| O
final da trilogia
andrés passaro
e laís bronstein
Com
o termo “trilogia” incorporo à esta resenha
dois (2) livros anteriores publicados por Josep
Maria Montaner, Depois do Movimento
Moderno de 1993 (1) e a antologia realizada em colaboração
com Jordi Oliveras
e Pere Hereu
intitulada Textos de arquitectura
de la Modernidad de 1994 (2).
O
primeiro livro desta trilogia, Depois do Movimento Moderno,
foi algo que trouxe à tona, de maneira consistente, as linhas
de atuação da arquitetura depois dos anos cinqüenta. Este livro
nos ofereceu os instrumentos necessários para arrumar o caos que
tinha se transformado a discussão modernidade / pós-modernidade
/ deconstrução, e o fez de maneira brilhante. Montaner colocou um rumo naquilo que estávamos impossibilitados
de ordenar, dada as diferentes informações desencontradas que
nos chegavam sobre estes temas. O autor superou aqui as limitações
da tese de Kenneth Frampton e arriscou uma
“classificação” a partir de “posturas”, empreitada que tampouco
a crítica italiana havia conseguido realizar neste final de século.
Este livro, tardiamente traduzido ao português, se caracteriza
por enquadrar sistemas de pensamentos com atitudes projetuais,
da teoria e sua prática estabelecida a partir de 1950 até quase
a “atualidade”.
Textos
de arquitectura de la Modernidad,
o segundo livro da trilogia, (que escreve em colaboração) nos
oferece uma antologia dos textos mais importantes que marcaram
as correntes da arquitetura. Ainda que este inicie em Laugier,
é significativa a parte que aborda os textos da “crise do movimento
moderno”. Nesta parte (organizada por Montaner)
encontramos as influências de outras áreas do conhecimento sobre
os procedimentos e as fundamentações da arquitetura. Texto
e Teoria se misturam e nos apontam diferentes direções.
Mas, como se trata de uma antologia, não existe a intenção do
enquadramento de uma lógica, da ida e da volta entre o texto e
a arquitetura. Trata-se da ponta do iceberg, um mapeamento dos
textos mais importantes que influenciaram o pensamento arquitetônico,
cabendo a cada leitor determinar como, e de que maneira, foi concretizada
essa influência.
As
formas do século XX, o livro que situo no final desta trilogia,
aborda a questão da predominância da forma como instrumento de
ancoragem para unificar, não mais sistemas de pensamento, e sim,
formas similares porém relacionadas à diferentes ideologias.
É
nesta questão que encontra-se o grande salto em comparação aos outros dois livros.
Textos de arquitectura
de la Modernidad
se apresenta com uma ordem temporal cronológica, ou seja,
praticamente a data da publicação do texto original marca o lugar
no livro. Em Depois do Movimento Moderno ainda que a cronologia
não seja tão evidente, ela tem um peso bastante forte dentro da
compartimentação do livro.
Mas,
é neste último livro, As formas do século XX, que Montaner assume a impossibilidade pós-estruturalista de contar
uma história linear como a soma de acontecimentos temporais.
E o grande valor deste livro reside nas diferentes leituras que
dele podemos realizar.
Intencionalmente,
há duas leituras a fazer. A primeira está dada nas páginas ímpares,
de cor azul, onde estão situadas imagens e reproduções de textos.
A segunda, nas páginas pares que configuram um texto linear dentro
de cada capítulo.
Entretanto,
parece que há uma intenção de desvincular estas duas partes. Da
mesma maneira que Julio Cortazar faz com Rayuela,
também no livro de Montaner duas leituras podem ser feitas. Uma corrida e outra
interrompida, feitas a cada duas páginas. Uma atitude conceitual
que vai se distanciando dos formatos tradicionais de leitura.
Ainda
considerando este mecanismo, devemos ter em conta que os cinco
grandes temas que organizam o livro formam uma espécie de quebra-cabeças
sobre a temática, ou seja; as formas do século XX.
E
se bem é verdade que o fio condutor é uma questão de princípio
formal que agrupa nomes e obras dentro de uma mesma temática,
sabemos que em alguns casos se tratam de coisas diferentes. Neste
procedimento Montaner sintoniza com
as idéias da complexidade de Edgar Morin
quando este diz “...é necessário o que
chamarei de pensamento complexo, quer dizer, um pensamento capaz
de unir conceitos que se rejeitam entre si e que são esmiuçados
e catalogados em compartimentos estanques” (3). É esta a única
maneira pela qual é possível entender a união, numa mesma temática
e de uma maneira tão ampla, de personagens como Magritte,
Ernst, Xul
Solar, Buñuel, Hitchcock, Kiesler, Himmelb(l)au,
Lewis Carrol, André Breton, Gehry
e Clorindo Testa.
São
cinco os temas principais: Organismos, Máquinas, Realismos, Estruturas,
Dispersões, que, do mesmo modo que no Timeu
de Platão, são abordados sem que haja preponderância de um sobre
o outro. Trata-se de um mesmo fluido que submerge e emerge constantemente,
que se transforma e aflora de uma maneira diferente em cada um
destes momentos. Todos eles com a mesma importância, todos eles
com a mesma dimensão e profundidade, sem sobressaltos, nem mesmo
temporais.
Esta
é a arqueologia de Foucault, os Mil Platôs de Guattari
e a ausência de paradigma dos paradigmas de Kuhn. Mas também aparece
aqui implícita a questão derrideana
das margens não delimitadas.
O
legado de Ignasi de Solá-Morales se faz aqui
patente quando advertia: “A crítica não é o reconhecimento ou
a manifestação de folhas, tronco e raízes
senão que ela mesma é também uma construção, produzida deliberadamente
para iluminar aquela situação, para chegar a desenhar a topografia
naquele ponto no qual se produziu alguma arquitetura” (4).
Se
trata disto. Mais do que uma estagnação compartimentada, uma fluidez
de conteúdos.
Notas
1
Traduzido ao português em 2001 também pela editora Gustavo Gili.
2
Da Editorial Nerea.
3
MORIN, Edgar. La noción
del sujeto. In: SCHNITMAN Dora Fried. Nuevos Paradigmas, Cultura y Subjetividad. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1994
4
SOLÀ-MORALES, Ignasi. Diferencias. Topografía de la arquitectura
contemporanea. Barcelona Editorial Gustavo Gili, 1995.
Andrés
Passaro é arquiteto, Mestre pela FAU USP e Doutorando pela
ETSA de Barcelona. Atualmente é professor subsituto da
FAUUFRJ e colaborador do PROARQ.
Laís
Bronstein é Arquiteta Mestre pela FAUUSP e Doutora pea
ETSA de Barcelona, professora da FAU UFRJ e do PROARQ
na PUC/SP |