| David
Libeskind e a arquitetura residencial em São Paulo
resenha de abilio
guerra
Nos
anos recentes temos presenciado a ampliação dos levantamentos
sistemáticos da arquitetura moderna nos mais diversos Estados
brasileiros. Durante várias décadas os estudos eram escassos e
quase todos eles dedicados aos protagonistas principais da Arquitetura
Moderna Brasileira, termo que se aplicava de forma generalizante
a toda uma geração de arquitetos, mas que era exemplificada quase
que exclusivamente pelas obras de alguns poucos profissionais
agrupados em torno de Lucio Costa, com algumas honrosas exceções.
Os levantamentos realizados colocaram na geografia cultural do
moderno arquitetônico brasileiro diversos outros Estados, ampliando
assim o número de protagonistas e de obras. Esse processo, mesmo
levando em conta o exagero motivado por falta de critérios, têm
sido muito salutar, pois trouxe à tona uma complexidade e diversidade
muito maior do que a coerência anterior supunha e defendia.
No
caso de São Paulo, os levantamentos sistemáticos da última década
resultaram em monografias, dissertações e teses de boa qualidade
e que vem melhorando gradativamente graças à sedimentação de cada
conquista. Uma qualidade que muitas vezes fica restrita ao próprio
levantamento, mas que não pode ser desconsiderada por argumentos
que apontam a ausência de solidez crítica, pois o primeiro passo
a ser dado é justamente de recortar e documentar com critério
as obras a serem estudadas. De resto, tais obras acabaram, por
um processo de depuração, desencadeando um processo de produção
editorial ainda incipiente mas muito importante, com a publicação
de livros sobre Vilanova Artigas, Rino Levi, Oswaldo Bratke, Lina
Bo Bardi, Paulo Mendes da Rocha, Joaquim Guedes, Grupo Arquitetura
Nova, Walter Toscano e outros. O caráter monográfico destas edições
confirma o estado ainda inicial dos estudos, mas atesta a maturação
de um processo de mais de uma década, que vem ocorrendo dentro
dos muros das Universidades.
Os
livros são apenas a ponta do iceberg. Os custos quase proibitivos
de um livro no Brasil cerceiam a possibilidade da maior parte
desta produção chegar às prateleiras das livrarias. Não é de se
estranhar, portanto, a crescente importância e atenção que a ONG
internacional Docomomo – International working party for Documentation
and Conservation of buildings, sites and neighbourhoods of the
Modern Moviment – tem merecido em diversas regiões do país
e, em especial, no Estado de São Paulo. Na ausência de fóruns
mais tradicionais que dessem conta do escoamento à produção em
curso e a impossibilidade econômica (e também institucional) de
publicações mais constantes, permitiram que os seminários e encontros
do Docomomo ocupassem um lugar estratégico na comunicação pública
de trabalhos desenvolvidos por pesquisadores de diversas escolas.
A
coincidência entre a defesa da dissertação de mestrado de Luciana
Tombi Brasil, que versa sobre a obra de David Libeskind, e o I
Seminário São Paulo Docomomo Brasil, ocorrido em São Paulo entre
22 e 25 de setembro, não é apenas de datas, mas também de assunto.
O evento tematiza “A modernidade paulistana” e homenageia ao longo
dos dias os arquitetos Gregori Warchavchik, Eduardo Kneese de
Mello e Ernest Robert de Carvalho Mange e a paisagista Mina Klabin,
todos eles, com exceção do primeiro, à espera de livros monográficos
sobre suas obras. Assim como eles, continuam esperando o seu livro
arquitetos da estirpe de Franz Heep, Ícaro de Castro Mello, Giancarlo
Palante, Henrique Mindlin, Lucjan Korngold, Abrãao Sanovicz, Eduardo
de Almeida, Salvador Candia e muitos outros. São brasileiros de
diversos Estados e estrangeiros de diversos países que aportaram
em São Paulo para construir suas obras. Ao selecionar a obra de
David Libeskind como assunto de sua dissertação de mestrado, Luciana
Tombi Brasil participa desse esforço coletivo com a grata surpresa
de trazer para a cena uma obra importante, do autor de um dos
principais edifícios de São Paulo – o Conjunto Nacional, na Avenida
Paulista.
A
primeira aproximação a se fazer ao trabalho de Luciana Tombi Brasil
é entender sua pesquisa dentro deste contexto da pesquisa universitária
e de sua conexão com a difusão em eventos e publicações. Quando
folheamos o pequeno volume de capa branca, a primeira constatação
é a de sua primorosa edição, com projeto gráfico agradável, diagramação
cuidadosa, fotos e desenhos muito bem impressos. Evidentemente,
as facilidades editorias disponibilizadas hoje pela informática
não só facilitam como na verdade tornam possíveis – tanto do ponto
de vista técnico como financeiro – trabalhos com tal requinte,
mas o que é fundamental, em nosso ponto de vista, é que muito
desse apuro se deve ao grau de exigência incutido no meio acadêmico,
fruto das conquistas estabelecidas e estabilizadas pelo conjunto
de pesquisas anteriores. Hoje se tornou quase uma exigência o
redesenho em Autocad das plantas e cortes dos projetos estudados,
publicados em escalas conhecidas, portanto passíveis a observações
mais acuradas. Também há um consenso sobre a importância da documentação
como alicerce de uma tese (ou, em outras palavras, o compromisso
que cada dissertação ou tese tem com a produção científica como
um todo), o que implica em um esforço por uma maior horizontalidade
do levantamento de obras, com uma grande abrangência, que ultrapassa
em muito o recorte específico da hipótese central do trabalho
individual. Não se quer aqui, em absoluto, diminuir uma vírgula
sequer a enorme qualidade do realizado pela autora, mas destacar
o quanto um trabalho acadêmico só faz sentido dentro de uma estrutura
organizada, que conta com regras institucionais evidentes e valores
culturais como pano de fundo.
Se
o trabalho é muito bem resolvido em sua formatação, vale mencionar
alguns problemas pontuais, que podem ser corrigidos em uma eventual
publicação (ou quem sabe com uma errata, para os volumes
que ficarão disponíveis na biblioteca). Falta, por exemplo, uma
listagem de fonte e autoria das imagens (o livro Rino Levi
– arquitetura e cidade, por exemplo, não consta da bibliografia,
mas é fonte de imagens). Faltam igualmente algumas notas de rodapé,
dando as merecidas autorias para as fontes intelectuais, como
é o caso de algumas passagens sobre Oswaldo Bratke, que vêm quase
que literalmente do livro de Hugo Segawa, sem que isso esteja
devidamente registrado. Ainda sobre as notas, é de se notar a
mudança brusca, no meio da dissertação, do sistema adotado. Mesmo
levando em conta que algumas informações não são essenciais para
o desenvolvimento dos argumentos, algumas informações do interesse
de um estudioso, como é o caso dos nomes dos demais participantes
do Concurso para o Conjunto Nacional, também poderiam constar
de notas, o que só enriqueceria ainda mais o trabalho.
Sobre
o item “documentação” vale a pena tecer mais alguns comentários.
Por um lado, a preocupação em elucidar as decisões de projeto
em um contexto mais geral, levou a autora a fazer um acompanhamento
da trajetória do arquiteto paranaense, que completa sua formação
acadêmica e intelectual em Belo Horizonte, com uma grande influência
das artes plásticas, iluminada pela presença especial do pintor
Guignard. Um segundo item do levantamento é a enumeração de todas
as obras de Libeskind, construídas ou não, seguido pela iconografia,
com a apresentação de uma grande quantidade de fotos, desenhos,
pinturas e outras peças gráficas do arquiteto. O quarto item é
o redesenho em AutoCAD, o que não é propriamente um levantamento
de fonte primária, mas que tem se mostrado um excelente instrumento
de se registrar a obra de arquitetura. Por si só esta parte do
trabalho transforma a dissertação de Luciana Tombi Brasil em uma
obra obrigatória de referência, o que lhe dá, já de início, o
estatuto de obra qualificada.
Uma
qualificação que vai muito além, garantida pela escrita fluente
e elegante, que torna a leitura da tese em momentos muito agradáveis.
A disposição do material e dos argumentos ao longo dos capítulos,
as descrições e comentários, etc., são aspectos distintos que
apontam para um talento inato para a pesquisa e para a escrita,
como também para uma silenciosa mas visível presença do orientador.
Contudo, uma questão é fundamental quando estamos avaliando um
trabalho acadêmico: este precisa ser considerado a partir dos
seus próprios pressupostos e de suas próprias intenções. Mas também
é necessário avaliar o quanto tais pressupostos e intenções do
autor se sustentam e quais são as eventuais limitações. Luciana
Tombi Brasil diz que pretende estudar “a coerência em cada obra,
e não sua originalidade” (p. 147). Ao alinhar 12 residências
projetadas e construídas por David Libeskind, a autora defende
que “esta organização tem como proposta fortalecer a idéia de
que existe uma linguagem presente no conjunto de sua obra, por
se tratarem de temas recorrentes em vários momentos da produção
para habitação unifamiliar do arquiteto” (p. 252).
Luciana
Tombi Brasil tem, portanto, como premissa a busca de uma constante
na obra do arquiteto estudado, uma espécie de busca de permanências
que conformariam a “arquitetura de David Libeskind”. Tais constantes
ou permanências, que se repetiriam ao longo da obra e ao longo
dos anos, seriam conceitos ou recursos de projeto, como a autonomia
volumétrica; o espaço fluído (unicidade e continuidade espacial);
o plano transparente em contrastes com a opacidade dominante;
os jardins especializados para quartos, áreas sociais e de serviço;
a estrutura recompondo o prisma extrudido. A autora prioriza as
permanências e dentre os vários aspectos passíveis de análise
arquitetônica – materiais, tipológicos, estruturais, etc. – há
uma clara predileção pelo agenciamento programático, que é hegemônico
nas descrições de cada residência. A predileção se confirma no
último capítulo, dedicado à análise das residências, pois dentre
as 4 categorias dos diagramas de análise comparativa – setorização
de usos; organização geométrica e sistema de distribuição; espaços
de transição; e planos verticais e horizontais – os 3 primeiros
focam o agenciamento programático. Escolha que acarreta, em nosso
entendimento, alguns problemas, como é o caso da negligência com
que é tratado o uso dos materiais por parte do arquiteto. Intuímos
que estamos diante de um elemento muito importante no raciocínio
de David Libeskind e que foi injustamente rebaixado à uma posição
secundária. Talvez haja aqui conexões inexploradas com outros
arquitetos (quem sabe Frank Lloyd Wright...); talvez esteja aqui
uma possível relação entre os trabalhos de pintor e arquiteto,
que não é desenvolvida (e até ficamos em dúvida sobre a definitiva
opinião da autora sobre isso, uma vez que no início ela afirma
serem trabalhos autônomos, para no final pressentir uma possível
conexão).
A
série de 12 residências unifamiliares conta com projetos de várias
décadas, com a seguinte divisão: 8 casas da década de 50; 2 casas
da década de 60; 1 casa da década de 70; e 1 casa da década de
80. Como há uma manifesta opção por uma análise estrutural (imanente),
o que é realçado após a leitura da descrição e análise comparativa
é o quanto tais projetos se filiam a um mesmo tipo de raciocínio.
O que, na nossa opinião, não é confirmado pelos projetos, principalmente
ao olharmos para as fotos das residências construídas. A residência
Ângelo Aurélio Rezende Lobo, construída em Belo Horizonte, em
1952, quando o arquiteto ainda era estudante, mostra uma casa
interessante, mas totalmente tributária dos elementos formais
da arquitetura de Oscar Niemeyer e Affonso Reidy. Primeira casa
da série, ela traz alguns elementos que podem ser verificados
nos futuros projetos construídos em São Paulo, mas eles seguramente
são de menor importância, diante das decisões de compromisso que
conferem a visibilidade do projeto. Do último projeto da série,
residência Ulisses Silva, de 1983, um projeto cheio de incongruências
formais e apelos fáceis do repertório acomodado, preferimos nem
tecer comentários mais alongados, a não ser que não deveria constar
da série, pois cria um anticlímax indesejável, colocando sob suspeição
a qualidade geral de sua obra.
Mas
vale a pena alguns comentários sobre as duas outras casas tardias,
a última dos anos 60 e a única da década de 70. Nestas seguramente
a proximidade com a obra de Oswaldo Bratke, mencionada pela autora,
é mais evidente do que nas demais casas. Há nestes projetos uma
legibilidade instantânea, ou seja, a partir da visibilidade de
algum aspecto da casa, intuímos rapidamente a sua totalidade,
pois ocorre uma propagação de seus princípios, principalmente
da geometria regular e sintética. Na verdade, a casa 10 – residência
Aron Birmann, 1969 – podemos observa um ponto de inflexão em relação
à obra anterior, pois o sistema estrutural, sempre subtraído da
percepção nas casas anteriores, surge de forma ostensiva. A estrutura,
recalcada fortemente nos 8 projetos restantes, surge agora como
protagonista, presente no vigamento ritmado na fachada principal,
marcando de forma clara a matriz geométrica que organiza o projeto.
Tais distinções, que conferem à primeira casa da série no máximo
o estatuto de “precursora” e retira as 3 últimas por inadequação,
conformam um recorte mais estreito de um quadro de permanências,
com praticamente todas as casas situadas na década de 50 (a última
delas, a própria casa do arquiteto, é de 1961). Ou seja, a homogeneidade
procurada parece ser muito mais restrita no tempo do que supunha
a autora, problema que parece apontar para um limite do método
ou quem sabe da manipulação inadequada do método pela autora,
dúvida que não nos consideramos aptos a responder neste momento.
Gostaríamos
também de ressaltar que nos capítulos iniciais do trabalho são
mostradas as conexões culturais do arquiteto estudado (sua proximidade
com a pintura, a amizade e trabalho com diversos arquitetos, sua
imersão nos ambientes culturais das capitais mineira e paulista,
etc.). São informações muito importantes, que conformam um quadro
de referências que explica diversas predileções e escolhas do
arquiteto David Libeskind. Mesmo ao longo dos capítulos nos deparamos
com diversas referências projetuais (arquitetura carioca, Case
Study de John Entenza, Le Corbusier, a casa Schoroeder e o neoplasticismo
holandês, as casas modernas premiadas e expostas nas Bienais de
São Paulo, etc.). Quase todas elas são referências episódicas
e rápidas, com exceção do Case Study e das casas expostas na Bienal.
Curioso notar que a presença de tais referências são um tanto
contraditórias com a escolha de um método analítico que prioriza
as relações imanentes às obras, mas elas funcionam muito bem para
elucidar diversos aspectos da obra de Libeskind. Os limites evidentes
do método adotado (ou da utilização do mesmo) não são fortes o
suficiente para desmerecer o trabalho como um todo, pois contradições
deste tipo são normais em trabalhos da juventude intelectual e
a os prós já ressaltados são muitos e qualificados.
Ao
olharmos para a obra de David Libeskind constatamos que estamos
diante de um arquiteto de sedimentação e não de invenção. Se usarmos
a comparação tradicional entre a invenção de Leonardo da Vinci
e a síntese de Rafael, certamente estaremos diante de um “Rafael”.
Libeskind é um arquiteto que sintetiza elementos desenvolvidos
em vários contextos culturais – é possível observar elementos
vazados típicos da arquitetura carioca, os planos deslizantes
do neoplasticismo, os pátios a la Rino Levi e Daniele Calabi,
etc. –, o que não é nenhum demérito, pois a maioria absoluta dos
melhores artistas fazem o mesmo. Mesmo que análise estrutural
e imanente de Luciana Brasil deixe escapar esse dado (afinal,
ao permanecer dentro da própria obra é impossível se estabelecer
um quadro comparativo mais largo), a própria construção da dissertação
– que, como já mencionamos, mantém algum desacordo com o método
– acaba nos apresentando este arquiteto, que a partir de formas
e elementos já desenvolvidos, constrói uma obra particular e muito
qualificada.
Resenha
baseada na argüição pronunciada na banca de mestrado de Luciana
Tombi Brasil, ocorrida na FAU-USP, São Paulo, no dia 24 de setembro
de 2004.
Abilio
Guerra, arquiteto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da Pontifícia Universidade Católica de Campinas
e do Unicentro Belas Artes, é editor do Portal Vitruvius |