| Um
passeio pela Atenas do século V a.C
resenha de carlos roberto monteiro de andrade
Em
“Da Forma Urbana. O Casario de Atenas”, o arquiteto, pesquisador
e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Jonas
Tadeu Silva Malaco, nos leva à Atenas do século V a.C. Por ele
somos conduzidos aos edifícios atenienses daquela época remota,
por suas ruas e caminhos. Desvelando as formas de sociabilidade
inscritas em um plano urbanístico aparentemente ausente, esclarecendo
o modo de distribuição das casas, Jonas nos revela alguns mistérios
da cidade-mãe da tradição urbana do Ocidente.
Malaco
pergunta: por trás da irregularidade do desenho urbano de Atenas
não residiria – ao menos para nós – uma ordem complexa ? No traçado
que se mostra casual, sem plano, parecendo ser fruto de uma ideologia
individualista que permitiria ao proprietário privado o abuso
do espaço público, o autor desse belo e pequeno livro aponta uma
clara intenção de ordenar a cidade segundo princípios de respeito
ao outro e ao todo, ainda que com uma geometria muito distante
da que Descartes proporá dois mil anos depois.
Com
uma narrativa sucinta e muito bem construída, Malaco mostra como,
no aparente acaso e irregularidade das vias e casario, inscreve-se
uma ordem funcional e sutil. Indagando-se sobre as especificidades
do desenho urbano da Atenas do período clássico, revela pouco
a pouco o que se esconde na trama urbanística da qual apenas os
cidadãos conhecem suas regras, para nós quase secretas. De tal
modo que para um ateniense o direito de cidadania estava no conhecimento
que tinha de sua cidade, de suas portas, de suas casas e becos.
O
que Jonas nos expõe é uma Atenas onde o interesse particular não
se sobrepõe aos interesses dos demais, tampouco aos interesses
de todos e do todo na contínua construção da cidade. Ao contrário
do que seu desenho sugere, a Atenas clássica inscreve no território
uma forma urbana estriada, heterogênea, mas forjada por um pensamento
racional e ordenador. Funcional em sua aparente disfuncionalidade
e desordem de traçado de vias, de disposição das casas e de suas
arquitetura sem qualquer uniformidade, eis a Atenas que Jonas
descreve pormenorizadamente, como um guia que nos levasse por
um percurso pelos anos 400 a.C., por meio de um raciocínio calcado
na formulação de hipóteses e suas demolições, por sendas e frestas
de onde avistamos uma antiguidade que teima em nos incomodar.
Na
Atenas do século V a.C. nos vemos em um espelho às avessas, miramos
nossas metrópoles, nossas cidades médias ou pequenos núcleos urbanos
em que os espaços públicos desaparecem progressivamente, contrapondo-os
a uma cidade que nos ensina como respeitar a dimensão pública
da vida, isto é, o outro e suas diferenças.
O
livro de Jonas é como um exercício de deambulação histórica, em
que passeamos pelas ruas de Atenas nos dando conta de seus segredos
citadinos, dos modos de vida gregos daquela época perdida. Ao
longo do passeio ficamos sabendo a respeito da intimidade das
casas atenienses, da compreensibilidade da cidade, de suas partes
e de seu conjunto, das ordens e regras de seus espaços relacionais,
da identidade dos lugares e de sua preservação. Conhecendo aquela
Atenas que Jonas nos desvenda, talvez possamos melhor conceber
a cidade que desejamos habitar, ou então nos resignarmos com a
perda de uma vida urbana que não voltará jamais, como Camillo
Sitte já anunciava há mais de um século atrás.
Carlos
Roberto Monteiro de Andrade, arquiteto, professor, atual chefe
de Departamento de Arquitetura e Urbanismo da EESC-USP |