| Razões
para o desenvolvimento restaurador
resenha
de cêça guimaraens
Em
razão das atividades dos sucessivos (e sempre novos) desenvolvimentos
– agrário, industrial e informacional –, os ambientes naturais
e artificiais enfrentaram situações de instabilidade e destruição
muitas vezes insuperáveis. Assim, para poucas nações, parece que
nada mais há a fazer porque tudo está pronto. Ao mesmo tempo,
em algumas geografias e para muitos povos, o mundo parece acabado:
nada há a fazer porque só existe terra arrasada. Entretanto, para
todos, não é surpreendente saber que a Restauração é o setor da
Economia que mais cresce.
O
cada vez mais fantástico valor econômico desta indústria emergente
(e das oportunidades de negócios que dela decorrem) confirma a
importância das atividades que se destinam a restaurar o mundo
construído e o meio ambiente do planeta. Atualmente, a hegemonia
preservacionista indica a nova frente de luta. E a voga da restauração,
até mesmo com a permanência do contexto em que novos desenvolvimentos
empreendem ações destrutivas, avança na proporção de três para
um.
Em
oposição ao quadro polêmico dos séculos XIX e XX – ou seja, às
épocas em que o “Desenvolvimento Continuado” encenou lutas inesquecíveis
e inglórias entre conservacionistas e desenvolvimentistas –, as
décadas finais do século passado consolidaram a longa fase de
transição em que a famosa máxima didroniana “Preservar é melhor
que renovar, renovar é melhor que restaurar, restaurar é melhor
que reconstruir” tornava-se cada vez mais útil.
Pouco
a pouco, “negócios e comunidades participativas em parcerias público-privadas”
transformaram-se em termos conciliáveis. Porém, desde 1839, o
volume 1 do Bulletin Archeologique registrava aquele jogo
de palavras com que, dedutivamente, A . N. Didron anunciava a
fase preservacionista conforme a conhecemos hoje. Entretanto,
nem os mais perspicazes analistas econômicos daqueles que foram
os séculos mais radicalmente progressistas, foram capazes de prever
o que Storm Cunningham (1) define de “conjunto de atividades criado
por milhares de ações que estão restaurando nosso ambiente natural
e construído”. Estas ações que o autor de The Restauration
Economy enquadra no Desenvolvimento Restaurador, hoje dominam
as preocupações dos cidadãos, dos setores governamentais e de
negócios, envolvendo tanto a reconstrução de cidades quanto a
ecologia de vastas áreas do nosso planeta.
A
profunda visão de que a escassez das matérias de qualquer natureza
e produtos de toda ordem foi gerada nas crises motivadas pelos
excessos do Progressismo não é original nem pertence exclusivamente
ao autor. O que é novo, segundo Cunningham, é o entendimento de
que Passado e Futuro são pares opostos que necessariamente se
integrarão não apenas porque os recursos da Terra são finitos,
mas porque a consciência da restauração adota uma ação massiva.
Para Cunningham, o Desenvolvimento Restaurador, ou o terceiro
modo de desenvolvimento da sociedade é, de fato, a verdadeira
“Terceira Onda” e configura o maior ciclo de crescimento econômico
desde a era da Revolução Industrial.
Dizendo-se
um conservador, o consultor norte-americano Storm Cunningham afirma
que, dentre as “indústrias da restauração”, apenas as que tratam
das ações de renovação da infra-estrutura e do patrimônio cultural
– onde se incluem a recuperação de cidades, zonas portuárias e
museus, a reabilitação de monumentos e de sítios históricos, além
da adaptação de uso de edifícios antigos –, podem estar a movimentar
muito mais de um trilhão de dólares por ano em todo o mundo.
O
livro de Cunningham estrutura-se em quatro partes para apresentar
um roteiro no qual os que formam a comunidade de restauradores
– sejam estes arquitetos, engenheiros, planejadores ligados a
governos e ONGs, empresários da indústria em geral e da construção
civil, incluindo o setor imobiliário em particular –, poderão
identificar e reconhecer quase todas as faces das produção de
bens e serviços levada a efeito pela Economia da Restauração.
A
primeira parte trata de configurar o quadro daquele passado onde
se definiu a fase de transição do novo desenvolvimento para o
desenvolvimento restaurador; a segunda e a terceira parte dedicam-se
a demonstrar, por meio de projetos executados, a produção restauradora
de ambientes natural e construído. Assemelhando-se a uma utopia
de americano otimista, a última parte do livro abrange a gestão
integradora onde está previsto que, até o ano de 2050, apesar
das atuais diferenças espetaculares entre as várias nações, a
natureza e os espaços elaborados pela humanidade resultarão da
economia restauradora. As atividades educacionais são de suma
importância neste utópico contexto econômico-restauracionista.
Para comprovar este ponto de vista, o autor comenta o aumento
dos cursos de pós-graduação em Restauração Ecológica nas universidades
européias e norte-americanas.
Cunningham
demonstra as formas de restaurar os ambientes natural e construído,
considerando que este último enquadra o chamado “patrimônio edificado”
e afirmando que, para restaurar, são necessários os mesmos agentes
que um novo empreendimento exigiria. Em decorrência, os questionáveis
projetos de Crescimento Orientado e do Novo Urbanismo, que vieram
à cena entre 1980 e 1990, também são registrados pelo autor. Além
desses planos “sustentáveis” (ou exceções modernas que buscam
comprovar a resistência ao Progressismo desenfreado), estão colocadas
lado a lado a história das utópicas cidades-jardim e os relatos
das ações de algas e fungos que, em todas as fases da vida terrestre,
vêm formando relações de causa-e-efeito comunitárias e restauradoras.
Ao
exemplificar o custo das atividades que incrementam a Economia
da Restauração, Cunningham cita a renovação e reconstrução do
Pentágono. Esta obra, planejada antes mesmo da ação terrorista
de 11 de setembro, foi orçada em 3 bilhões de dólares. Os atentados
de 11 de setembro são novamente referidos depois que o autor apresenta
os pontos positivos e negativos do perene revival de Lisboa
e dos contínuos desastres ecológicos de Portugal.
Para
Cunningham, se o Marquês de Pombal teve que lutar para salvar
os edifícios históricos de Lisboa após os terremotos que a assolaram
em meados do século XVIII, a forma como, hoje, a Economia da Restauração
transforma o mundo está melhor expressa em Nova York. Convidando
o leitor a imaginar como seria a reconstrução da parte baixa de
Manhattan se o desastre de 11 de setembro tivesse ocorrido em
1970, quando o urban renewal atingiu o pico, Cunningham
diz que uma coalizão de organizações do setor privado é responsável
pela reconstrução da área danificada que inclui 67 marcos paisagísticos
da City.
A
evolução da visão preservacionista nas três últimas décadas, diz,
permitiu a constituição das cinco associações de restauradores
do Patrimônio que atualmente estão encarregadas de reconstruir
Lower Manhattan, a saber: a National Trust for Historic Preservation,
World Monuments Fund, Preservation League of New York State, New
York Landsmarks Preservancy e Municipal Arts Society.
Para
incentivar a importância e a ampliação do campo restaurador, e
também advogando a troca do nome do Banco Mundial para Banco da
Restauração Mundial, Cunningham reflete sobre a confusão provocada
pelas alterações de sentido e uso impensado das expressões e vocábulos
constituintes do linguajar preservacionista. Para tanto, destaca,
no capítulo 4 da parte 1, a discussão provocada pelo estabelecimento
da linguagem e pela apropriação de vocábulos próprios ao campo
disciplinar.
Os
registros dos fatos instauradores da economia da restauração,
hoje deflagrada em âmbito global, iniciam-se após a Segunda Guerra
Mundial. Na Europa devastada pelo poderio aéreo ocorreram a diversificação
e o estupendo crescimento dos negócios restauradores. Porém, a
terminologia, a definição de situações concretas que conformam
a degradação e os resultados da restauração dos ambientes natural
e construído, junto com os conceitos de “desenvolvimento sustentável”
e “conservação”, recebem hoje mais atenção da mídia em geral do
que os novos empreendimentos.
Embora,
na atualidade, os estágios econômicos das cidades, estados e países
mantenham-se diferentes no que diz respeito à de justiça social,
a revitalização e o equilíbrio socioeconômico dependem, mais que
nunca, de atos restauradores. Estes, para Cunnigham, acontecem,
necessariamente, antes da tão apregoada “sustentabilidade”. Entre
outras assertivas desconcertantes e óbvias, este é o modo pelo
qual o livro The Restauration Economy pretende reconfigurar
os negócios, as comunidades de preservacionistas, e o ambiente
humano no século XXI.
Pretensão
do autor ou realidade em “franco progresso” até agora pouco documentada?
Nota
1
S. Cunningham é editor de Restoration Economy Leader, revista
trimestral dedicada a promover e integrar a comunidade de pesquisadores
do Desenvolvimento Restaurador e os agentes da Economia da Restauração.
Cêça
Guimaraens é arquiteta, Professora Visitante da New York University,
Professora-Adjunta do ProArq/FAU-UFRJ e doutora em Planejamento
Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ) |