| Revitalização
do centro histórico de João Pessoa
resenha de cláudio nogueira e sônia maria gonzalez
Revitalização Urbana e (re) invenção do Centro Histórico na cidade
de João Pessoa (1987 – 2002) faz
uma leitura do processo de revitalização/requalificação do Centro
Histórico de João Pessoa a partir de um ângulo de visão pouco
percebido pelo cidadão comum: a transformação – para além da recuperação
física – do espaço histórico em “lugar” para onde convergem vivências,
trocas e práticas de diferentes grupos sociais na busca da construção
de uma identidade comum.
O
processo de revitalização, iniciado em 1987 a partir do Convênio
Brasil / Espanha, resumia-se, em sua fase inicial, as ações dos
governos que o compunham: Ministério da Cultura do Brasil/Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Ministério
dos Assuntos Exteriores da Espanha /Agência Espanhola de Cooperação
Internacional (AECI), Governo do Estado da Paraíba e Prefeitura
Municipal de João Pessoa. Estas ações se dão a partir da atuação
técnica da entidade gestora local deste Convênio, a Comissão Permanente
de Desenvolvimento do Centro Histórico de João Pessoa.
Nestes
primeiros anos de atuação percebe-se o pouco – ou quase nenhum
– envolvimento da sociedade local no processo, decorrência, por
um lado, do desconhecimento por parte do cidadão comum do acervo
cultural de que dispõe a nossa cidade, e por outro, pela concentração
das ações na tarefa pontual de salvar do desaparecimento importantes
conjuntos arquitetônicos, vítimas de décadas de abandonado e descaso.
Dez
anos após inicia-se uma nova fase deste processo, marcada pela
implantação do Projeto de Revitalização do Varadouro e Antigo
Porto do Capim, ainda em andamento. Passa-se da intervenção pontual
em monumentos referenciais para a requalificação de trechos da
estrutura urbana do Centro Histórico, que através da melhoria
da infra-estrutura, reurbanização do espaço público e restauração
de monumentos e conjuntos edificados, visa o desenvolvimento social
e econômico destes trechos, utilizando o potencial cultural como
instrumento de contribuição para o desenvolvimento da cidade.
Apesar
dos principais conjuntos arquitetônicos – vários deles já restaurados
– localizarem-se em um setor contíguo do Centro Histórico, a Cidade
Alta, a área do Varadouro foi selecionada por dois motivos principais:
o potencial de associação do patrimônio cultural com o aproveitamento
sustentável do meio ambiente representado pelo rio Sanhauá – integrante
do estuário do rio Paraíba – e o acelerado processo de decadência
e abandono da área. Este projeto busca a conservação e valorização
do patrimônio cultural; a revitalização de sua função econômica
dentro do contexto da cidade, com a inserção de novos usos que
resgatem o caráter de centro comercial e de serviços, diversificado
e de bons níveis de qualidade; a revitalização de sua função habitacional,
com a dotação de condições dignas de habitabilidade e de desenvolvimento
econômico e social das populações existentes e o incentivo à fixação
de novas habitações, e a transformação da área do antigo porto
em um ponto destinado ao lazer e diversão da população da cidade.
Este projeto também marca um novo relacionamento da sociedade
pessoense com o seu patrimônio cultural.
É
na evolução do próprio processo de revitalização do Centro Histórico
de João Pessoa e na sua relação com as mudanças de concepção e
formas de utilização do patrimônio cultural a nível nacional e
internacional que a autora concentra a sua análise. No entanto,
a ótica na qual o livro baseia-se nas mutações do relacionamento
de nossa sociedade com o seu patrimônio cultural. Explicita as
particularidades do caso de João Pessoa, onde esta sociedade,
a margem das forças políticas locais, e associada aos agentes
técnicos da revitalização, reinvidica e cria formas de atuação
no processo de revitalização. E o principal ponto desta mutação
é a intervenção na Praça Antenor Navarro e no Largo de São Pedro
Gonçalves cria no cidadão comum uma nova percepção do seu patrimônio.
Nasce – ou renasce – no imaginário popular o Centro Histórico
de João Pessoa. A sociedade, até então distante, passa não só
a apropriar-se do espaço físico, mas também do espaço social que
o Centro Histórico representa.
Para
os gestores do processo – a Comissão do Centro Histórico – o livro
registra e analisa uma transformação de relacionamentos com a
sociedade que, de um momento inicial por vezes conflituoso, passa
a uma parceria, que também possui seus pontos de atritos, mas
de resultados construtivos no processo. Registra também as diversas
formas como esta sociedade apropria-se do espaço histórico, sendo
uma das mais importantes a criação de associações cujos objetivos
estão voltados para a participação do processo de revitalização
e que congregam diversos atores da sociedade, destacando a Oficina-Escola
de João Pessoa, o Projeto Folia Cidadã (vinculada a Associação
Folia de Rua) e a Associação Centro Histórico Vivo – ACEHRVO.
O
livro em si também espelha estas alterações no processo de revitalização
do Centro Histórico de João Pessoa, na medida em que é uma reflexão
sobre o mesmo, e que pela primeira vez é tornada pública, não
para retratar os resultados da restauração/requalificação física
do acervo de nosso Centro Histórico, mas para analisar o processo
em si e a sua apropriação pela sociedade. Reflexão por vezes difícil
de ser realizado pelos agentes diretamente envolvidos por conta
das demandas da atividade cotidiana, mas também por sua parcialidade
natural.
Ao
analisar estas transformações do processo de revitalização, e
em especial a do espaço físico restaurado em “lugar” apropriado
pela sociedade local e palco da atuação dos seus diversos grupos,
a autora revela a sua riqueza, não só para seus gestores técnicos,
mas, principalmente, para a sociedade para a qual se destina.
Revela que, para além das dificuldades cotidianas, o permanente
diálogo entre estes diversos grupos permite a construção de melhores
resultados e, principalmente, reforça os laços comuns que criam
a identidade coletiva. Leva-nos a refletir na direção de que é
no processo que reside o resgate pleno desta identidade, para
o qual o resgate físico deste patrimônio cultural age como elemento
aglutinador da interação social.
O
presente texto está publicado na orelha do livro resenhado.
Cláudio
Nogueira e Sônia Maria Gonzalez são arquitetos e coordenadores-adjuntos
da Comissão Permanente de Desenvolvimento do Centro Histórico
de João Pessoa |