| Arqueologia
e patrimônio não são apenas sobre o passado
resenha de gustavo g. politis
A
arqueologia é uma ciência social de certa complexidade, já que
deve ser manejada simultaneamente na escala temporal e espacial
e interagir com o conhecimento produzido por outras ciências,
tais como a geologia, a antropologia, a paleontologia, e a paleoecologia.
Apresentar a arqueologia como disciplina integral num texto introdutório
é ainda muito mais complexo, visto que, além das dificuldades
inerentes que supõe reduzir em poucas páginas uma ciência multidisciplinar,
o publico não especialista tem, na maioria das vezes, uma visão
distorcida da disciplina. Para a maioria dos leigos, a arqueologia
é uma prática científica que se reduz à escavação das pirâmides
do Egito, ou dos monumentos da Grécia Clássica, ou discorre num
mundo de aventuras e explorações ao estilo “Indiana Jones”. Pouca
gente crê que as pinturas rupestres, os índios que habitaram as
costas de Brasil há milhares de anos, as vasilhas de cerâmica
e os artefatos de pedra que são encontradas aos milhões na América
do Sul, são projetos sérios de arqueologia. Em geral, se pensa
que são temas menores, pouco dignos do trabalho a ser desenvolvido
e insignificantes se comparamos ao Partenon, a Esfinge de Gizé
ou com algum templo de Camboja.
Neste
livro, Pedro Funari se compromete com a colossal tarefa de colocar
a arqueologia no plano da realidade, de romper com o mito de que
a arqueologia se realiza somente em cima das obras monumentais
e objetos exóticos. Neste sentido, Funari se distancia de outros
textos introdutórios que tendem a resumir e simplificar a arqueologia
e terminam apresentando uma visão uniforme e pré-estabelecida
da disciplina, visão errônea que não representa o estado crítico
e de permanente reflexão na qual a mesma se desenvolve. Funari
transita com singeleza e clareza no delicado caminho que leva
para o entendimento de que a arqueologia, apesar de estudar o
passado, é uma ciência do presente e que seus produtos – conhecimentos
originais – se incorporam à vida cotidiana de nossa sociedade.
A
obra tem um eixo muito nítido que o autor expressa logo no início
do livro: “a Arqueologia estuda, diretamente, a totalidade material
apropriada pelas sociedades humanas, como parte de uma cultura
total, material e imaterial, sem limitações de caráter cronológico”.
Dito em outras palavras, ainda que a disciplina não se possa escapar
da materialidade da cultura, não renega os aspectos imateriais,
os que permitem conhecer o profundo e o diferente das sociedades.
Ademais, Funari não se limita a um tempo, rompendo com a já anacrônica
concepção de que a arqueologia era a forma de abordagem para o
estudo dos povos sem escrita.
Para
que serve a arqueologia? Que são os “fatos arqueológicos”? Existem
limites entre a arqueologia, a antropologia e a história? O quê
é um artefato? Por que a arqueologia pode se considerar um tipo
especial de leitura? Estas e muitas outras perguntas são desenvolvidas
no livro, contribuindo com as possíveis respostas nas mais diferentes
visões. Desta maneira, o autor nos dá um panorama atual da ciência,
onde o arqueólogo não descobre um passado pré-existente, mais
sim, ele constrói um passado, não só se baseando nos dados arqueológicos,
mais utilizando também o contexto social e político e pelas demandas
e interesses da sociedade estudada.
Por
último, neste livro se toca nos principais temas e problemas da
arqueologia contemporânea com clareza e atualidade, ilustrando-os
com alguns exemplos do Brasil, mas sem esquecer o caráter universal
da disciplina. Ao longo desta síntese, Funari deixa uma clara
mensagem para todos aqueles que desejem saber de que se trata
realmente a disciplina: a arqueologia não é uma ciência dos objetos
e das coisas mortas do passado; a arqueologia é, pelo contrário,
uma ciência da cultura e de suas infinitas transformações durante
o desenvolvimento da humanidade ao longo do tempo.
Tradução
de Leonardo Soares
Gustavo
Politis é pesquisador do Museo Nacional de La Plata, professor
da Universidad Nacional del Centro, Argentina, autor de Nukak,
organizador de Archaeology in Latin America (Londres e
Nova Iorque, Routledge, 1999), autor de dezenas de artigos científicos
publicados nos EEUU, Inglaterra, Argentina, Brasil, entre outros.
Resenha
publicada originalmente em www.nethistoria.com
(ISSN 1679-8252), julho de 2004. |