| Patrimônio:
uma educação para a cidadania
pedro paulo funari
Quem
associa patrimônio à sala de aula? O patrimônio, muitas vezes,
parece ser um tema elevado, distante, como se o próprio conceito
de patrimônio, tão ligado aos bens materiais de valor monetário,
contaminasse o sentido do termo e o também o patrimônio cultural
aparecesse como algo privado, voltado a poucos. Não há, portanto,
tradição de reflexão e ação prática que torne o patrimônio cultural
parte do quotidiano das pessoas e, já por isso, valeria a pena
a leitura atenta deste pequeno volume publicado pelo inovador
Laboratório de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Universidade
Federal de Santa Maria, coordenado por Saul Milder.
A
preocupação com o patrimônio, por tradição secular, centrou-se
nos vestígios monumentais das elites do passado, nos grandes edifícios,
na grande estatuária, nos grandes pintores, escultores, nos estilos
canônicos da erudição. No Brasil, esse viés foi tanto mais forte
quanto nossa sociedade, patriarcal e aristocrática, apenas tardiamente
foi afetada pelos interesses de indígenas, negros e pela gente
comum, cujos padrões e interesses não se limitam à erudição, mas
estende-se por toda uma pletora de valores culturais corriqueiros.
Essa democratização do entendimento do patrimônio tem sido importante
para uma reflexão crítica e por uma ação concreta transformadora
e é neste contexto que se insere o livro do educador e estudioso
da cultura material, Mauri Luiz Bessegatto.
O
volume apresenta uma série de experiências concretas apoiadas
em reflexões teóricas bem fundamentadas. Apresenta-se o programa
“O patrimônio em sala de aula”, cuja intenção consiste em “que
o aluno, pesquisando e expressando-se, passe a agir e interagir
com seu meio. E ao presentificar um olhar sobre o passado que
a disciplina de História possibilita que ele, o aluno, possa identificar-se
enquanto indivíduo, diferente, mas componente de uma coletividade
que o une e, portanto, que é sujeito da História” (p. 18).
A
participação dos alunos na construção de novas formas de atuação
permite que a aula se torne reflexiva, ao se confrontarem com
a imensidão de contradições e dicotomias que desperta o interesse
para a liberdade de idéias. O livro didático passa a ser um material
de apoio e as provas servem para levar à reflexão.
A
parte central do volume está ocupada por um conjunto de atividades
práticas, de caráter lúdico e pedagógico, com exemplos concretos,
referências a portais virtuais, desenhos criativos e inspiradores.
Parte de uma paráfrase da expressão clássica grega e propõe: “caquinho:
decifra-me ou te devoro”. Utiliza-se de conceitos originários
de Paulo Freire, a começar pela curiosidade, “como inquietação
indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta
verbalizada ou não, como procura de esclarecimento”. Sugerem-se
aulas temáticas e estratégias práticas que serão muito úteis não
apenas na sala de aula, como para educadores em museus e outras
instituições patrimoniais.
Este
volume, de leitura muito agradável, cheio de imagens instigantes,
constituirá contribuição inovadora para todos que se interessam
pelas dimensões sociais e públicas do patrimônio cultural. Arqueólogos
e arquitetos, historiadores e professores, antropólogos e arte
educadores, todos esses profissionais, e outros mais, muito terão
a aprender, pois o volume pode servir como inspiração para ações
patrimoniais concretas. O êxito imediato do volume, que atende
a uma demanda reprimida de estudos sobre a educação patrimonial,
levou ao esgotamento da primeira edição e à publicação de uma
segunda. Todos os interessados no uso social do patrimônio agradecem.
Pedro
Funari é professor da UNICAMP, coordenador-associado do Núcleo
de Estudos Estratégicos (NEE/UNICAMP), pesquisador de temas patrimoniais,
com publicações sobre o tema no Brasil e no exterior. |