| Praças
intramuros de Havana Velha
lohania aruca
O
espaço livre, dedicado aos múltiplos e singulares encontros dos
seres humanos em suas atividades coletivas – de intercâmbio comercial,
cultural, desportivo, recreativo, de reflexão ou consulta de opiniões,
culto aos deuses, castigo aos transgressores das normas sociais
de um grupo, e muitas outras, segundo o caso particular de que
se trate –, foi descoberto e definido por quase todas as culturas
que conformam, desde os mais remotos tempos, a experiência histórica
da vida humana em nosso Planeta.
Na
Cuba pré-hispânica, as tribos de imigrantes aruacos, que povoaram as macro-regiões
geográficas oriental e parte da central, utilizaram a palavra
batey para nomear algumas ações: "significa
sentar-se, estar em reunião (e sentar-se)..." (segundo Perea
e Perea, 1941:106, citado por Sergio Valdés Bernal em As línguas indígenas da América, o espanhol de Cuba, 1991, Edições Academia,
Havana, tomo 1, p. 108). Batey
não é um vocábulo desaparecido de nosso entorno atual (junto à
tradicional e pouco correta afirmação do extermínio total dos
aruacos e de sua influência
cultural, e a de seus descendentes, até hoje dia). Ao contrário,
na atualidade ainda nos ocupamos dos bateyes,
especialmente dos que, desde há muito tempo atrás, deram esse
nome ao espaço mais complexo e ativo de um engenho açucareiro
central.
Assim,
o batey é parte do que
podemos considerar a autêntica cultura agrária cubana, e, sem
dúvida, é o menos lembrado no estudo dos antecedentes de nossa
cultura urbana. Por quê? Pois, precisamente pelo empenho do conquistador
e colonizador europeu em deixar-nos seu legado eurocentrista,
no qual a civilização (ao contrário da "barbárie"!)
se relaciona etimologicamente com a cidade, que procede da voz
latina civitas, e o coração de toda cidade é precisamente
a praça principal. No caso da Espanha, este espaço se chama Praça
Maior. E chegamos a pensar que os
atos de juntar-se e sentar-se em um espaço aberto foi uma grande
e exclusiva invenção da civilização ocidental.
Desde
a Ágora até a praça
mais contemporânea dos mencionados países ocidentais, abrir um
espaço público no tecido da cidade e manter a relação deste com
a natureza, ainda que seja apenas visualmente, às vezes foi ou
é uma aspiração difícil de se conseguir, devido à superpopulação
do espaço ocupado, que tem sido, cada vez mais, o traço característico
mais destacado da vida urbana, com a inevitável, ao que tudo parece,
migração do campo para a cidade.
Carlos
Venegas Fornias (Trinidad, 1946 –), cubano historiador da arte,
selecionou este interessante e polêmico tema cultural como assunto
central de seu novo livro Plazas
de intramuro, editado recentemente, 2003, pelo Conselho Nacional
de Patrimônio Cultural, em Havana (120 páginas e 98 ilustrações).
Questiona
o autor, como primeiro objetivo de seu trabalho, as razões para
que as praças intramuros "dominassem o cenário urbano de
uma cidade como Havana" (entre aspas, sempre as palavras
textuais do autor). Em segundo lugar, também se propõe revelar,
através do estudo desde as origens até o século XIX, as causas
do "policentrismo" desses sítios urbanos, que é reconhecido
como um "valor estrutural" do centro histórico de Havana,
que o caracteriza em sua totalidade.
De
acordo com o conteúdo do livro, este pode dividir-se claramente
em duas partes. Na primeira, se desenvolve um ensaio (páginas
5 a 78) muito bem documentado e argumentado sobre os antecedentes,
origens e evolução histórica das praças intramuros em São Cristóvão
de Havana, ao longo dos séculos inaugurais do urbanismo na ilha
de Cuba, XVI e XVII, dando à capital da Capitania Geral uma imagem
de poder graças à aparição de praças de edifícios militares e
religiosos, realizados segundo os códigos renascentistas. Nos
dois trechos finais desta parte, dedicados ao século XVIII ("etapa
de maturidade") e XIX (decadência, 1834 em diante), Venegas
expõe a coincidência total do auge e da queda desses centros urbanos
com os movimentos similares do poder dos criollos ricos sob o governo colonial,
a aparição e uso de códigos barrocos e da casa senhorial urbana
com balcões e portal público rodeando a praça (estilo praça velha
do “setecentos”, definido por Joaquín Weiss y Sánchez). Na terceira
década do século seguinte, alguns destes espaços se transformaram
em mercados cobertos (a Praça Nova e a do Cristo, por exemplo).
Para a zona extramuro se havia deslocado, pouco a pouco, a vida
social e cultural dos moradores de Havana. Os passeios e os eixos
viários flanqueados por comércio e edifícios públicos, absorvendo
cada vez mais a atenção e o uso dos transeuntes que viajavam em
carruagens ou se deslocavam a pé.
A
segunda parte do livro (páginas 79 a 114), pode ser para o leitor
um excelente e prático guia para visitar e/ou se aproximar melhor
do conhecimento das praças intramuros, dos edifícios que hoje
estão presentes em torno delas como limites verticais do espaço
aberto e da vizinhança que ali habita. Com rigorosa ordem de aparição
se lê sobre a Praça das Armas, Praça Nova (Velha no “oitocentos”),
Praça de São Francisco, Praça da Catedral (sobre o eixo norte-sul
estabelecido pelas rotas do ouro e da prata), e da Praça do Cristo
(que marcou a direção de crescimento para o oeste da cidade, e
ao mesmo tempo, se implantou frente a uma das entradas do recinto
amuralhado). Cinco praças maiores para uma pequena cidade portuária
colonial: quanta riqueza acumulada para uma história urbana que
tem tantos assuntos que tratar!
Com
esta obra o autor incita ao aprofundamento na análise urbanística
de Havana Velha, ao estudo dos fatos históricos locais que sucederam
a esses cinco espaços, articulados com as igrejas e famílias principais
da vida econômica e social havaneira. Cada trecho do livro se
converte em um novo ponto de partida para a busca e interpretação
de outros investigadores.
Cabe
destacar a coerência e amenidade do ensaio que recorda o oficio
do escritor, por certo, muito bem reconhecido. Onde ficou algo
desalinhavado ou sem explicação nos estudos precedentes (Weiss,
Roig de Leuchsenring, Segre e outros), agora se reorganiza a matéria
e se incorpora um dado de tipo social, uma observação que leva
em conta o documento jurídico encontrado em arquivo longínquo,
o pensamento analítico ou a nova interpretação do fato urbano,
sustentada por teorias e métodos atuais.
A
edição foi felizmente muito cuidadosa e a impressão de alta qualidade,
apesar da modesta aparência da encadernação. Um total de noventa
e oito ilustrações (mapas, planos, fotos) foi sabiamente distribuído,
e estão ali, justamente no lugar aonde uma imagem economiza muitas
palavras, ou permite comparar a um simples golpe de vista os aspectos
formais que evidenciam a identidade própria de cada praça. O formato
do pequeno livro é oblango (“paisagem”, como se diz hoje), cômodo
para carregar ou folhear sobre uma mesa, e desfrutar deste modo
também de sua beleza na boa companhia de amigos.
Lohania Aruca Alonso é membro da UNEAC, Vice-presidente da
Seção de História da Associação
de Escritores e membro da UNAICC. |