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poética da economia. O pensamento e a obra de três importantes
arquitetos brasileiros dos anos 70
nabil bonduki
Todos
os que estudaram nas escolas de arquitetura nos anos 70 viram-se
envolvidos, voluntária ou involuntariamente, em um debate fortemente
polarizado e maniqueísta entre duas correntes de pensamento cujos
protagonistas principais estavam ausentes. Vivíamos os anos de
chumbo da ditadura militar e alguns dos mais expressivos arquitetos
e professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da
USP, como Vilanova Artigas, Paulo Mendes, Jon Maitrejean, Sérgio
Ferro e Rodrigo Lefèvre, estavam afastados da escola, "aposentados",
presos ou exilados pelos dispositivos autoritários.
Numa
FAU "desorientada e dividida", como qualificou o professor
Carlos Martins no prefácio deste cuidadoso livro, as correntes
se expressavam por meio de revistas: "Desenho" representava
a posição dos "artiguistas", identificada com o PCB
e defensora do papel transformador do projeto, e "OU"
expressaria a posição dos "ferristas", nas quais se
alojavam as correntes de esquerda que tinham rompido com o Partidão,
por eles considerado reformista, buscando mais na organização
política do que na prancheta as alternativas para o futuro da
profissão e do país. Embora tanto na política como na profissão
os objetivos de ambas as vertentes fossem os mesmos, democratizar
o país e ampliar o engajamento social da arquitetura, os métodos
e a linguagem as separavam em polarização radicalizada.
A
ausência dos mestres, a simplificação e o esquematismo das posições
em disputa, a falta de liberdades e a existência de partidos clandestinos,
que se camuflaram em correntes estudantis, fizeram com que esse
debate se centrasse mais na política do que na reflexão sobre
os rumos da arquitetura brasileira pós-Brasília, questão que estava
na origem da prática e da teoria dos "ferristas". Estes
ficaram, durante um bom tempo, injustamente identificados como
se negassem o projeto arquitetônico ou, até mesmo, a própria profissão.
A
dissertação de mestrado de Ana Paula Koury, agora transformada
em livro, tem o grande mérito de resgatar e desvendar, de forma
inédita, o pensamento e a obra do trio de arquitetos Sergio Ferro,
Rodrigo Lefèvre e Flávio Império, mostrando sua relevante contribuição
para a arquitetura, cultura e debate intelectual brasileiros.
Discípulos
de Artigas, no sentido de absorver e reelaborar a linguagem e
a perspectiva política do mestre da arquitetura paulista, os três
compartilharam, durante os anos 1960, um escritório onde colocaram
em prática em seus projetos, sobretudo de residências de classe
média, o que eles mesmos definiram como "poética da economia":
o agenciamento racional de experiências construtivas relativamente
simples, cuja otimização dos procedimentos tinha como objetivo
aumentar o desempenho de produção e o acesso à arquitetura.
Alienação
Abóbadas
autoportantes, materiais em bruto e sem revestimento, caixilhos
produzidos no canteiro surgem no âmbito de uma forte preocupação
em criar um processo produtivo voltado para reduzir o custo da
obra, objetivando sua socialização, e romper a alienação entre
os trabalhadores e o produto de seu trabalho, tanto do ponto de
vista material como intelectual.
Koury
mostra como a concepção do trio se insere no fervilhante debate
cultural e político dos anos 1960, estabelecendo uma interlocução
criativa com propostas como o cinema novo, a pedagogia de Paulo
Freire, o tropicalismo e o teatro Oficina, onde, aliás, Império
realizou alguns dos seus muitos projetos cenográficos premiados.
A autora, no seu esforço interpretativo firmemente lastreado em
farta documentação, buscou mostrar a existência de uma identidade
e um "programa" no conjunto da obra dos três arquitetos.
Nesta perspectiva, caracteriza-os como um grupo Grupo Arquitetura
Nova, expressão tomada do título do famoso artigo de Ferro que
marcou, em 1967, uma espécie de manifesto de rompimento com Artigas,
a arquitetura paulista e suas relações com o projeto nacional
desenvolvimentista.
Trata-se
de uma ousadia de interpretação muito bem-vinda, pois lança a
hipótese, rica em possibilidades, que a concepção de Ferro e companheiros
não foi interrompida nos anos 70, mas tem uma linha de continuidade,
gerando uma vertente na prática e no pensamento arquitetônico
que, em novos contextos políticos, produziu e pode ainda produzir
horizontes mais democráticos para a arquitetura brasileira.
No
início dos anos 70, com a prisão de Ferro e Lefèvre e o exílio
do primeiro na França, o grupo se desfez e cada um seguiu carreira
própria, dando continuidade em diferentes áreas de atuação (Império
na cenografia, Ferro na pintura e Lefèvre na arquitetura) a um
processo de criação intelectual. A atuação de Lefèvre e Império
no ensino de arquitetura até meados dos anos 80, quando morreram
em acidentes de percurso, e os textos fecundos de Ferro, com destaque
para o Canteiro e o desenho, deixaram marcas fortes em
um amplo grupo de "discípulos".
A
ligação entre a concepção do Grupo Arquitetura Nova e novas propostas
surgidas a partir dos anos 80, como no processo de produção habitacional
baseado no mutirão e autogestão desenvolvido em gestões do Partido
dos Trabalhadores onde se recoloca a questão da estética da separação,
tão cara a Sergio Ferro é um campo de reflexão para novas pesquisas,
como a que vem sendo desenvolvida por Pedro Arantes.
Com
um elegante projeto gráfico de Carlito Carvalhosa e Mayumi Okuyama,
a análise de Koury valoriza a produção do Grupo, reunindo, com
um rigoroso redesenho, os projetos mais importantes. Permite,
assim, que outros pesquisadores possam aprofundar aspectos específicos
desta obra.
Nabil
Bonduki é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
USP, vereador em São Paulo e autor de "Origens da Habitação
Social no Brasil" (Estação Liberdade).
Resenha
publicada originalmente no jornal Folha de S. Paulo, Jornal de
Resenhas, 14 fev. 2004, p. 3. |