| Balanço
da arquitetura moderna no século XX
resenha de luis
espallargas gimenez
As obras de
história mais conhecidas que compilaram arquitetura moderna
para divulgá-la, ensiná-la, explicá-la e,
principalmente, com as quais se procurou legitimar a arquitetura
moderna, são hoje, elas mesmas, material de estudo e reflexão:
textos datados onde se pode desvelar diferentes idéias
de arquitetura moderna e diversas matrizes interpretativas desta
produção, que digam respeito ao papel da arquitetura,
a sua genealogia e encadeamento, a seus personagens e obras e
a suas questões com a sociedade, arte, técnica,
materiais e indústria. Nikolaus Pevsner (Pioneers of
the Modern Movement, 1936); Leonardo Benevolo (Storia dell’architettura
moderna, 1960); Sigfried Gideon (Space, Time and Architecture,
1941); Henry Russel Hitchcock (Architecture, Nineteenth and
Twentieth Centuries, 1958) e Bruno Zevi (Storia dell‘architettura
Moderna, 1950) são os principais autores deste primeiro
conjunto de textos focados no fenômeno da arquitetura moderna.
Estas obras têm em comum um forte compromisso com a causa
moderna e após décadas de suas publicações,
tornaram-se anacrônicas, já que a historiografia
e a crítica introduziram novas informações,
produziram novas interpretações, além de
sua surpreendente componente ideológica ter sido alvo favorito
de contestação por parte de todas avaliações
posteriores.
Algumas décadas
depois, Manfredo Tafuri e Francesco Dal Co (Modern Architecture,
1979) e Kenneth Frampton (Modern Architecture a Critical History,
1980) propõem novas e conhecidas interpretações
da arquitetura moderna a partir dos correspondentes esquemas:
"projeto histórico" e "regionalismo
crítico", textos inscritos na fase pós-moderna
do século. Nesses mesmos anos (1982), não por acaso,
William J. R. Curtis lança a primeira edição
de sua história estimulado e animado também pela
mesma exigência difundida nestes anos em favor de uma nova
história revisada e ampliada. Em sua primeira introdução
podemos ler:
"I
thought it would be a good thing to strip away myths and to
present the complex picture of modern architecture as simply
and honestly as possible."
Surge um novo
grupo de autores animados para escrever a história definitiva,
livre de dogmas, que reintegrasse arquitetos banidos pela indiferença
ou pela oposição à Causa, que incorporasse
novos documentos e notáveis ensaios parciais e que, finalmente,
por intermédio de tão pragmáticos quanto
relativistas esquemas de análise alargasse a história
até a diversidade de nossos dias. No caso de William J.
R. Curtis algumas particularidades, até raras neste tipo
de publicações, fazem claras outras intenções.
Com uma terceira edição (1996) profundamente revisada
onde se introduzem nada menos que sete novos capítulos,
está se preparando um livro apto a dar conta da história
da arquitetura do século XX.
Mas apesar
da visão panorâmica que uma história geral
e um século de atividades sugeririam, o texto parece usar,
conforme cada capítulo, diferentes lentes de aproximação
sobre as obras para nelas deter-se, sobre objetos privilegiados
e obrigatórios da interpretação, dando assim
consistência e detalhes a suas considerações.
A hipótese
de que as condições previstas pelos pioneiros apenas
estariam se dando oitenta anos depois e que portanto não
estaríamos diante do encerramento de uma etapa moderna
mas na verdade diante do possível início de uma
nova tradição, surge mais de uma fantasia voluntariosa
ou do imperativo em anotar provocativos aforismos e menos das
condições históricas que se apresentam.
Independentemente
das utopias de William J. R. Curtis, desnecessárias ao
cumprimento de um manual histórico, há efetivamente,
no livro, uma história completa e satisfatoriamente aprofundada
dos principais eventos da arquitetura do século XX, que
vão desde os fenômenos sociais, científicos,
urbanos e produtivos sem precedentes no final do século
XIX até a citação do recentemente inaugurado
Museu Guggenheim de Frank Gehry em Bilbao, projeto já apontado
por alguns especuladores como o último grande espetáculo
arquitetônico do século XX, que seguramente terá
suas imagens impressas, com destaque, numa próxima edição
secular e ampliada.
Os capítulos
do livro evidenciam seu modelo de organização e
apresentação. Países e artistas concentram
e dirigem um script de índole regionalista na narração
dos episódios apresentados ainda segundo uma cronologia
geral que permita algum nexo histórico. É assim
possível, abrindo-se mão da coesão e da universalidade
do movimento moderno, falar de uma arquitetura moderna relativizada
e construída segundo as visões não exatamente
congruentes de seus principais e insubstituíveis protagonistas
e também composta de consistentes e irreprodutíveis
experiências locais que mesmo congregadas num fenômeno
mundial, entendem-se melhor dentro de suas características
particulares e muitas vezes nacionais.
Luis Espallargas
Gimenez, arquiteto, é professor da Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica
de Campinas |