| Aurora
paradisíaca do homem e da arquitetura
mário h. s. d’agostino
Joseph
Rykwert nasceu em Varsóvia em 1926. Aos quatorze anos de idade
seguiu para a Inglaterra, aí realizando seus estudos de arquitetura
na Bartlett School e na Architectural Association School.
Foi professor do Royal College of Art de Londres, onde
obteve seu título de doutor em 1970, e das universidades de Essex
e Cambridge, estabelecendo-se nos Estados Unidos em 1988. Além
de intensa participação em revistas especializadas de arquitetura
(Forum, Domus etc.), ministrou cursos na Alemanha,
Itália e França, dentre outros países. Atualmente leciona História
da Arte na Universidade da Pennsylvania (com o título honorífico
de “Paul Philippe CretProfessor of Architecture”), tendo
sob sua responsabilidade a coordenação do curso de pós-graduação
em arquitetura.
Suas
publicações, numerosas, surpreendem pela abrangência dos temas
e ousadia de investigação. A cidade na Roma Antiga, os arquitetos
do século XVIII, expoentes da arquitetura moderna, urbanismo,
arte contemporânea, muitos os assuntos a que se tem dedicado.
E ainda: com N. Leach e R. Tavernor, empreendeu uma cuidadosa
tradução do tratado de arquitetura de Leon Battista Alberti (MIT/Cambridge,
1988); com A. Engel, foi curador do catálogo de exposição sobre
o mesmo arquiteto, realizada no Palazzo Te em Mântua (Olivetti/Electa,
1994). Membro da Société Internationale Leon Battista Alberti,
Rykwert integra o conselho editorial da revista Albertiana,
criada em 1998. Dentre seus títulos mais recentes, além da monumental
The Dancing Column (1996), sobressai o estudo sobre os
destinos da cidade contemporânea, intitulado A Sedução do Lugar.
História e Futuro da Cidade, lançado no Simpósio “A Cidade
do Amanhã. História e Prospectivas da Arquitetura e do Urbanismo
no Alvor do Século XXI”.
Estes
dados são suficientes para ilustrar a fortuna – e urgência – da
presente edição, a disponibilizar em língua portuguesa uma obra
de indubitável destaque no elenco de publicações do autor. Joseph
Rykwert, é de todos sabido, está entre os maiores historiadores
da arquitetura.
São
peculiares as circunstâncias nas quais A Casa de Adão no Paraíso
conquista divulgação entre nós. Publicada em 1972 pelo Museum
of Modern Art de Nova Iorque, com traduções para o espanhol
(1974), o francês (1976) e o italiano (19??), sua circulação junto
aos meios universitários cedo assinalou orientes novos para o
ensino de história da arquitetura. Por uma parte, ajudou a esmaecer
o veio formalista ainda preponderante na historiografia brasileira
e brasilianista (recorde-se que A Arquitetura Religiosa Barroca
no Brasil, de Germain Bazin, teve sua primeira edição em português
na década de 80); por outra, revigorou os estudos sobre a chamada
tradição clássica. O cuidado do historiador com os tratados, escritos
de arte, obras de estética, manifestos, em suma, com o universo
literário da arquitetura, avizinha-o desde logo àqueles autores
notabilizados por reunirem à seiva da vie des formes o
éter da vie des idées. Nesse diapasão, entretanto, que
se tome como exemplo a obra paradigmática de Rudolf Wittkower
e logo se evidenciará a insígnia própria que Rykwert imprime a
seus estudos.
A
Casa de Adão no Paraíso ganha forma num intricado contexto
de significados. Para compreendê-los em seu devir temporal o historiador
recorre múltiplas vias: o Livro Santo e outros escritos sagrados,
obras de arquitetura, práticas construtivas, ritos, procissões
religiosas... a pouco e pouco, vemo-nos absorvidos no próprio
caminho. Qual o seu sentido para aquele que o persegue? À guisa
de prólogo, reúno aqui alguns apontamentos sobre essa trajetória,
a qual, creio, adita novos encantos ao livro que o leitor tem
diante os olhos.
Primeiro,
e em contraponto às afirmações iniciais, o presente livro denota
tal senso de atualidade, tal vitalidade, que se distancia em muito
dos estudos “estritamente historiográficos”. Em 1965, ao término
de um ensaio sobre a origem da coluna coríntia no limiar do século
IV a.C. (reunido em The necessity of Artifice,1982), Joseph
Rykwert justificava-se pelo tom da escrita e a atitude antiacadêmica
então adotada, esclarecendo: “antiacadêmica porque – e aqui o
leitor poderá sentir-se no direito de exigir desculpas por ter
sido enganado – esse é um artigo não sobre arquitetura antiga,
mas sobre arquitetura moderna”. Olhos dirigidos à casa adâmica,
o leitor advertirá a mesma atenção para com o moderno, ou antes,
o presente, a perpassar toda a sua obra.
Talvez
o fascínio da escrita de Rykwert resida mesmo nesse “rito de passagem”
a que convida o leitor, nesse consignado exercício de dispor-se
“no limiar”, como que reanimando o semblante de Jano. Limiar entre
o antigo e o moderno, o passado e o futuro... entre a recordação
e a promessa, para concluir com suas palavras. Nesta divisa, A
Casa de Adão no Paraíso ocupa posto privilegiado. Patente
já na abertura do livro, o interesse pela arquitetura moderna
é aí constante, e alcança significação plena nas páginas que ultimam
o estudo. Mas não cabe antecipar uma trajetória cuja força está
propriamente em ser percorrida; compete, sim, ressaltar o lugar
da presente obra no quadro de uma produção intelectual de maior
amplitude.
Por
certo, muitas das questões que ora se perfilam à luz de uma aurora
paradisíaca comparecem também no centro das indagações e preocupações
de Joseph Rykwert com os caminhos seguidos pela arquitetura nos
nossos tempos. Em seu livro sobre “os primeiros modernos” (The
First Moderns. The Architects of the Eighteenth Century, Massachusetts
1980), a definição dos fundamentos absoluto e arbitrário da arquitetura
– igualmente abordados no terceiro capítulo deste livro – faz
proêmio ao sinuoso percurso que leva à Jacques-Nicolas-Louis Durand
e ao seqüente menoscabo dos valores formais em detrimento de uma
concepção arquitetônica “em termos de análise estrutural e composição
geométrica”. Recorde-se, nesse viés, A Necessidade do Artifício,
conjunto de artigos engajados na revisão do racionalismo moderno
– o título, não menos expressivo, insinua-se como jogo de palavras
a nos endereçar, uma vez mais, aos divisores entre necessidade
e convenção, positivo e arbitrário, que balizam a obra presente.
Tal
diligência com os problemas da forma, com “a natureza de nossas
respostas a um mundo de artefatos, o modo como grupos e comunidades
se apropriam do espaço” (Os Primeiros Modernos), coliga-se a outro
interesse, comprometido com as disputas em torno à cabana primitiva.
São uma constante na obra de Joseph Rykwert as reflexões sobre
a significância dos adornos e revestimentos, dos ornamentos da
arquitetura. No ano em que vem à luz sua Adam’s House o historiador
organiza uma importante seleção de textos sobre Adolf Loos (Milão,
1972); três anos depois, Ornament is no Crime (“Ornamento não
é delito”, artigo reunido em A Necessidade do Artifício) parafraseia
o polêmico manifesto do arquiteto austríaco. Em 1974 participa
do Simpósio sobre Gottfried Semper realizado em Zurique, com um
estudo sobre a contribuição do arquiteto para a concepção de estilo.
Por fim, – e para maior brevidade –, recentemente volta à cena
em Ri-vestimento (co-autoria de M. Wigley e G. Malossi, 1998).
Elenco suficiente para pôr-nos em sentinela. No campo da cabana,
acendem-se calorosas querelas: Riegl, Semper, Perrault, Blondel,
Laugier, Lodoli, Piranese... Também aí, o empenho do historiador
em recompor uma trajetória coaduna-se ao de desvencilhá-la dos
juízos positivistas e psicológicos que guarnecem a arquitetura
moderna.
As
formulações clássicas da psicanálise têm notórios influxos sobre
o estudo do ornamento. O vaticínio de Loos é exemplar: “Toda arte
é erótica. A primeira obra de arte, a primeira atividade artística
que o artista rabiscou na parede foi para se despojar de seus
excessos.” Nessa linha, a evolução cultural eqüivale à erradicação
da ornamentação, e “pode-se medir o grau de civilização de um
país pela quantidade de rabiscos que se encontra nas paredes de
seus banheiros”. Convém deter-se brevemente sobre o argumento.
Ornamento e Delito opera uma reviravolta nas interpretações
do ornato. Para Semper o ato primordial de adornar o corpo resultava
de um “instinto” próprio ao sentido de beleza, “requeria primeiro
a participação ativa do sentimento estético”; em Riegl, por sua
vez, o foco recaía na “intenção” que motiva o primitivo a um desenho
“cuja finalidade não pode ser outra que ornamental, puramente
artística.” Loos não dá margem a dúvidas, a solução do ornato
reclama um só veredicto: trata-se de “extravasar” sentimento (e
não só o “estético”). Ora, em seu livro sobre a idéia de cidade
no Mundo Antigo (The Idea of a Town, Londres 1976) Rykwert
contesta enfaticamente argumentações similares. Em 1909, em um
conjunto de conferências sobre psicanálise, Sigmund Freud propõe
a interpretação dos monumentos da cidade como “paradigma de histeria”
– grosso modo, o citadino aferra-se aos monumentos como o neurótico
às lembranças (ou o delinqüente aos rabiscos eróticos). Em mais
de um lugar o historiador assinala os limites dessa diagnose de
“casos patológicos”.
É
bem verdade que o repúdio de Loos passa longe das generalizações
que, com freqüência, se lhe imputam (“nunca tenho afirmado, como
sustentam até o absurdo alguns puristas, que se deva abolir o
ornamento sistematicamente e de forma conseqüente”). Mas cabe
insistir sobre tal aspecto psicológico, pelo evidente motivo de
que as considerações de Rykwert em A Idéia de Cidade fazem
eco às palavras de A Casa de Adão no Paraíso dedicadas
ao estudo dos ritos (e não só ao das tribos seminômades da Austrália
central, à pintura de corpo e à waninga como objeto ritual).
Primordial à constelação dos trattati, o solar dos ritos
deslinda profícuos horizontes para se repensar quais desígnios
a arquitetura risca, num tempo em que “temos perdido todas as
singelas certezas acerca da forma em que funciona o universo”.
Em seus significados simbólicos os ritos cingem questões de fundo
da arquitetura, e de seu sentido nos dias de hoje.
Eximindo-se
da reconstituição arqueológica de um original, como o da construção
em madeira para o templo dórico, este livro mantém em mira segue
os vestígios de um protótipo, cuja imagem se delineia com um gama
de significações históricas. Certo, voltando-se para a idéia,
não basta o esquadrinhamento da primeira casa com o aparato conceitual,
é salutar, lembra o historiador, abeberar-se noutra fonte, anterior,
onde se “rememorava a sua forma e natureza mediante cerimônias
e ritos de povos que, todavia, uns ainda chamam de primitivos”.
A observação dos ritos é um distintivo de nosso autor. Por seu
intermédio o leitor haverá muitas vezes de se impressionar com
a ausência de um nítido divisor de águasentre os dois leitos,
entrevendo continuidades, permanências de posturas, de aspirações
que dissipam os limites estanques entre Razão e Mito. Ainda, no
enredo dos ritos e cerimônias religiosas, sequer competirá o garimpo
de visões turvas, que, presume-se, apenas em estágios evolutivos
posteriores virão conscientemente articuladas, trazidas à plena
luz. “A consciência de questões bastante complexas”, escreve Rykwert,
“não necessariamente implica uma capacidade para articulá-las.”
Que se recorde Aby Warburg: “a substituição da causalidade mitológica
por aquela tecnológica – diz na conferência sobre os índios Pueblo
do Novo México (1923) – elimina o temor experimentado pelo homem
primitivo. Mas não nos sintamos muito seguros em asseverar, sem
mais, que liberando o homem da visão mitológica se possa verdadeiramente
ajudá-lo a dar respostas adequadas aos enigmas da existência.
(...) tenho dúvidas de que isso faça justiça à magnífica alma
dos índios, ancorada, por assim dizer, em uma visão poético-mitológica.”
Tais palavras fiam a sorte de A Casa de Adão no Paraíso.
Aquém
do Éden, a “primeira casa” perfila-se na divisa entre a idéia
e o ideal. Guardadas as precauções, é sugestivo aproximar tal
prospecto àqueles concebidos sob inspiração platônica. Como um
“modelo” a iluminar atitudes, cânones artísticos, léxicos e sintaxes
formais, ele reacende antigas suspeitas: mero simulacro ou paradigma
legítimo, jogo de ilusão ou ascese, depuração fenomênica ou princípio
metafísico, imanência ou transcendência – para repor a fórmula
clássica: eîdos ou eídolon? A nós, ao fim e ao cabo,
apresenta-se como subterfúgio desnecessário, ou não?
Que
fique em suspenso o seu destino, insuspeito é o solo onde principia.
Desejos, temores, aspirações... aí têm vida os “modelos”, as “idéias”,
aí perfilam-se intenções e significados superlativos na forma
como os homens organizam seu espaço vital, seja uma simples cabana
ou uma grande cidade. Reiteremos: um só fio une este livro às
invectivas do historiador contra Durand ou os urbanistas que consideram
a cidade “exclusivamente pela perspectiva da economia, da higiene,
dos problemas de tráfego ou dos serviços”. Aqui como alhures os
olhos dobram sobre um presente no qual “os espaços psicológico,
cultural, jurídico ou religioso não são tratados – lê-se no exórdio
da Idéia de Cidade – como outros tantos aspectos do espaço
ecológico”.
Última
observação, ao resguardo das objeções a uma historiografia empenhada
fundamentalmente na compreensão dos significados ou semântica
das formas. Sobre esse mundo simbólico, onde Rykwert transita
como poucos, este livro tem muito a nos dizer.
Mário
Henrique Simão D’Agostino, doutor, é professor de
História da FAU-USP
O
presente texto é o prólogo
à edição brasileira
Leia
também "Zevi
e Rykwert: messianismo, misticismo e paixão arquitetônica",
de Roberto Segre, sobre o livro de Joseph Rykwert
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