| A
civilização de Corbusier
resenha de antônio agenor de melo barbosa
''Instalou-se
sob nossas barbas, sorrateiramente, clandestinamente, uma civilização
maquinista, mas sem que a distingamos com clareza. Ela nos jogou
e nos mantém em uma existência hoje discutível. Surgem sintomas
de transtorno na saúde dos indivíduos, transformações econômicas,
sociais, religiosas etc. Começou uma civilização maquinista. Alguns
não a percebem, outros a ela se submetem.'' Escrito em Paris por
Le Corbusier (1887-1965), em 4 de junho de 1960, o fragmento acima
é parte do prefácio para a reedição francesa de Precisões sobre
um estado presente da arquitetura e do urbanismo, cuja publicação
original ocorreu em 1930. Escrito por um arquiteto que, aos 73
anos, já era consagrado internacionalmente por suas idéias e por
seus feitos, demonstra uma impressionante coerência em relação
às formulações da juventude.
Voltemos
ao mês de outubro do ano de 1929. Aos 42 anos, Le Corbusier vem
à América do Sul para um ciclo de 10 conferências em Buenos Aires.
Tais conferências tinham como objetivos fazer uma análise da arquitetura
moderna, como também apontar os rumos para o futuro da arquitetura
e do urbanismo da então nascente civilização maquinista, objeto
de reflexões éticas e estéticas ao longo de toda a sua trajetória
intelectual.
Fundador
dos Ciam (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna), Le
Corbusier fez a opção paradoxal de não participar da segunda edição
do evento para empreender o seu périplo sul-americano.
Num
texto crítico, escrito especialmente para esta primeira edição
em língua portuguesa, Carlos Ferreira Martins destaca que não
se tratava da viagem de um aprendiz mas, sim, de um dos protagonistas
do movimento internacional de renovação da arquitetura. Desta
forma, a opção pelas conferências na América do Sul era também
oriunda de um distanciamento já anunciado entre o grupo de jovens
radicais arquitetos da ''ala alemã'' no que se referia, sobretudo,
ao papel social do arquiteto.
Mas,
a despeito da veia doutrinária de um arquiteto já maduro, há que
se entender também a sua viagem à América do Sul como uma viagem
de formação e da percepção de um Novo Mundo tão distante e aberto
às novas possibilidades. Em conferências improvisadas, mas nem
por isto desprovidas de um texto de grande valor estilístico e
até literário, pode-se assim dizer, Le Corbusier ia produzindo
croquis geniais na medida em que achava oportuno ilustrar com
desenhos as idéias que apresentava, para deixar claro o fato de
que as suas construções teóricas estavam sempre em sintonia com
a sua prática projetual.
Le
Corbusier tinha plena convicção de que a sua conquista da América
em 1929 era facilitada pela atração que a cultura francesa exercia
sobre as elites destas jovens nações. E utilizava um pouco desta
percepção para provocar: ''Como ainda somos velhos no Novo Mundo!'',
escreveu no prólogo americano que abre a publicação.
Na
viagem, ele começou a perceber que os grandes problemas urbanos
não poderiam jamais estar dissociados do entendimento das questões
fomentadas pela nascente ''civilização maquinista''. A viagem
teve passagens por cidades como Buenos Aires, Montevidéu, São
Paulo e Rio de Janeiro. E uma preocupação recorrente de Le Corbusier
era dar visibilidade a suas idéias além do restrito universo dos
''amigos dos amigos''. Fazer com que o Estado e as autoridades
de cada um destes lugares tomassem conhecimento de suas idéia,
certamente com o intuito de vê-las em execução. Tanto no Rio como
em São Paulo, Le Corbusier travou diálogos com importantes autoridades
locais.
Segundo
o urbanista Alfred Agache (autor do Plano de ocupação da esplanada
do Castelo no Rio de Janeiro), Le Corbusier era um homem que ''arrebenta
vidraças e cria correntes de ar''. E, na direção desses ventos
rumavam fileiras de seguidores. Era também um homem de visão aguçada,
que conseguiu antever em São Paulo, que visitou a convite do intelectual
Paulo Prado (um dos protagonistas da Semana de 22), os graves
problemas de circulação que a cidade enfrenta nos dias de hoje.
''Ao
desembarcar (...) em São Paulo e vendo na parede do gabinete
do Prefeito essa imagem de ruas emaranhadas, que algumas vezes
passam umas sobre as outras e medindo o imenso diâmetro da cidade,
pude declarar: ' Os senhores enfrentam uma crise de circulação,
não é possível fazer escoar rapidamente o trânsito numa cidade
que tem 45 quilômetros de diâmetro, cujas ruas mais parecem
dédalos e estão sempre entupidas'.''
No
Rio de Janeiro, ao tomar conhecimento da paisagem e da geografia,
Corbusier conferiu um rumo até então imprevisível para um cartesiano.
Concebeu um plano de ocupação urbana para o Rio de Janeiro que,
a um só tempo, contemplava o maior ícone da tão falada civilização
maquinista (o automóvel) como também incorpora ao seu traço todos
os acidentes geográficos tão característicos da Cidade Maravilhosa.
Projetou um grupo de auto-estradas a 100 metros acima do solo
e que contornaria todos os acidentes geográficos da cidade desde
o Pão de Açúcar até Niterói.
''Aqui,
urbanizar é o mesmo que pretender encher o tonel das Danaides!
Tudo seria absorvido por esta paisagem violenta e sublime. Ao
homem só resta inclinar-se e explorar hotéis de turismo. Rio?
É uma cidade de vilegiatura.''
Aqui
cabe retornar ao ensaio crítico de Martins que nos revela que,
nos desenhos para o Rio de Janeiro, Le Corbusier estava muito
mais interessado em oferecer à cidade um gesto estético da sua
potência criadora de composição urbanística ''contra e com a paisagem''
que fazer um estudo e uma análise mais aprofundada das ''tendências
de crescimento ou dos pontos de congestão da estrutura urbana
da cidade'' . Foi, portanto, um ''diagnóstico muito mais sensível
do que técnico'' que Corbusier elaborou nas suas duas semanas
em terras cariocas.
Le
Corbusier retornou, depois desta viagem em 1929, outras duas vezes
ao Brasil e o seu legado ainda é visível em construções paradigmáticas
da nossa arquitetura moderna, como nos Projetos de Affonso Eduardo
Reidy para o Pedregulho, em 1947, e os de Jorge Moreira para a
Cidade Universitária, em 1949, como também pela sua contribuição
direta na elaboração do Projeto do edifício do Ministério da Educação
e Saúde, em 1936.
Antônio
Agenor de Melo Barbosa é Doutorando em Arquitetura e mestre em
Urbanismo pela FAU-UFRJ e professor da UGF, UVA e UNIPLI
Resenha
publicada originalmente no Jornal do Brasil, Caderno
Idéias, 14 ago. 2004. |