| Vida
e obra de Giancarlo de Carlo
joão
piza
O
livro é de particular interesse, por apresentar o arquiteto através
de outros temas que não a arquitetura. A editora Eleuthera, de cunho fortemente pacifista e anarquista, e o
entrevistador, Franco Buncuga, também
um simpatizante das idéias anarquistas, já nos revelam o foco
da entrevista: a relação de De Carlo com o movimento anarquista,
abordando sua vida, a política, a sociedade, e a arquitetura.
Giancarlo
De Carlo nasceu em Gênova, em 12 de dezembro de 1919. Filho de
Carlo De Carlo, (engenheiro naval nascido em Túnis
de pais sicilianos) e de Dora Migliar
(nascida em Santiago do Chile de pais piemonteses). Giancarlo
cresceu com o pai, entre Gênova, Túnis,
Livorno e Trieste.
Inscrito
no curso de Engenharia do Politécnico de Milão em 1939, foi graduado
antecipadamente em 1942, devido à convocação militar. Não queria
ir para a guerra, já havia tomado contato com as idéias anti-fascistas. Conhecera egressos da Guerra Civil Espanhola
que lhe relataram o comportamento do Exército Italiano ali, e
isso lhe causara simultaneamente interesse pelas idéias anarquistas
e desejo de mudar seu país.
“Eu
não queria fazer a guerra, mas naquele momento era difícil não
fazer a guerra”, disse, e assim serviu na marinha Italiana, na
Grécia, por quatro meses, e foi posteriormente transferido para
Milão. Logo que chega à cidade adere à resistência, tornando-se
uma das principais lideranças partigianas da Lombardia. São tempos
muito difíceis, em que molda suas visões de arquitetura e de política.
No mesmo período, casa-se com Giuliana
Baracco, companheira da resistência partigiana.
O
convívio com o arquiteto Giuseppe Pagano,
durante a guerra (foram companheiros na resistência partigiana),
o aproximou da pesquisa sobre arquitetura vernacular. Pessoa de
raciocínio ágil e polemista, Pagano
ganha outras cores na fala de De Carlo, que conta algumas passagens
cômicas de suas andanças partigianas
pelas montanhas e povoados da Lombardia.
Pagano era ainda um referencial intelectual e sobretudo ético. As circunstâncias de sua morte marcam De
Carlo: Pagano foi preso em uma patrulha,
e posteriormente enviado a um campo de concentração na Alemanha,
onde foi executado. Outra visão sobre Giuseppe Pagano
pode ser encontrada no texto “Valor de uma polêmica” de Giulio
Carlo Argan (no livro Projeto
e destino, Ática, São Paulo, 2001).
Durante
a guerra, estuda Le Corbusier profundamente,
publicando logo após o fim dos combates o livro Le Corbusier: antologia crítica degli scriti (Milão, 1945, editora
Rosa e Ballo). Sobre Corbusier, De Carlo
afirma que admira profundamente sua obra, mas que é preciso ponderá-la.
E acusa os seguidores de Corbusier de seguirem ao pé da letra
suas teorias, perdendo a essência de suas propostas e perdendo
a evolução daquelas reflexões. Para De Carlo a guinada que Corbusier
dá após a segunda guerra é fundamental para a compreensão de sua
obra, pois dá outro significado, muito menos dogmático, a tudo
aquilo que escreveu antes. Cita uma entrevista de Corbusier em
que, indagado sobre o que pensava sobre seus planos de remodelação
para Paris não terem sido aplicados, responde “tudo bem, eu amo
Paris com todas as rugas”.
O
conceito embutido nesta declaração sintetiza o que De Carlo busca
em Corbusier: um outro homem, que construiu o personagem Corbusier
com a deliberada intenção de provocar a reflexão e estimular a
criatividade, aquecendo o debate. De Carlo encontrou outros fragmentos
deste outro Corbusier em Marselha: enquanto De Carlo construía
um navio no porto da cidade, foi visitar a pensão onde Corbusier
passava a temporada. E lá estavam nas paredes fotos de Corbusier
junto dos pescadores locais, em trajes informais, conversando
muito a vontade e rindo. A dona da pensão
afirmou que o hóspede era muito bem humorado, mas que não tinha
disciplina com os horários, trabalhava loucamente em alguns períodos
e depois dormia longamente... tudo ao
contrário da lenda que se criara.
De
Carlo prosseguiu pesquisando a arquitetura vernacular, paralelamente
à pesquisa sobre Frank Lloyd Wright e Willian Morris.
Ainda no imediato pós guerra, mantém
laços estreitos com o movimento anarquista italiano, participando
dos primeiros congressos. As dificuldades narradas de se viajar
pela Itália arrasada pela guerra dão uma dimensão humana do que
eram os últimos anos da década de quarenta ali. Em 1949 conclui
o curso de arquitetura no Instituto Universitário de Arquitetura
de Veneza, e passa a trabalhar no estúdio de Franco Albini,
colaborando na elaboração do Plano Regional de Reggio
Emília. Somado ao seu interesse sobre a obra de Patrick
Geddes, (botânico e urbanista anarquista
escocês), este trabalho tornou De Carlo uma das principais vozes
na Itália em defesa da relação entre o planejamento da cidade
e o planejamento da região. Em 1951 De Carlo organiza a Mostra
de Arquitetura Espontânea na IX Trienal de Milão, que é de
certa forma o coroamento de suas reflexões durante uma década.
Apesar
de discordar de sua visão de arquitetura, De Carlo mantém uma
ligação estreita com Ernesto Nathan
Rogers, e ambos cultivavam suas discordâncias em um ambiente
de respeito e admiração mútua. Rogers,
mais velho, convida De Carlo a escrever na revista Casabella. Pouco tempo depois, De
Carlo se desliga da revista por não concordar com a linha editorial.
Rogers o indica então para integrar o grupo italiano nos CIAM’s,
em 1952. De Carlo vai, e mantém uma postura crítica diante do
International style que o
aproxima dos Smithsons, de Van
Eyck e outros arquitetos, que formariam
o TEAM X e poriam fim aos CIAM’s em Otterlo,
em 1959.
O
TEAM X, em sua maneira de se reunir e debater, compartilha muitos pontos dos ideais anarquistas, e é para
De Carlo uma peça importante para a construção de uma racionalidade
dialógica sobre sua arquitetura. “Éramos apenas um grupo de arquitetos
que buscavam fazer o que falávamos, e o debate era muito importante
para detectar possíveis incoerências”. A contraposição aos CIAMs,
com sua rígida hierarquia, e suas deliberações dogmáticas, fica
evidente. O TEAM X nunca emitiu cartas com determinações, conclusões
ou dogmas, por não acreditar na validade, nem na representatividade
deste tipo de instrumento. Para De Carlo, os CIAMs
usaram deste artifício como forma de conquistar espaço de propaganda
para as idéias do grupo hegemônico.
Urbino,
a cidade natal de Rafael, entra na vida de De
Carlo de forma definitiva em 1951, quando faz sua primeira visita
à cidade, convidado pelo reitor Carlo Bo,
da universidade local, para projetar os alojamentos de estudantes.
Foi o início de uma relação intensa de idéias e projetos, que
resultou em diversas obras construídas e na ordenação do crescimento
da cidade. De 1958 a 1965 elabora o Plano Diretor de Urbino, onde busca sistematizar o estudo mais “humano” do
espaço, mapeando as visuais, os tipos de piso, as declividades
das vias, a dinâmica cotidiana da cidade, conversando com a população,
e, sobretudo, expondo as propostas à crítica pública. Depois,
viriam ainda outras obras para a universidade e para a municipalidade.
Até hoje, De Carlo segue trabalhando sobre Urbino,
agora, com a transformação do “Orto dell’abbondanza”,
em um “Observatório da Cidade”, um local onde se possa saber e
participar dos projetos de transformação da cidade.
O
contato com Urbino foi aberto por Elio
Vittorini, escritor siciliano, comunista, companheiro na resistência partigiana, vizinho, e companheiro de férias, junto de Ítalo
Calvino. De Carlo, Vittorini e Calvino
passavam as férias em Boca di Magra,
e deste convívio nasceu uma influência mútua. O livro Le cittá
del mondo,
de Vittorini, é considerado indispensável para a compreensão
da obra de De Carlo.
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Moradias
para metalúrgicos em Terni, no Lácio,
1968/1975. Arquiteto Giancarlo de Carlo |
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Em
1966 é convidado como professor visitante pela escola de arquitetura
de Yale. Nos anos seguintes, volta para
lecionar no MIT, (que publica o Plano de Urbino
em formato de livro), na Universidade da Califórnia, e na Universidade
de Cornell. A passagem pelos Estados Unidos renova seus laços
com os pensadores anarquistas e o projeto participativo, que procura
trabalhar de maneira mais elaborada no projeto para o Bairro Matteotti,
em Terni (1968-1974) e no Plano Detalhado
para Rimini (1970-1972). De 1956 a 1983 é professor do Instituto
Universitário de Arquitetura de Veneza. Nos movimentos estudantis
do final dos anos 60, é um dos poucos professores de sua geração
a se posicionar publicamente a favor dos estudantes. Mas analisa
o processo criticamente: se de um lado via um fantástico impulso
criativo e renovador no movimento, de outro, assistiu tristemente
os burocráticos e dogmáticos assumirem a liderança dos acontecimentos
em “discursos intermináveis sem sentido e cheios de palavras de
ordem”. No fim dos anos 70, cria dois espaços fundamentais para
sua reflexão sobre a arquitetura: o Laboratório Internacional
de Arquitetura e Desenho Urbano (ILAUD) em 1976, e a revista Spazio e Societá em 1978.
Ao
longo dos anos 80, De Carlo desenvolve o projeto de moradias para
pescadores em Mazzorbo, uma ilha da
Laguna Vêneta, vizinha a Borano,
a ilha das rendas bordadas. Ao mesmo tempo em que desenvolve um
projeto participativo, De Carlo aprofunda sua reflexão espacial.
Se diz “depurado das tendências puristas
de um lado, e das neo-realistas por outro”, iniciando assim uma
nova fase de projetos. Trata-se de uma fase de menor investigação
dialógica, e maior reflexão sobre o desenho, sobre a forma. O
arquiteto associa isso à idade: declara que o projeto participativo
demanda uma energia que já não possui, e assim, se recolhe para
a reflexão solitária. É o caso da Torre de Siena
(1988-89, não executada), dos portais de San
Marino (1994-99), e do edifício da Faculdade de Economia, em Urbino
(1999-2001).
De
Carlo vê a participação como uma luta pela construção de uma racionalidade
dialógica na arquitetura. Uma racionalidade construída não a partir
dos anseios e conceitos dos arquitetos, mas sim, da coletividade.
Porém não concorda com o advocacy planning, pois
considera que esta postura tira do arquiteto o impulso criativo,
reduzindo-o a um tradutor dos anseios coletivos. Insiste que o
arquiteto deve trazer a inovação, enriquecendo o debate participativo,
superando o repertório existente daquela coletividade.
O
fortalecimento das pequenas comunidades, longe de nostálgico,
é um passo rumo a uma sociedade mais cosmopolita, onde a consciência
de cada um quanto ao seu papel na coletividade seja maior e, portanto,
sejam os homens mais livres. É a mensagem que fica na arquitetura
de Giancarlo De Carlo: arquitetura é a arte de se construir espaços
para se viver... junto.
João
Piza é arquiteto, sócio do escritório
INGÀ Arquitetura e Urbanismo, e trabalha atualmente na INTEGRA
Cooperativa de Trabalho Interdisciplinar, na construção da Escola
Nacional Florestan Fernandes, do MST. |