| Arte,
arquitetura e cidade
resenha de cristiane alcântara
História
da arte como historia da cidade
gira em torno de três importantes conceitos levantados por Giulio
Carlo Argan: cidade, objeto e arte. Segundo Argan, a obra de arte
determina um espaço urbano: “o que a produz é a necessidade ,
para quem vive e opera no espaço, de representar para si de uma
forma autêntica ou distorcida a situação espacial em que opera”
(Argan, p. 74, 1984). Argan vê o espaço urbano de uma forma ampla,
parte de um todo e que abrange desde o quarto de dormir até a
zona rural. Aldo Rossi, assim como Argan, também desenvolveu durante
vários anos uma pesquisa acerca das questões que envolvem os espaços
urbanos e seus problemas. Em sua principal obra A arquitetura
da cidade, Rossi escreve sobre fatos urbanos, memória privada
e reflete sobre o cotidiano das cidades. Questões ligadas as duas
principais idéias discutidas por Rossi: os fatos urbanos, que
estão em ação permanentemente e universalmente dentro das cidades
e os problemas históricos ligados a estes fatos urbanos.
Diante
dos conceitos estabelecidos por estes dois autores, percebeu-se
que é possível traçar diversos e oportunos paralelos entre eles,
e mais especificamente, acerca da problemática levantada por Argan
a respeito da obra de arte como determinante de um espaço urbano
– que Rossi chama de fatos artísticos – e os problemas de preservação
e conservação dos patrimônios históricos das cidades.
Uma
construção isolada em uma zona rural pode nos dar a nítida impressão
de estarmos diante simplesmente de uma obra de arquitetura, entretanto,
um grupo de construções imediatamente nos sugere a possibilidade
de se criar uma arte diferente. Se pensamos assim, podemos compreender
melhor quando Argan considera arte e cidade como uma só coisa.
Segundo Argan, não deve haver uma separação entre zona urbana
e zona rural, como também entre zona “histórica” e zona “moderna”,
afinal todos estes espaços vistos como um todo constroem a cidade.
Existe uma arte do relacionamento dos fatos urbanos, que ao todo
e juntos, formam o ambiente urbano.
Primeiramente
é importante que se compreenda, segundo Rossi, o que vem a ser
os fatos urbanos. De acordo com o autor, fatos urbanos – igrejas,
casas particulares, monumentos, praças, etc. – são singulares,
únicos, pedaços de cidades que formam esta. Rossi divide estes
fatos em área-residência e elementos primários, ou seja, esfera
particular e esfera privada.
Quando
Rossi escreve sobre fato urbano como fato artístico chegamos ao
primeiro e importante paralelo que podemos fazer entre o que pensam
ele e Argan. Para Rossi, “na natureza dos fatos urbanos há algo
que o torna muito semelhante, e não só metaforicamente, à obra
de arte” (Rossi, p. 18, 1966). De acordo com o autor tal caráter
artístico dos fatos urbanos está ligado à sua qualidade e unicidade.
Aqui podemos compreender que, quando Rossi escreve sobre este
fato urbano, ele está se referindo a uma ponte, uma rua, uma casa
particular ou a um bairro. Argan quando escreve sobre esta questão
vai mais longe, para ele fatos urbanos são todo e qualquer tipo
de arte, “(...) todavia uma cidade não é apenas produto das técnicas
de construção. As técnicas da madeira, do metal, da tecelagem,
etc. também concorrem para determinar a realidade visível da cidade,
ou melhor, para visualizar os diferentes existenciais da cidade”
(Argan, p. 75, 1984).
Argan
também nos alerta – de forma até mesmo catastrófica – a respeito
do que pode acontecer a uma sociedade que não valoriza a história
e vê seus objetos de arte como fragmentos do passado e fora de
um contexto atual. O que, segundo o autor, faz com que se considere
apenas como obras de arte aquilo que está dentro dos museus, o
que conseqüentemente contribui para que cada vez mais os fatos
urbanos não sejam vistos como fatos artísticos. Rossi também prevê
isto, talvez de forma menos fatalista, entretanto, para ele os
fatos urbanos são fatos artísticos quando são coisa humana por
excelência:
“Como
os fatos urbanos são relacionáveis as obras de arte? Todas as
grandes manifestações da vida social têm em comum com a obra de
arte o fato de nascerem da vida inconsciente , esse nível é coletivo
no primeiro caso e , individual no segundo, mas a diferença é
secundária, porque umas são produzidas pelo público, as outras
para o público, mas é precisamente o público que lhes fornece
um denominador comum” (Rossi, p. 19, 1966).
Sobre
isto, Rossi ainda cita Maurice Halbwachs, quando este vê nas características
da imaginação e da memória coletiva o caráter típico dos fatos
urbanos. Portanto, Argan e Rossi afirmam, de formas particulares,
que a cidade é coisa humana, obra produzida por nossas mãos, testemunho
de memória, valores e, é portanto, objeto e fato artístico.
Acerca
da preservação e conservação dos fatos urbanos, ou seja, fatos
artísticos, pode-se fazer também outro paralelo entre o que escreve
Rossi e Argan. O segundo nos fala sobre cidade real e cidade ideal
e afirma que “a relação entre quantidade e qualidade é proporcional
no passado e antitética hoje, e está na base de toda problemática
urbanística ocidental” (Argan, p 74, 1984), ou seja, para Argan
uma ruptura entre cidade histórica e cidade moderna gera um sentido
anti-histórico ao núcleo novo da cidade e um caráter somente histórico
ao núcleo antigo. Assim, a cidade moderna cresce sem grandes preocupações
qualitativas, enquanto que a cidade histórica se torna encerrada,
estagnada. Muitas destas estagnações se refletem em falta de preservação
e restauração. Portanto, dos dois lados temos a problemática qualitativa.
Rossi,
sobre este assunto, destaca a situação da cidade de Bari, em que
zona antiga e nova não se relacionam, sendo assim, dois extremos
dentro da mesma cidade. De acordo com Rossi é exatamente isto
que não pode acontecer. Para o autor, o que enriquece a cidade
e os fatos urbanos – tantos antigos, quanto novos – é a sua constante
transformação. Ou seja, os diferentes tempos presentes em um mesmo
núcleo urbano, o que demonstrará uma cultura em transformação.
Argan e Rossi se definem claramente contrários à idéia de uma
cidade histórica intacta. Rossi dá um outro exemplo sobre este
fato ao citar a cidade de Moscou e sua zona periférica. Os diversos
tempos presentes nesta cidade coexistem proporcionando a sensação
de uma cultura em transformação, ou seja, uma fruição estética.
Entretanto, Rossi destaca que para isto deva haver algum controle,
o que nos remete novamente ao conceito da qualidade destes fatos
urbanos.
Dinamização
da cidade, este termo pode sintetizar o que Argan e Rossi compreendem
como continuidade e desenvolvimento de cidade histórica e cidade
moderna. A cidade antiga não deve se tornar obsoleta e estagnada,
seus monumentos devem ser vistos como fatos artísticos, mesmo
estando fora do museu, e assim, a cidade nova não se torna anti-histórica.
Argan escreve sobre uma contraposição que existe entre cidade
antiga e cidade nova, quando esta não possui instituições carismáticas
e acaba por transformar-se desordenadamente.
Um
paralelo entre História da arte como história da cidade
e Arquitetura da cidade contribui para que se compreenda
melhor importantes pontos levantados pelos dois autores. Fatos
urbano-artísticos devem fazer parte de nossas vidas, e talvez
por isso, Argan não tenha apenas escrito sobre o tema, ele enfrentou
a cena dura das ruas quando aceitou tornar-se prefeito de Roma.
Foi a transposição imediata das idéias para a prática. Uma das
conclusões que se chega ao ler seu livro é a de que Argan nunca
se cansou da história, e portanto – como ele mesmo disse – nunca
foi um utopista. Decidiu sair às ruas, não para protestar, mas
para fazer o que lhe cabia. Seu sucesso em Roma foi discutível,
mesmo porque a ex-capital do mundo talvez seja ingovernável. O
que importa é o fato concreto de Argan ter colocado em prática
suas idéias sobre a ação política e para a urbe.
Cristiane Alcântara
é Designer. Atualmente, conclui o Mestrado em Arte – na linha
de Teoria e História – pelo Instituto de Artes da Universidade
de Brasília, UnB. |