguma-coisa, “Merz”, no caso. Também o ready-made de Marcel Duchamp afilia-se
ao objet trouvé surrealista,
e ambos, segundo o Autor, assignam-se
sob a chave da “magia” enquanto “estranheza”.
Ainda
que eliminadas as distinções nominais, tradicionais no campo da
escultura, o fundamental para a modernidade é a criação daquele
“ícone” que possa refletir o “numinoso”,
a interioridade de cada artista. Entretanto, não se salvam as
“colagens-caixas” de Joseph Cornell,
que antes estariam vinculadas à categoria “tesouros de curiosidades”.
Também não se salva o Morcego de Germain
Richier, pois não tem esqueleto que
possa estruturá-lo, pelo que é destinado ao “decadente”. E também
não escapam ao mau humor do crítico inglês as “compressões” de
Cesar, bem como outras produções do
noveau realisme, embora haja aqui e acolá no texto o reconhecimento
da transição da escultura enquanto uma arte destinada à fruição
particular para uma arte de dimensões públicas. Read sustenta
que com esta transição a escultura deixa de ser tanto uma arte
associada à forma sólida para tornar-se uma investigação sobre
o dinamismo e a “ocupação espacial”. Dos artistas surgidos na
geração de Henry Moore, o Autor destaca
ainda a obra de Louise Nevelson com
os seus relevos sóbrios e comedidos pintados numa única cor, o
preto ou o amarelo-ouro, o que o leva, no auge do elogio, a compará-los
com as obras de Nicola Pisano ou Agostino di Duccio, e isto é sintomático: quando pensa a escultura moderna,
Read o faz sem deixar, ao mesmo tempo, de pensar no “clássico”,
conforme expressão do século XVIII.
Luiz Armando Bagolin é professor de
estética na FAAP-São Paulo, e de história
da arte na PUC-Poços de Caldas |