| Arquitetos
e a ferramenta/vida digital: duas tendências?
resenha
de eluiza bortolotto ghizzi
Natural
born CAADesigners é
o sexto título da série IT Revolution (The Information
Technology Revolution in Architecture), que inclui os seguintes
títulos: HyperArchitecture, Digital Eisenman, Information
Architecture, Virtual Terragni e Digital Stories.
As publicações da coleção trazem dados e reflexões sobre os modos
como a dimensão virtual afeta os arquitetos e a arquitetura em
geral. Natural Born CAADesigners conta com um texto introdutório
escrito por Antonino Saggio (Università La Sapienza, Facoltà
di Architettura – Italia) que, a par de apresentar a obra,
inclui análises próprias acerca do tema geral das pesquisas contemporâneas
em arquitetura, que são de uma riqueza particular.
Christian
Pongratz e Maria Rita Perbellini selecionam neste livro alguns
nomes da nova geração de arquitetos que desenvolvem suas pesquisas
arquitetônicas com o uso das tecnologias digitais e sobre as relações
dessas tecnologias com a arquitetura. Os arquitetos selecionados
são pertencentes a 10 estúdios. Trata-se de jovens-arquitetos
(aproximadamente 40 anos) que foram introduzidos na profissão
quando o computador já era utilizado como ferramenta de trabalho;
portanto, “nasceram” arquitetos com o computador. Como toda a
sua geração, têm essa tecnologia incluída na formação da sua visão
das coisas e do mundo. Esses arquitetos atuam nos Estados Unidos,
embora nem sempre sejam nascidos ou formados na profissão dentro
desse país.
Segundo
Antonino Saggio, Pongratz e Perbellini trabalham como que sobre
uma “nebulosa de idéias” que não podem nem pretendem clarear.
Isso é compreensível se considerarmos a natureza ainda emergente
e inacabada do terreno ao qual se dedicam e a diversidade de conceitos
e experimentos. Os conceitos são procedentes de diferentes campos
da ciência como a física, a biologia ou a matemática, bem como
da filosofia, entre outros. Os experimentos envolvem a pesquisa
de formas fluidas, antropomórficas, anfíbias e animadas, estados
modais e comportamentais, possíveis dimensões virtuais e os processos
que compõem a complexidade da vida contemporânea. Saggio compara
esses experimentos com os que tinham lugar nos ateliês florentinos,
de artistas e arquitetos, no início do século XV (Quattocento).
Tal como aqueles eram “nascidos com a perspectiva”, estes novos
arquitetos de nosso tempo são “nascidos com o computador” e, tal
como aqueles, são tomados por um “espírito” de revisão
e transformação, que é estimulado tanto pelas críticas
a certas teorias e práticas arquitetônicas do nosso passado recente
quanto pelo conhecimento e pelos modos de vida próprios da nossa
época.
O
conteúdo do livro é composto de artigos que analisam duas tendências
principais: a da arquitetura da De-formation e a da arquitetura
da In-formation. Em linhas gerais o texto indica que os
novos designers estão considerando, de um lado (De-formation),
a primazia da forma e as possibilidades de manipulação e deformação,
especialmente aquelas disponibilizadas pelo computador e não mais
circunscritas pelas limitações da geometria euclidiana; não se
trata, como bem enfatiza Saggio, de manipulação da forma por mero
prazer, mas de fazer isso com a consciência de que a forma está
imbuída de idéias e modos de pensar. De outro lado, temos a tendência
(In-formation) que antepõe à forma o conhecimento de nossa
época e aquilo que nos caracteriza como cultura de consumo em
meio a constantes e acelerados fluxos de informação e de transformação.
Esta segunda tendência está atenta à valorização das imagens na
nossa cultura, ao mundo da arte, do design e das mídias
no ambiente fluido do ciberespaço e às relações híbridas na cultura
(como entre ciberespaço e ambiente físico). Está preocupada com
o papel da arquitetura nesse novo meio-ambiente cultural e certa
da ineficácia dos “ícones” do Modernismo para tratar dessas questões.
Diante disso, se auto-incumbiu de traçar novas referências para
a arquitetura, livres da abstração formal de cunho modernista
e de referências figurativas de outras épocas; por outro lado,
está mais ligada à abundância figurativa da sua própria época,
ao modo como a tecnologia afeta a cultura e à idéia de ambientes
gerativos “não planejados”; em síntese: às relações interativas
entre arquitetura, tecnologia, usuário e ambiente.
O
primeiro capítulo, intitulado Scene of the Crime, analisa,
primeiramente, o fato de que o computador, enquanto ferramenta
de projeto, dá início a mudanças no modo de conceber modalidades
espaciais e permite à arquitetura vencer certas limitações nesse
campo; analisa, ainda, o fato de que isso tem relação com o tipo
de lógica implicada na linguagem da máquina. Posteriormente, volta-se
para a progressão dos usos do computador, desde aqueles usos que
enfatizavam mais o aumento da produtividade e o mero impacto visual
das imagens digitais no trabalho arquitetônico até a real exploração
do “uso imaginativo” das técnicas digitais. Em seguida, trata
da necessidade de um olhar para a arquitetura que “atravesse”
as diferentes disciplinas que têm contribuído para a construção
do conhecimento contemporâneo e cujas idéias tendem a modificar
nosso pensamento e nossa percepção. Por fim, dá ênfase ao fato
de que chamado estado “líqüido” associado à arquitetura e ao ambiente
urbano já permeia, de certo modo, nosso ambiente físico ligado
à evolução tecnológica, às experiências de “comunicação global”,
à lógica do “digital” e à da “interconexão”.
No
segundo capítulo, intitulado The Young American Architects
são expostas considerações gerais sobre os arquitetos selecionados.
Primeiramente, do quanto esses arquitetos são fundamentalmente
diferentes dos modernistas; enquanto outros, a exemplo de Gehry,
Eisenman ou Koolhaas podem ser ditos como grandemente influenciados
por arquitetos como Mies van der Rohe, Le Corbusier ou Aalto este
grupo de que trata o livro pode ser considerado “sem pai”; trata,
ainda, dos variados tipos de software envolvidos nos seus
trabalhos, além das diferenças entre esses arquitetos, no que
se refere aos países onde nasceram e/ou se formaram na profissão
e/ou aturam profissionalmente, enfatizando que, apesar de procederem
de diferentes culturas, isso não é um fator importante no seu
trabalho, dado que a “nova cultura transnacional” parece neutralizar
diferenças culturais locais. O capítulo também vai tratar de experiências
no ensino da arquitetura envolvendo pesquisas inovadoras encaminhadas
por esses arquitetos.
O
terceiro capítulo, intitulado Premeditation, dá atenção
às relações complementares entre diferentes paradigmas na formação
do conhecimento hoje, fazendo referência a uma corrente de idéias
que se volta para organizações e estruturas “intermediárias” ou
o ‘híbridas”. Além disso, esse capítulo trata das pesquisas envolvendo
modelos de “flexibilidade”, ligada a superfícies topológicas e
à geração de espaços, mais especificamente, se refere à tendência
da de-formation. Por fim, vai abordar a relação dos arquitetos
e da arquitetura com a cultura contemporânea, ou seja, da tendência
da in-formation.
O
capítulo quarto, intitulado Differences, é onde são inseridas
as referências diretas ao tipo de pesquisa desenvolvido por cada
um dos 10 estúdios selecionados. Aqui que eles são divididos segundo
a abordagem da de-formation ou da in-formation.
Todavia, o critério de divisão não pretende deixar de lado, como
enfatizam Pongratz e Perbellini, a expressão singular dos designers,
diferenciadora dos seus trabalhos.
A
primeira seção do quarto capítulo, intitulada De-formation
Architecture, inclui: Karl Chu (X Kavya), suas pesquisas em
geometrias não euclidianas e sua noção de modal space;
Greg Lynn (Form), autor do projeto da Embriological House,
e seus estudos em morfologia, geometria e formas em geral, fazendo
referência à influência da animação na sua obra; Jesse Reiser
+ Nanako Umemoto (RUR Architecture) e seu empenho no desenvolvimento
de algo que pode ser continuamente modificável e cambiável, voltado
para a concepção de sistemas complexos sem perda da flexibilidade;
e Nonchi Wang (Anphibian Arc) que desde meados de 1993 tem estado
focando a idéia de “Arquitetura Líqüida” (que foi cunhada por
Nonchi Wang em 1993 independentemente de Marcos Novak), uma resposta
arquitetônica para as constantes mudanças da consciência humana
através do domínio digital na era do computador.
A
segunda seção do quarto capítulo, intitulada In-formation Architecture,
inclui: Neil M Denari (Neil M. Denari Architects) e suas preocupações
com os processos de significação na cultura de consumo e com as
respostas apropriadas da arquitetura; Elizabeth Diller e Ricardo
Scofidio (Diller + Scofidio), que são referenciados por suas abordagens
transdisciplinares explorando as intersecções da arquitetura e
das artes visuais e performáticas; Wink Dubledam (Architectonics),
cuja arquitetura é apresentada como um verdadeiro campo de experimentações,
no qual explora conceitos fundados por Gilles Deleuze, Paul Virilio
ou Michel Serres; Marcos Novak e suas noções de transarchitectures
e liqüid architectures, bem como suas pesquisas que combinam
arquitetura, realidade virtual, ciberespaço, interatividade e
conceitos de rede, entre outros; Hani Rashid e Lise-Anne Couture
(Asymptote Architecture), que estão interessadas em geração da
forma através do uso de computadores, todavia, incorporando a
leitura e interpretação de “estratos contextuais, fenomênicos
e culturais que rodeiam o lugar, programa e significado” de cada
edifício que estão projetando; e, por fim, Thomas Lesses (Lesses
Architecture) que levanta a questão dos valores e significados
associados às formas como aquilo que de fato importa na arquitetura
como uma linguagem que pode ser utilizada tanto para fins críticos
quanto conservadores; não sendo tão claro que formas que meramente
usam o computador sejam necessariamente críticas e ofereçam resistência
a qualquer sistema de normas já estabelecido.
O
livro inclui um Glossário por meio do qual o leitor poderá se
familiarizar com conceitos que vêm sendo incluídos no repertório
arquitetônico. O Glossário, por si só, constrói um diagrama dos
campos de estudo dessa arquitetura. Além dele, a obra traça um
breve perfil dos autores, incluindo dados sobre onde o leitor
poderá encontrar mais informações sobre os estúdios ou sobre como
fazer contato diretamente com os arquitetos. O texto sobre o trabalho
dos arquitetos é acompanhado de muitas imagens que permitem um
acesso do leitor a aspectos da linguagem arquitetônica com que
cada um vem se apresentando, funcionando complementarmente em
relação ao texto.
Natural
Born CAADesigners está entre os textos que vêm registrando
os primeiros passos de um dos mais importantes debates da arquitetura
hoje. Esse debate implica, necessariamente, que nos voltemos para
os fatos arquitetônicos que compõem o vasto cenário atual. Além
disso, envolve iniciativas em reconhecer nos fatos e transformar
em conhecimento manipulável e criticável tanto a nossa herança
histórica quanto sua inserção na cultura contemporânea e o feixe
de possibilidades que se abre para o futuro na arquitetura. Para
o desenvolvimento da arquitetura são igualmente importantes tanto
os fatos arquitetônicos quanto as análises. Assim como os fatos
são diversos entre si, diversas são as possibilidades de análise
que se apresentam. Natural Born CAADesigners, como Pongratz
e Perbellini esclareceram, se referem a arquitetos que participam
hoje de um cenário específico. Além disso, suas idéias e projetos
foram alvo nesse livro de um ponto de vista particular. A obra
apresenta-se, portanto, àqueles interessados no debate contemporâneo
da arquitetura, como um recorte possível, associado a uma das
perspectivas possíveis, sobre a arquitetura da chamada “Era Digital”.
Um recorte e uma abordagem muito bem organizados e que têm, ainda,
o mérito de oferecer ao leitor dados que podem abrir portas a
novas investigações.
Eluiza
Bortolotto Ghizzi é arquiteta, professora do Departamento de Arte
e Comunicação da UFMS, mestre e doutoranda em Comunicação e Semiótica
na PUC/SP |