| Alternativas
urbanas sob a ótica da reflexão crítica: antiparalisia da ação
propositiva
tomás moreira
Este
é um livro que se lê de uma só vez, mas que pode ser lido capítulo
por capítulo e consultado de tempos em tempos. Ele contribui para
um olhar reflexivo sobre o exercício do planejamento e da ação
urbana, trazendo reflexões sobre a pesquisa e prática da autora.
Ele denota compromisso e engajamento com os processos urbanos
– implementação e busca de alternativas para os problemas das
cidades brasileiras.
Eis
o terreno árduo e envolvente desta obra: construir uma relação
entre o pensamento crítico sobre alguns fenômenos que levam tanto
a desigualdade quanto a segregação territorial da urbanização
brasileira e propostas urbanísticas que visam superá-las.
Nas
mãos de Ermínia Maricato as características que definem as condições
urbanas no Brasil demarcam radicalmente o contraste existente
entre a evolução progressista da moderna sociedade urbana brasileira
– através da melhora de alguns indicadores sociais – e o retrocesso
dos indicadores urbanísticos.
Sob
o impacto das características do Brasil, que aprofunda a exclusão
social numa sociedade histórica e tradicionalmente desigual, Ermínia
Maricato impõe a desafiante tarefa de delinear constantemente
respostas a esse contraste, que é alicerçado pela máquina de produzir
favelas e a cidade ilegal, hoje espaço da maioria. Reavaliadas
táticas e práticas, a partir do conhecimento da realidade empírica
respaldada por subsídios científicos, são demarcados alguns obstáculos,
que se opõem a uma ação planejada. Em contraponto a barreiras
de um planejamento democrático são ressaltadas algumas experiências
inovadoras praticadas no Brasil, enfatizando a importância de
se contrapor a imposição de propostas urbanas correspondentes a “idéias
fora do lugar” - identificadas através do planejamento estratégico,
alicerçado pela desregulamentação, privatização e fragmentação
na abordagem da cidade e do vazio deixado pelos planos modernistas.
Isso permite vislumbrar direções alternativas, democráticas e
igualitárias, para a crise urbana do país, frente a novas formas
de dominação externas e internas.
A
crise urbana e a crise do planejamento abrem espaço para novas
respostas, onde qualquer mudança por pequena que seja será viva
e representativa, em face da dimensão das contradições que envolvem
as cidades brasileiras. Ermínia Maricato “sacode” o leitor e o
convida a redescobrir que, agora, é possível criar uma nova matriz
de planejamento e gestão comprometida com a realidade empírica
urbana local e regional, tendo por base experiências espalhadas
tanto no Brasil quanto no mundo, e possuindo como pressuposto
uma abordagem holística a partir da consciência da cidade da maioria,
desmistificando a representação hegemônica dominante sobre o urbano.
O
livro traz ainda estímulos para a identificação de antídotos contra
a construção ficcional que perpetua a desigualdade e a segregação
territorial no Brasil. Para tanto a autora focaliza a atenção
do leitor em três pontos. O primeiro deles se refere à reabilitação
de centros urbanos e habitação social, embutido em princípios
de que qualquer intervenção deva ser democrática, a fim de garantir
o direito à cidade para qualquer cidadão. O segundo traz a tona
projetos anti-sociais que se apresentam como sendo sociais, alertando
o leitor quanto ao uso de representação ideológica, enraizada
socialmente, em alguns tristes processos de política urbana da
cidade de São Paulo e do Rio de Janeiro. O último dos pontos trata
das contradições e avanços das alternativas brasileiras apresentadas
em reuniões nacionais e internacionais, como a do Habitat II.
Tudo
indica, nas entrelinhas deste livro com inegável qualidade catalisadora
de preceitos da autora, o forte apreço e a constante necessidade
de delimitar proposições, designadas por ela como recusa a
paralisia da ação propositiva. Dogma que busca traçar a importância
de políticas urbanas que ultrapassem a ação dos governos e dos
demais atores sociais, para além deste espaço como abstração geométrica
e do mero suporte físico, indo em direção a resultados de uma
operação tangível de delimitação de melhoria da qualidade de vida
pela regressão das disparidades e das segregações sociais e econômicas
do país. Princípio este que é de grande contribuição a qualquer
leitor.
Tomás
Moreira é Mestre em Sciences Appliqués:
Habitat & Développement pela Université
Catholique de Louvain,
doutorando em Études Urbaines
na Université du Québec à Montreal e Professor de Planejamento e Projeto
Urbano da Universidade Santa Cecilia,
Santos - UNISANTA |