| Esther
e São Paulo – construções culturais entre o edifício e a cidade
(1)
resenha de roberto conduru
Esther,
a formosa e astuta rainha bíblica, protetora dos judeus, nunca
deve ter imaginado que o seu nome chegaria a terras e tempos tão
distantes, batizando a filha de um empreendedor de São Paulo da
segunda metade do século XIX e algumas realizações de sua família:
uma usina de açúcar, um edifício na capital e uma rua de uma cidade
no interior do estado.
Mas
não só a onipresença de um nome feminino torna a pessoalidade
tão presente nesse livro. A obra em foco é analisada segundo o
paradigma biológico que influencia a história da arte desde a
Antigüidade. De certo modo, essa é a biografia de uma individualidade,
no caso, de um edifício. Como um biógrafo, que acompanha o nascimento,
crescimento, maturação, envelhecimento e morte de uma pessoa,
Fernando Atique acompanha a vida do Edifício Esther, sua idealização,
projeto, construção, descaracterização e preservação.
O
trabalho se insere em uma tradição de estudos monográficos sobre
edificações singulares (2). Contudo, cabe destacar o foco ampliado
do livro, que a leitura do sumário logo faz perceber. Não interessa
apenas a coisa em si – o prédio – mas também seus promotores,
autores, habitantes, usuários, historiadores e agentes de preservação.
E, mais do que os indivíduos, interessam os processos sociais
de que são partícipes. Embora foque em um edifício, fica claro
desde o início que o interesse de seu estudo é a relação intrínseca,
indissociável mesmo, entre edifício e cidade, apostando no caminho
dos “estudos sobre prédios emblemáticos que desempenharam papel
capital nas transformações das cidades”. Assim, o Edifício Esther
é analisado no processo de criação, consolidação, decadência e
revitalização do Centro Novo de São Paulo, outro “indivíduo” importante
nessa biografia.
O
primeiro capítulo foca nos promotores da edificação – a Família
Nogueira – e acompanha os empreendimentos com os quais não só
o enriqueceram, mas também construíram para si uma identidade
social vinculada à elite paulista tradicional. Egressos do interior,
nesse processo faltava aos Nogueira “um pronunciamento efetivo
sobre o tecido urbano” da capital, “um símbolo que pudesse render-lhes
admiração”, o qual, “à maneira de um cartão de visitas do grupo,
fosse capaz de marcar solidamente a presença dos Nogueira na economia
estadual”. O Edifício Esther é exatamente esse pronunciamento,
esse símbolo: o “fruto de um Projeto Modernizador cunhado por
seus promotores capaz de expressar, de forma definitiva, a contribuição
da Família Nogueira ao progresso de seu Estado.”
Nesse
sentido, o autor sublinha “o peso da iniciativa privada sobre
a dinâmica econômica e urbana do estado de São Paulo” e como a
arquitetura moderna no Brasil não foi patrocinada exclusivamente
pelo Estado, como pode sugerir boa parte da bibliografia existente.
E aponta como “os arquitetos que mantiveram uma relação estreita
com os investidores privados são vistos, tradicionalmente, como
alienados da militância renovadora da sociedade que, supostamente,
seria alcançada com a Arquitetura Moderna implantada pelo Estado”,
citando Álvaro Vital Brazil, Oswaldo Bratke e Rino Levi como vítimas
desse entendimento.
O
segundo capítulo é centrado na idealização, no projeto e na construção
do edifício. Visando rentabilidade simbólica e financeira, os
promotores conceberam um programa de edifício que, além dos escritórios
da Usina Ester, deveria conter lojas comerciais, escritórios,
consultórios e residências de variados tipos – espaços de aluguel
para gerar renda e garantir a auto-sustentabilidade do investimento.
Assim, a localização e a escala do empreendimento, assim como
os fatores econômicos, importavam mais do que as opções artísticas,
as filiações estéticas. O que não impediu a concordância entre
os interesses dos promotores com os ideais dos arquitetos-autores
do anteprojeto vencedor do concurso privado – Álvaro Vital Brazil
e Adhemar Marinho. Ao explorar as diferenças entre a idéia original
e a versão definitiva, indicando as sucessivas alterações que
o projeto sofreu durante a construção do edifício, Fernando Atique
torna evidente como os interesses da Família Nogueira causaram
conflitos mas também funcionaram como estímulos para os arquitetos.
O
terceiro capítulo relata como o edifício foi ocupado, tornando-se
efetivamente um símbolo dos negócios da Família Nogueira, um lugar
de trabalho e moradia, bem como um ponto vital da cultura paulistana,
abrigando debates intelectuais, artísticos e políticos, mas também
lazer noturno e até encontros amorosos excusos. Processo que fez
do Edifício Esther um endereço da modernidade em São Paulo dos
anos 1930 aos 1960. O autor também recupera a fortuna crítica
do Esther, a qual, de conexões culturais mais amplas, vai se restringindo
ao campo arquitetônico, à medida em que o Edifício perde sua posição
de destaque na vida da cidade.
Relatos
de ocupação, imagens e textos nos quais se pode perceber como
o Edifício Esther foi e continua sendo um tanto polêmico. Durante
a construção, seus promotores foram questionados sobre a confiabilidade
e decência do prédio, sobre a sua moralidade enfim, devido à extensão
e dominância dos seus vãos, que tornariam o Edifício um verdadeiro
mostruário da intimidade de seus habitantes. Pronto, não deixou
de gerar reações inusitadas. O sóbrio contraste cromático das
fachadas – o preto do vitrolite sobre o creme-palha do marmorite
– fez com que ganhasse um apelido: “Penhorado, agradece” – expressão
típica dos cartões de pêsames da época, que tinham cores semelhantes
às do edifício – agregando ironia ao “cartão de visitas” da Família
Nogueira. O Esther também é controverso na história da arquitetura
no Brasil, estando fora de alguns destacados manuais sobre o movimento
moderno no país (3).
A
certa altura do texto, citando Lilian Fessler Vaz a respeito do
processo de transformações do edifício de habitação coletiva vertical,
diz que também na obra em questão “pode-se identificar, a cada
passo, algo de novo, mas também algo de antigo”. Com efeito, no
Edifício Esther convivem a marca da Família Nogueira, a figura
predominantemente estática de uma engrenagem que remete à usina
de açúcar, e as linhas abstratas, fluidas e livremente sinuosas
do guarda-corpo das escadas laterais, que podem remeter aos fluxos
dinâmicos e erráticos, mas algo elegantes, das massas anônimas
na metrópole. Um entre os muitos exemplos de tradicionalismo e
inovação presentes no Esther, resultantes que são da soma e do
choque de diferentes visões da modernidade: o conservadorismo
modernizante de uma família de “paulistas de origem”, os ideais
renovadores de dois jovens arquitetos engajados no movimento moderno
de arquitetura, a atração pelo moderno de parte dos usuários do
edifício, a admiração, o espanto e a desconfiança daqueles que
dele usufruem apenas como elemento da paisagem ou como fato cultural.
Aos
poucos, o texto vai tornando claro como o Edifício Esther resulta
da confluência dos interesses da Família Nogueira, da dinâmica
histórica de São Paulo, dos ideais do movimento moderno de arquitetura
e das práticas culturais dos habitantes da cidade. Analisando
a sua situação urbana original, o autor mostra como o Edifício
Esther era, ao mesmo tempo, uma fronteira entre os edifícios dominantemente
comerciais das ruas Barão de Itapetininga, 24 de maio, Marconi
e Xavier de Toledo e os edifícios preferencialmente residenciais
da rua São Luiz, mas também um condensador desses tipos, uma vez
que congrega espaços de trabalho e habitação. Também o estudo
de Fernando Atique é um ponto de confluência, um condensador.
Como o edifício, para cuja realização e sobrevivência convergem
muitos agentes e interesses, também o livro conjuga enfoques variados
e se vale de diferentes fontes: documentos, livros, revistas,
jornais, depoimentos, iconografia antiga, nova e especialmente
produzida para o livro pelo autor, indicando a possibilidade,
ou, melhor, a necessidade de se ver a história do Edifício Esther
a partir dessa visada múltipla. Não há, assim, grande distância
entre a arquitetura e o urbanismo, nem entre as histórias da arquitetura,
do urbanismo e da cidade, disciplinas que, muitas vezes, têm se
tornado estanques no meio acadêmico brasileiro. Mas a qualidade
do livro não deriva apenas dessas opções ou das muitas informações
novas que apresenta sobre a obra, pois é evidente o tom crítico
com que o autor procura nortear a sua análise.
Algumas
vezes, parece até que há intenção de minimizar o caráter inovador
do Edifício. Além de mostrar como o projeto depende de variados
interesses e outras condicionantes, são apontados seus precedentes
técnico-artísticos. Contudo, quando indica como algumas “novidades”
do Esther já estavam presentes em realizações e processos anteriores,
o que interessa ao autor é precisar as reais contribuições de
seus agentes, fazendo com que sobressaia a densidade histórica
da obra. Devido a essa capacidade de o Edifício permitir alcançar
outras realizações e processos, em um determinado momento Fernando
Atique chega a qualificá-lo como um “termômetro social”. Assim,
fica evidente que não toma o Edifício como uma obra-prima inconteste
da história da arte, fazendo com que seja percebido, ao final,
como um fato histórico de grande relevância por conta de suas
qualidades estéticas e outros fatores sócio-culturais.
No
quarto capítulo, o autor aborda o processo de multiplicação e
esvaziamento da centralidade de São Paulo, o afastamento da Família
Nogueira da gerência do Esther, os processos de tombamento do
prédio pelo município e pelo estado, a paulatina descaracterização
do edifício e o movimento de reabilitação do mesmo com projetos
de restauração.
Assim,
o livro não deixa de estar conectado aos projetos de recuperação
dos espaços construídos em São Paulo, enfrentando o risco do engajamento
utilitário. Em determinado momento, Fernando Atique aponta outro
risco que corre nesse trabalho: institucionalizar a memória do
Edifício Esther. Contudo, é importante observar que a sua análise
é histórica, priorizando não as experiências e os interesses pessoais,
mas o confronto crítico de variadas fontes, contribuindo com a
necessária reavaliação dos agentes envolvidos na construção de
São Paulo. Assim como a recuperação do Edifício Esther participa
no processo de revitalização em curso do Centro de São Paulo,
o livro de Fernando Atique colabora para a revisão da história
da arquitetura e da cultura no Brasil.
Notas
1
Este texto é o prefácio do livro Memória Moderna – a trajetória
do Edifício Esther, ATIQUE, Fernando. Editora Rima, São Carlos,
2003
2
Por exemplo: espaços públicos como o Palácio Gustavo Capanema,
no Rio de Janeiro – LISSOVSKY, Maurício; SÁ, Paulo Sérgio Moraes
de (org). Colunas da educação: a construção do Ministério da
Educação e Saúde (1933-1945). Rio de Janeiro, MINC/IPHAN,
Fundação Getúlio Vargas/CPDOC, 1996; realizações privadas como
o Palácio Martinelli, em São Paulo – HOMEM, Maria Cecília Naclério.
O prédio Martinelli: a ascenção do imigrante e a verticalização
de São Paulo. São Paulo, Projeto, 1984; e casas como a Vila
Penteado, na mesma cidade – HOMEM, Maria Cecília Naclério (org.).
Vila Penteado. São Paulo, FAU/USP, 1976.
3
São eles: BRUAND, Yves. Arquitetura Moderna no Brasil.
São Paulo, Perspectiva, 1981; CAVALCANTI, Lauro. Quando o Brasil
era moderno. Guia de arquitetura 1928-1960. Rio de Janeiro,
Aeroplano, 2001.
Roberto
Conduru é graduado em Arquitetura pela UFRJ, doutor em História
pela UFF, professor de História da Arte no Instituto de Artes
da UERJ e no Curso de espacialização em História da Arte e Arquitetura
no Brasil na PUC-Rio. |