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Niemeyer e Artigas: sobrevivências da tradição
clássica
resenha de abilio
guerra
Na
segunda metade da década de 70 do século passado, um filme com
nome curioso tornou-se cult entre os cinéfilos brasileiros.
Jonas que terá 25 anos no ano 2000 – eis o nome do filme!
– trazia como diretor o hoje quase esquecido suíço Alain Tanner
e tinha como protagonistas da história os participantes das manifestações
estudantis e operárias de maio de 1968 em Paris. Quase uma década
mais velhos, defrontam-se com o fracasso cultural das idéias que
defendiam. A sociedade mais fraterna, fundada nas bandeiras da
“paz e amor”, já não passava de um esboço desbotado diante do
arrefecimento da Guerra Fria na cena política internacional e
do modus vivendi pequeno-burguês hegemônico na cena doméstica.
Os personagens desencantados suportam a realidade cada um a sua
maneira, com evasões diversas ou novos engajamentos que negam
os princípios anteriormente defendidos. Temos a hippie
que fuma marijuana embalada por música oriental, o inconformado
que se bandeia para a luta armada, a moça bonita que casa e se
aninha no conforto doméstico...
Um
dos personagens tornou-se professor de história de uma escola
de primeiro ou segundo grau e protagoniza uma das cenas mais marcantes
do filme. Em uma espécie de happening – performance com
pretensões artísticas tão em voga naqueles anos – o professor
entra em sala de aula e coloca sobre sua mesa uma tábua de carne,
um enorme machado de açougueiro e uma lingüiça cumprida, sem gomos.
Com gestos dramáticos, coloca o embutido sobre a tábua e diz para
os alunos atônitos: “– A lingüiça é a história e o açougueiro
é o historiador”, e, em ato contínuo, começa a segmentar, com
golpes precisos de machado, a peça estendida e inerte. Não sei
ao certo o quanto desta sinopse e desta cena específica fazem
parte realmente do filme e qual a contribuição da elaboração da
minha memória fantasiosa, afinal são quase três décadas que nos
separam da projeção que assisti no ano de 1975.
Contudo,
o filme e a cena explodiram espontaneamente na minha cabeça bem
no meio da leitura da dissertação de mestrado de Ana Paula Pontes.
Estamos diante destes mecanismos de associação anímica, sempre
fora de controle, mas muitas vezes surpreendentes por sua carga
de sentido e significados profundos. Compreendi que, assim como
o filme, o texto de Ana Paula tinha como temática essencial a
complicada relação entre a história vivida e a percepção que temos
dela. Se aos nossos olhos são flagrantes as mudanças trazidas
pelo tempo quando olhamos a história em perspectiva, muitas delas
tão rápidas e numerosas que pensamos imediatamente em uma ruptura,
por outro lado não há como negar a constatação racional da existência
de múltiplas conexões entre um determinado fato histórico e eventos
antecedentes. Um problema historiográfico, portanto, que tem incomodado
os historiadores ao longo do tempo, para o qual buscam métodos
que anulem ou ao menos minimizem os problemas decorrentes. Um
problema que afeta diretamente as periodizações – os cortes abruptos
na “lingüiça” contínua da história, como nos parece dizer metaforicamente
o historiador performático do filme de Alain Tanner. Mas também
um problema que diz respeito à própria possibilidade de se compreender
e se falar com propriedade sobre a história, tarefa que pressupõe,
em última instância, compreender as mudanças ocorridas ao longo
do tempo.
Não
é um incômodo particular do historiador, mas uma pedra no sapato
de estudiosos não só das ciências humanas, mas das ciências em
geral. A grande contribuição de Charles Darwin, por exemplo, foi
a de conseguir formular uma hipótese para a evolução das espécies
que articulasse de forma coerente as imensas transformações de
indivíduos da mesma espécie quando separados por largo espaço
de tempo e a grande proximidade existente entre um ser vivo e
sua ascendência e descendência imediatas. A Teoria da Evolução
darwinista – a mais antiga ainda aceita pela comunidade científica
– consegue articular de forma satisfatória a continuidade e a
ruptura com um par de conceitos: a hereditariedade, que
garante a transmissão dos caracteres; e a seleção natural,
que pressupõe a sobrevivência do mais apto na luta perpétua dentro
do quadro geral da natureza. Para que a dupla conceitual funcione,
Darwin introduz um diferencial fundamental em relação às idéias
de Lamarck que o antecede e a quem deve tributos inegáveis: as
mudanças genéticas não são diretamente produzidas pelo embate
com o meio natural (visão mecanicista vinculada às teorias científicas
do século XVII), mas frutos de uma propensão pela variedade própria
da vida orgânica. Nesse sentido, as diferenças são produzidas
continuamente pelos mecanismos de reprodução orgânica e apenas
as mais adaptadas ao meio natural (que muda continuamente) sobrevivem
e, através da hereditariedade, são transmitidas para a descendência.
A teoria darwinista consegue assim fazer com que as duas visadas
possíveis sobre a história da natureza – a panorâmica,
que vê fundamentalmente as transformações e rupturas; e a focada,
que enxerga a perpetuação do parentesco – participem, sem contradições,
da mesma narrativa. O impressionante avanço da genética nos últimos
anos só vieram confirmar a intuição genial de Charles Darwin,
que prognosticou com grande grau de acerto a codificação genética
nos seres vivos.
Não
há aqui nenhuma pretensão em se fazer uma transposição mecânica
de uma teoria de dois séculos atrás, mas nos interessa apresentar
com clareza a questão fundamental que estamos nos defrontando,
suas implicações na historiografia, os riscos e as possibilidades
que dela derivam. De Darwin podemos pedir emprestado, mesmo que
de forma metafórica, a introdução do acaso no entendimento
da vida (no caso dele, orgânica, no nosso caso, cultural).
Contudo, a admissão do acaso não significa, no caso do naturalista
inglês, na negação da transmissão direta – a hereditariedade
–, que continua a dar inteligibilidade ao parentesco, à filiação,
à prole, etc. Em nosso caso, interessados na história da cultura,
as questões em jogo mantêm grande analogia com as presentes nas
hipóteses darwinistas, pois também precisamos compreender as grandes
transformações dentro do quadro da estabilidade, como também precisamos
acatar a presença do acaso, mas sempre levando em conta as conexões
imediatas dos fenômenos.
Diálogos
silenciosos entre a tradição clássica e o moderno
O
título do trabalho de Ana Paul Pontes é muito sugestivo e muito
feliz. “Diálogos silenciosos: arquitetura moderna brasileira e
tradição clássica” aponta para uma conexão sutil entre fenômenos
históricos aparentemente apartados por uma incompatibilidade estrutural
entre visões de mundo. A autora, ao relatar durante o seu trabalho
a presença de diversos princípios e procedimentos neoclássicos
no raciocínio dos arquitetos modernos Oscar Niemeyer e Vilanova
Artigas, não se atribui um papel de desbravadora de uma nova senda.
Ao contrário, apóia suas hipóteses com demonstrações de outros
estudiosos que a antecederam, como é o caso de Edson Mahfuz, Carlos
Eduardo Comas, Roberto Conduru, João Masao Kamita e outros. Não
por coincidência, temos aqui pesquisadores do Rio de Janeiro e
Rio Grande do Sul, pólos que têm uma produção recente voltada
para a revisão crítica da historiografia hegemônica até há pouco
tempo no Brasil, que via no Moderno uma ruptura imensa com o Ecletismo
reinante no período anterior. Entendo que, mesmo diante de alguns
exageros e muitas hipóteses a serem ainda comprovadas por estudos
mais sistemáticos, tais trabalhos colocaram o bom senso novamente
em pauta, trazendo para o primeiro plano as óbvias relações do
moderno brasileiro com o período imediatamente anterior, em especial
com a tradição clássica importada por D. João VI e que tem na
Escola de Belas Artes sua principal fonte difusora. Ou seja, os
diálogos já não são mais silenciosos no que diz respeito à sua
presença na historiografia e na crítica recentes.
O
silêncio presente no título da dissertação de Ana Paula Pontes
obviamente diz respeito aos mecanismos de ocultação (conscientes
e inconscientes) presentes no discurso moderno inicial, principalmente
no de Lucio Costa, e que foram repetidos ad nauseum, por
várias décadas, até se transformarem em lugares-comuns. O constructo
artificial de Lucio Costa, que supõe um vínculo “espiritual”
da Arquitetura Moderna Brasileira com a tradição construtiva colonial,
soterrava possíveis conexões com o passado neoclássico imediatamente
anterior, conexões de resto trazidas à luz pelos diversos autores
já citados. Mas para além das diversas implicações imediatas decorrentes
do compromisso ideológico de Lucio Costa, o que me parece extremamente
importante é apontar a brutal diferença entre o ambiente cultural
de irradiação do moderno (a Europa Ocidental) e o ambiente local
de chegada (o sudeste brasileiro), que abrigava em sua agenda
questões exóticas para o ponto de vista europeu, como é o caso
da identidade nacional.
Entendo
que a hipótese de que a escolha de Lucio Costa pela linguagem
moderna de Le Corbusier se deu pela identidade de ambos na busca
de uma “expressão da identidade local” [hipótese de Comas, assumido
pela autora, p. 53], é aceitável, mas insuficiente, pois negligencia
fortes conexões da visão cultural de nosso mestre maior com as
discussões culturais em curso no modernismo brasileiro e que envolviam
matrizes intelectuais diversas, como o romantismo, o positivismo
e até mesmo um darwinismo difuso. Vários desses pressupostos,
presentes no ambiente cultural brasileiro e, por decorrência,
nas proposições de Lúcio Costa, também habitavam a visão de mundo
de Le Corbusier, o justifica de forma ainda mais segura e comprovada
os motivos da escolha. O liame espiritual de Oscar Niemeyer com
Aleijadinho, defendido por Lúcio Costa, é praticamente inexplicável
sem levar em conta tais relações.
Mas
não é correto cobrar da autora da dissertação o que ela não se
propunha a fazer. Apenas cito isso pelo simples fato de que a
suposição de uma identidade intelectual entre Lucio Costa e Le
Corbusier, acaba por recalcar as diferenças brutais dos ambientes
culturais de saída e chegada, o que equivaleria – se suportarmos
ainda mais um pouco a metáfora darwinista – em desconsiderar o
novo habitat na compreensão da evolução específica de um
animal levado por alguma fatalidade para um outro território.
Estamos aqui, talvez, diante do maior problema do trabalho de
Ana Paula Pontes, que considera de modo insuficiente – obviamente,
do meu ponto de vista – as especificidades locais, cuja característica
marcante era a grande liberdade, graças às enormes limitações
intelectuais de um ambiente provinciano de baixa densidade, com
que assimilava “as últimas idéias de Paris”.
Se
não há uma distinção de fundo entre o moderno daqui e o de acolá
(e, em certo sentido, não há mesmo, pois não há a pureza em nenhum
dos dois), é muito arguto o passo seguinte dado pela autora no
sentido de comprovar que o Moderno na fonte também estava contaminado
pelos humores neoclássicos. Ana Paula Pontes vai usar da autoridade
de autores reconhecidos como Colin Rowe, Reyner Banham, Vicente
Scully, Kenneth Frampton e William Curtis para comprovar que o
moderno europeu e norte-americano mantinham contatos, negados
pelos principais protagonistas, com o universo intelectual da
tradição clássica e, principalmente, neoclássica. Como suas preocupações
vão se focar principalmente nas figuras de Oscar Niemeyer e Vilanova
Artigas, Ana Paula Pontes vai priorizar as conexões clássicas
e neoclássicas de Le Corbusier e Frank Lloyd Wright, reconhecidamente
influências marcantes na trajetória dos mestres brasileiros. Sobre
o arquiteto norte-americano, a autora diz o seguinte:
“Embora
Wright tenha manifestado diversas vezes sua repulsa à arquitetura
tradicional do ocidente, sua obra não estaria isenta de ser contaminada
por ela. Isso é especialmente evidente em alguns de seus edifícios
públicos, cujos amplos espaços internos exerceram reconhecida
influência sobre Artigas”. [p. 103]
Sobre
Le Corbusier, Ana Paula Pontes se municia das palavras de Argan,
que critica com evidente impaciência a permanência de valores
tradicionais na arquitetura do mestre suíço-francês:
“Ao
termo do seu processo, Le Corbusier se encontra numa posição fundamentalmente
clássica, é um classicismo sem frisos, ordens, colunas, mas igualmente
certo dos valores fundamentais, em certo sentido, igualmente naturalistas:
o equilíbrio dos volumes, o harmônico desdobrar-se das superfícies,
a clareza das linhas simples e das proporções claras, a beleza
do problema bem colocado são apenas o segredo de um novo acordo
entre o homem e o mundo natural. Tudo, para ele, se torna fácil,
lógico, espontâneo: talvez até demais”. [p. 31]
Tanto
Le Corbusier como Frank L. Wright teriam, a contragosto ou de
forma inconsciente, contrabandeado para dentro do raciocínio moderno,
procedimentos projetuais ou mesmo valores intelectuais do ambiente
tradicional ao qual se antepunham com notável vigor. A transmissão
desses mesmos procedimentos e valores para a tradição que se forma
a partir de suas lições seria praticamente inevitável: “Sendo
Wright personagem vital da fundação de uma nova tradição
– a arquitetura moderna – não é de se admirar que características
entranhadas de modo amplo e profundo em sua obra continuassem
a ser transmitidas aos seus sucessores, mesmo sendo essas vinculadas
a um passado que o arquiteto ajudou a transpor”. [p. 113]
Niemeyer
e Artigas, Grécia e Roma
Creio
que esteja mais do que na hora de ressaltar algumas qualidades
inegáveis da dissertação de Ana Paula Pontes: trata-se de um trabalho
muito bem escrito, muito bem estruturado, que usa com rigor e
precisão os argumentos alheios, convertendo-os em premissas poderosas
na conclusão das questões mais pontuais aonde se desencadeia o
enredo de sua montagem histórica. Diria até que estamos diante
de uma maturidade pouco comum em dissertações de mestrado, o que
nos leva a um grau de exigência que certamente transcende o exigido
em tais circunstâncias. Mas como cada obra traz consigo o próprio
tacão de medida, não podemos nos furtar a prosseguir as considerações
levando em conta as expectativas criadas pelo próprio trabalho.
A
relação de Niemeyer com a tradição clássica se daria – segundo
a autora – através de ao menos duas conexões possíveis. A primeira,
mais genérica e comum a praticamente todo o movimento moderno,
seria com a arquitetura neoclássica do século XVIII, que sob a
condução dos princípios iluministas vigentes, tinha rompido com
as normativas impostas pelo Renascimento e prorrogados pelo Barroco.
É justamente a negativa altiva de seguir o conjunto de cânones
herdados dos séculos anteriores, fundados na convicção na harmonia
cósmica e nos sistema neoplatônico de proporções geométricas imutáveis,
que teria dado à arquitetura de Boullé, Ledoux e companheiros
o estatuto de arte revolucionária, pois teria aberta a porta da
renovação formal mais radical dos séculos subsequentes. A arquitetura
neoclássica, autônoma em relação aos sistemas formais predeterminados
(mesmo que herde sem maiores incômodos o arsenal de elementos
isolados da tradição), coloca em primeiro plano uma nova ambição
– a expressão do caráter – e um novo princípio de agenciamento
formal – a composição. Uma arquitetura, portanto, que vai
investir na valorização extrema do manuseio dos volumes, tratados
com grande autonomia e sem os antigos compromissos com a totalidade.
Niemeyer seria tributário de tal renovação estética, pois seu
agenciamento formal é marcada pelo método compositivo, sempre
buscando a expressão do caráter – a sensualidade racial, o hieratismo
do poder central, a inserção na natureza brasílica, o contraste
visceral entre objeto e paisagem, etc. O projeto mais emblemático
dessa relação seria o Museu de Caracas, aonde Niemeyer teria explorado
mais fortemente a “poética do sublime” [p. 59, usando argumentos
de Argan sobre o Neoclássico], elaborando uma forma radicalmente
expressiva, tensa e trágica, como o Cenotáfio para Isaac Newton,
obra visionária não construída de Boullé.
A
segunda relação de Oscar Niemeyer com a tradição clássica seria,
no ponto de vista de Ana Paula Pontes, sua intimidade com a tradição
clássica grega. Os Palácios de Brasília teriam no Templo Grego
sua principal referência arquitetônica, transfigurada por uma
linguagem absolutamente moderna na exploração das formas livres,
mas também comprometida com a expressão do caráter monumental,
adequado à convergência de poder central e identidade nacional
que se daria na nova Capital Federal (a autora faz a lição de
casa e coloca em cena o debate sobre o tema dentro das hostes
modernas na década de 50, tendo Josep Lluis Sert como um de seus
principais protagonistas). Dando vida a um novo conjunto de colunatas
e propondo proporções muito distintas, Niemeyer se apropria do
Templo Grego como modelo por sua marcada externalidade e relação
harmoniosa com o ambiente natural, ponto de partida para a obtenção
da desejada expressão do caráter elevado, que alia monumentalidade
e nobreza. São tais procedimentos adotados e predileções assumidas
que teriam dado aos Palácios de Brasília aquela sensação estranha
de formas novas das quais emulam simulacros familiares.
A
dupla relação com a tradição clássica presente na obra de Oscar
Niemeyer teria sido transmitida por vínculos distintos: sua formação
tradicional dentro da Escola de Belas Artes e o contato direto
com a obra de Le Corbusier. Contudo, Ana Paula Pontes, ao estabelecer
as conexões específica de Le Corbusier com o universo clássico,
o faz via argumentos de Argan – que aponta o apego do mestre suíço-francês
à “eterna beleza universal” [p. 31] – e Colin Rowe – que constata
a utilização de princípios da proporção geométrica, comparando
a Villa Stein corbusiana à Villa Foscari do renascentista Andrea
Palladio. Ou seja, de um lado temos a conexão de Niemeyer com
os templos da antigüidade grega e com os princípios de composição
e expressão do caráter do neoclássico iluminista, enquanto que
uma das possíveis “correias de transmissão” dos princípios clássicos,
Le Corbusier, demonstrava apego à geometria harmônica pré-revolucionária
da arquitetura palladiana. Não afirmo que haja nesta passagem
uma incompatibilidade total, mas entendo que a argumentação sofre
aqui alguns solavancos e que mereceria da autora alguma reflexão
e uma resposta mais precisa e documentada.
Volto
aqui ao problema metodológico de se abordar as permanências dentro
de contextos de mudanças históricas. Elogiei anteriormente o uso
da expressão “diálogos silenciosos”. Não gostaria de parecer que
tiro com uma mão o que dei com a outra, mas talvez seja uma metáfora
feliz mais por sua beleza, do que por sua precisão na transferência
de significados, afinal ela é pouco consistente se considerarmos
que um diálogo só é possível entre instâncias que se comunicam
em um dado momento e em um dado lugar, o que não ocorre – evidentemente
– entre fenômenos que estão apartados por longo tempo histórico
e grandes distâncias geográficas. Contatos deste tipo só podem
ter relações unidirecionais, pois não há como influenciar ou transformar
fatos ontológicos (evidentemente podemos mudar nossa visão do
passado, mas aí entramos em outros aspectos da discussão teórica,
que não têm maiores implicações aqui). A metáfora de minha predileção
para apontar uma conexão pouco visível entre fenômenos históricos
apartados no tempo é falar em um “rio subterrâneo”, pois ele pressupõe
um percurso e uma conexão que só existe em um único sentido.
Há
algum interesse em comentar estas coisas se levarmos em consideração
que só é aceitável, do ponto de vista de uma historiografia com
preocupações materialistas, uma discussão sobre permanências históricas
se conseguirmos estabelecer os elos de transmissão. Ana Paula
Pontes mostra ter plena consciência de ao menos um dos aspectos
do problema: a de que um mesmo conjunto de princípios e valores
podem se metamorfosear, ao serem transmitidos para um outro contexto,
em materialidades culturais formalmente distintas. Os “pressupostos
racionalistas vinculam-se” – diz a autora – “aos valores iluministas
corporificados na arquitetura neoclássica do século XVIII, e estão
na origem tanto da arquitetura acadêmica do século XIX, quanto
do Movimento Moderno do século XX, apesar das radicais diferenças
de linguagem nos dois últimos” [p. 29]. Ou seja, os mesmos pais
podem ter filhos muito diferentes, que devem ser necessariamente
explicados pelo ambiente cultural de chegada, uma vez que o de
partida é o mesmo.
Contudo,
não é muito clara ao longo da dissertação uma preocupação equivalente
em explicitar os riscos dos “falsos gêmeos”, ou seja, das materializações
culturais formalmente próximas, mas cuja aparência é
fruto do acaso. É célebre o conto de Jorge Luis Borges (uma das
principais referências de O nome da Rosa, de Umberto Eco),
que narra as aventuras de um personagem que encontra em locais
diversos uma série de moedas perdidas e elabora uma narrativa
sofisticada para explicar os fenômenos, mas que se mostra absolutamente
incompatível com a realidade. Estamos aqui diante de um sério
problema quando se trata de história da cultura, aonde elaborações
mentais sem a devida comprovação documental podem relacionar com
intimidade indevida os alhos aos bugalhos. Creio que esteja apontando
para uma faceta mais prosaica – portanto menos “teórica” e “filosófica”
– do ofício do historiador, que é comprovar as relações pressupostas
documentando os elos de transmissão, que podem ser os mais diversos
e variados – leitura, aprendizado formal, contato pessoal, viagens
de estudo, etc.
Se
realmente não é muito evidente a preocupação em documentar os
elos de transmissão dos contatos de Niemeyer com o universo clássico
– o que demonstra uma certa frouxidão metodológica que deveria
ser enfrentada –, o mesmo não poderíamos dizer em relação às conexões
de Artigas com a mesma tradição – o que demonstra que a autora
tem plena consciência da questão. No meu entendimento, Ana Paula
Pontes consegue tanto estabelecer as possíveis sobrevivências
de princípios clássicos na obra madura de Artigas, como também
elucidar os mecanismos de transmissão e as condições pessoais
e institucionais de seu funcionamento. Diferentemente de Oscar
Niemeyer, que adota como referência o Templo Grego e sua decorrente
externalidade em confronto perene com a paisagem, Vilanova Artigas
teria escolhido um “tipo” romano – o Fórum – que concentra sua
maior expressividade em seu interior. Do ponto de vista da fruição
estética, temos uma distinção antípoda, com o contraste extremo
entre a contemplação e a vivência. Tal oposição permite à autora
construir um conjunto de oposições entre os dois arquitetos brasileiros:
a arquitetura de Niemeyer teria compromisso com a leveza, abstração
do objeto harmônico acomodado, idealidade plástica extrovertida,
etc.; a obra de Artigas, em contraposição, denotaria o peso, a
tensão conflitiva do objeto impregnado de contradição, a sobriedade
utilitária introvertida...
O
tipo do Fórum Romano adotado por Artigas para a elaboração dos
projetos maduros e, em especial, do edifício da FAU-USP, teria
como base intelectual o espaço cívico priorizado pela tradição
romana e revisitada pela visão neoclássica, que lhe dá um elevado
estatuto moral e uma revigorada dimensão simbólica. A expressão
do caráter dessas edificações de caráter coletivo resulta em edifícios
de acolhida de grande público, aonde a importância de abrigo de
manifestações cívicas resultam em espacialidades grandiosas. A
Biblioteca Real de Paris, de Boullé, é a grande expressão das
possibilidades desse encaminhamento. Por outro lado, a obra de
Frank Lloyd Wright, obra que serve de referência para as primeiras
investidas de Artigas, também vai se valer do mesmo tipo para
projetar 3 de seus mais importantes edifícios de uso coletivo
– Edifício Sede da Larkin, Templo Unitarista e Museu Guggenheim.
Admirador da espiritualidade laica do arquiteto norte-americano,
Artigas tinha especial interesse nas possibilidades transformadoras
de um espaço interior dinâmico e agregador. A FAU-USP, no entendimento
de Ana Paula Pontes, seria a releitura da tipologia clássica do
Fórum Romano a partir das duas formulações apresentadas: a neoclássica
de Boullé e a moderna de Frank L. Wright, ambas fundada na necessidade
da expressão do caráter coletivo e cívico da edificação. No caso
de Artigas ganha peso a conotação democrática e atividade educativa,
motivadas pela visão política e ideológica do arquiteto brasileiro.
Entendo que a argumentação de Ana Paula Pontes é mais eficaz em
relação a Artigas, pois as conexões surgem com maior clareza,
uma vez que são evidenciados os elos de transmissão e também
o ambiente cultural de chegada.
Para
finalizar, gostaria ainda de comentar que a autora tenta abrandar
as seguidas referências às conexões entre os arquitetos modernos
brasileiros e a tradição clássica ressaltando o quanto Artigas
e Niemeyer possuem um raciocínio voltado para a expressão de uma
técnica moderna, dentro de possibilidades formais absolutamente
novas. Entendo que seja um mecanismo psicológico de acomodar possíveis
e talvez inevitáveis críticas daqueles que colocaram nossos mestres
em pedestais e santuários. Diria até que a autora, nascida e formada
em São Paulo, só teve as possibilidades intelectuais, acadêmicas,
psicológicas e mesmo anímicas de escrever este trabalho por estar
agora radicada no Rio de Janeiro. Entendo como improvável um trabalho
com este encaminhamento em uma Universidade paulista. Mas, creio
que os cuidados extras da autora não sejam necessários, pois não
há qualquer tipo de insídia em suas afirmações e em suas hipóteses.
Mais do que isto: seu trabalho é muito bom, muito seguro, muito
bem escrito e muito bem argumentado. Quem faz isso, não precisa
se desculpar por nada.
O
que entendo como uma possível limitação do alcance de seu trabalho
estaria em outro lugar, mais precisamente na coordenação entre
as permanências e as transformações. Penso que contar a história
de permanências culturais alcançam uma maior amplitude quando
temos como objetivo compreender o que já não é mais igual, ou
seja, quando tentamos a partir das sobrevivências circunscrever
e entender a transformação. Lembro que os irmãos Campos disseram
que o novo é sempre um “desvio da tradição” – ao que eles chamaram
de “canto paródico”. Tudo que é novo tem uma sobrevivência dentro
de si, mas também tem o germe do novo, do nunca visto. O que significa
que – se voltarmos a nossa imagem inicial da sala de aula do professor
açougueiro – um historiador precisa ter a coragem de usar o cutelo.
Resenha
baseada na argüição pronunciada na banca de mestrado de Ana Paula
Pontes Brasil, ocorrida no Departamento de História da Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro / PUC-RJ, Rio de Janeiro,
no dia 08 de outubro de 2004, e que contou também com as presenças
dos Professores Doutores João Masao Kamita (orientador) e Roberto
Conduru.
Abilio
Guerra, arquiteto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da Pontifícia Universidade Católica de Campinas
e do Unicentro Belas Artes, é editor do Portal Vitruvius |