| A
atualidade do pensamento de Cesare Brandi
resenha de claudia dos reis e cunha
A
preservação do patrimônio cultural em suas diversas formas e aspectos
vem ganhando cada vez mais espaço na sociedade ocidental contemporânea
(e também, embora de modo mais discreto, entre as culturas orientais),
seja atrelada ao turismo cultural patrocinado por grandes empresas
e incentivado por ações governamentais, seja na luta por igualdade
e democratização no acesso e fruição da cultura, como no caso
de grupos representativos de minorias étnicas ou sociais. Desde
a década de 1960 verifica-se ainda a ampliação do raio de alcance
das práticas patrimoniais, estendendo-se a um número cada vez
maior de países, que passam a ser signatários da Convenção do
Patrimônio Mundial e das recomendações internacionais para salvaguarda
de bens culturais.
Na
atualidade, preservar a memória tem sido mesmo uma obsessão. Muito
além dos meios acadêmicos ou técnicos, preservar o passado e seus
traços deixou de ser tarefa restrita de historiadores, arqueólogos,
arquitetos ou urbanistas; a memória não mais se restringe a objeto
de estudo de antropólogos, etnólogos, cientistas sociais ou ainda
psicólogos. Cada indivíduo faz-se historiador de si mesmo e do
grupo em que está inserido e os discursos relativos à preservação
do patrimônio – seja arquitetônico e urbanístico, ambiental
ou cultural, material ou imaterial – ganham a mídia e aparecem
cada vez mais intensos entre os mais distintos grupos.
Nesse
sentido, a problematização das questões relativas às motivações
para a conservação e usos atribuídos ao patrimônio na sociedade
contemporânea, tendo em vista o exponencial crescimento do que
se considera patrimônio cultural, sua extensão territorial e o
aumento de seu público em escala mundial, torna-se imprescindível.
Também se faz premente uma reflexão sobre as diferentes formas
de preservação da memória e ainda sobre o aparato teórico-conceitual,
bem como sobre as práticas de restauração empreendidas em favor
da manutenção dos suportes materiais dessas memórias.
A
recente tradução para língua portuguesa da Teoria da Restauração,
de Cesare Brandi, permitirá a um público mais amplo o aprofundamento
da reflexão sobre as questões relacionadas com a prática do restauro.
Para muitos que trabalham com preservação no Brasil esse importante
texto de teoria do restauro permanece desconhecido e, entre aqueles
que já o conhecem, tem sido inúmeras vezes classificado como pouco
aplicável na prática, restringindo-se a pura reflexão teórica
sobre problemas filosóficos ligados ao tema. Na realidade, o trabalho
de Brandi ao desenvolver sua Teoria, funda-se na necessidade
de excluir o empirismo dos processos de restauração das obras
de arte, garantindo, assim, que aquele imperativo moral de preservar
nossas relíquias para as gerações futuras seja levado a cabo a
contento.
Desde
os últimos anos do século XIX e início do século XX vinham sendo
empreendidas diversas tentativas com o intuito de disciplinar
e limitar as ações de restauração, tendo em vista que as más restaurações
estavam causando prejuízos maiores às obras de arte do que a própria
ação do tempo sobre elas. Preconizava-se a necessidade de tornar
o restauro um ato científico, que seguisse princípios e métodos
cientificamente determinados, respeitando os monumentos enquanto
documentos históricos, para os quais deveriam ser dispensados
cuidados de filólogo, tal como defendia Gustavo Giovannoni, cujas
idéias tiveram grande repercussão no entre-guerras europeu.
Entretanto,
com a maciça destruição das cidades européias durante a Segunda
Guerra e, conseqüentemente, a necessidade de reconstrução também
em larga escala, as teorias do restauro científico ou filológico,
defendidas por Giovannoni, foram postas em cheque. Não se podia
pensar nos monumentos destruídos apenas como documentos, ignorando
sua existência como obra figurativa com significação social e
simbólica. Em razão da grande escala das intervenções não se podia
cogitar o tratamento de lacunas como “neutros”. Assim,
esses questionamentos suscitaram o pensamento de que o restauro
era, para além de um ato científico de filólogo, também um ato
crítico (para um histórico sobre preservação e as transformações
das teorias do restauro, ver Giovanni Carbonara, Avvicinamento
al restauro. Teoria, storia, monumenti. Napoli, Liguori Editore,
1997).
Nesse
contexto, Cesare Brandi será figura de grande destaque. À frente
do Instituto Central de Restauração (ICR) de Roma, do qual foi
diretor por duas décadas, desde sua fundação, em 1939, até 1960,
coordena a restauração de inúmeras obras de arte destruídas nos
bombardeios e, paralelamente, desenvolve sua Teoria da Restauração,
em que delimita preceitos teóricos que servirão de embasamento
à prática do restaurador, aliando suas pesquisas teóricas nos
campos da estética e filosofia da arte com as práticas e experiências
desenvolvidas no âmbito do ICR.
Publicado
pela primeira vez em 1963, Brandi apresenta em seu texto o conceito
de restauro como “o momento metodológico do reconhecimento
da obra de arte, na sua consistência física e na sua dúplice polaridade
estética e histórica, com vistas à sua transmissão para o futuro”
(p. 30), isto é, condiciona o ato de restauração à compreensão
/ experimentação da obra de arte enquanto tal, o que resulta na
prevalência do estético sobre o histórico, na medida em que é
exatamente a condição de artística o que diferencia a obra de
arte de outros produtos da ação humana. Tal colocação refuta as
teorias precedentes que preconizavam a manutenção dos monumentos
apenas como documentos históricos, relegando a um segundo plano
sua imagem figurativa, embora não exclua a importância do valor
histórico, intrínseco a todo monumento.
De
seu conceito de restauro, Brandi extrai dois axiomas:
1º.
axioma: “restaura-se somente a matéria da obra de arte”
(p. 31), que se refere aos limites da intervenção restauradora,
levando em conta que a obra de arte, em sua acepção, é um ato
mental que se manifesta em imagem através da matéria e é sobre
esta matéria – que se degrada - que se intervém e não sobre
esse processo mental, no qual é impossível agir. Daí decorrem
as críticas às restaurações baseadas em suposições sobre o “estado
original” da obra, condenadas a serem meras recriações fantasiosas,
que deturpam a fruição da verdadeira obra de arte.
2º.
axioma: “A restauração deve visar ao restabelecimento da
unidade potencial da obra de arte, desde que isso seja possível
sem cometer um falso artístico ou um falso histórico, e sem cancelar
nenhum traço da passagem da obra de arte no tempo” (p. 33).
Ainda que se busque com a restauração a unidade potencial da obra
(conceito de todo distinto de unidade estilística), não
se deve com isso sacrificar a veracidade do monumento, seja através
de uma falsificação artística, seja de uma falsificação histórica.
Assim,
é o estado de conservação da obra de arte no momento da restauração
que irá condicionar e limitar a ação restauradora, a qual deverá,
sob o ponto de vista da instância histórica, “limitar-se
a desenvolver as sugestões implícitas nos próprios fragmentos
ou encontráveis em testemunhos autênticos do estado originário”
(p. 47). E em relação à instância estética, os limites da ação
do restaurador estão postos em função da matéria original da obra
e de sua definição mesmo como obra de arte, pois “a unidade
figurativa da obra de arte se dá concomitantemente com a intuição
da imagem como obra de arte” (p. 46).
O
que deve guiar a intervenção é, portanto, um juízo crítico de
valor, idéia presente já no pensamento do historiador da arte
vienense Alois Riegl (Le culte moderne des monuments. Son
essence et sa genèse. Paris, Seuil, 1984) e que aparece também
na Carta de Veneza (1964), complementada pela seguinte
ressalva: “O julgamento do valor dos elementos em causa
e a decisão quanto ao que pode ser eliminado não podem depender
somente do autor do projeto”. Daí a afirmação da restauração
como processo coletivo, que não pode depender do gosto ou do arbítrio
de um único indivíduo, antes deve ser sustentado por profundos
conhecimentos, seja do ponto de vista da técnica a ser empregada,
seja do ponto de vista humanístico, relacionado com o domínio
da história, estética e filosofia, sem os quais não se pode assegurar
a legitimidade das escolhas efetuadas nos procedimentos de restauro.
Brandi
define ainda como princípios para intervenção restauradora mais
dois aspectos fundamentais:
1º.
“a integração deverá ser sempre e facilmente reconhecível;
mas sem que por isto se venha a infringir a própria unidade
que se visa a reconstruir” (p. 47);
2º.
“que qualquer intervenção de restauro não torne impossível
mas, antes, facilite as eventuais intervenções futuras”
(p. 48).
Com
esses pontos, mantém-se, como já havia sido posto – desde
o século XIX – por Boito ou Giovannoni, a regra da reversibilidade
e distingüibilidade das intervenções contemporâneas nos monumentos
do passado, datando a restauração como fato histórico indissociável
do presente histórico que o produziu. Também no texto brandiano,
como nas recomendações da Carta de Veneza, fica clara a extensão
dos procedimentos de restauro para o ambiente ou entorno da obra
como forma de garantir sua adequada conservação física e também
sua leitura como obra de arte.
O
rigor de princípios é a marca da reflexão de Cesare Brandi em
sua Teoria, na qual fica patente que a restauração é um
ato crítico-cultural do presente e, portanto, condicionado pelos
valores do presente; valores esses que não podem menosprezar ou
se eximir à responsabilidade que o ato de restauro traz em si,
tanto para sua própria geração quanto para as seguintes. Nisso
consiste a atualidade do pensamento brandiano e o grande mérito
de sua tradução em língua portuguesa, a qual certamente aproximará
aqueles profissionais que atuam na conservação e restauração no
Brasil, tanto quanto os estudiosos e interessados do assunto,
da reflexão – fator imprescindível para uma atuação fundamentada
e responsável em um campo de conhecimento a cada momento mais
extenso e com princípios cada vez mais esgarçados.
Claudia
dos Reis e Cunha, arquiteta, especialista em História e Cultura
pela Universidade Metodista de Piracicaba - UNIMEP e mestranda
no programa de Pós-Graduação da FAU-USP, na linha de pesquisa
História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo
Resenha
desenvolvida como atividade de pesquisa do mestrado que vem sendo
desenvolvido junto à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
de São Paulo, que conta com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico – CNPq. |