| Unilabor:
um lugar para a utopia
resenha de vera santana luz
Em
tempos em que há uma valorização quase hegemônica do sucesso econômico
pautado pela competição irrestrita avalizada pelo mercado pode-se
ver especial beleza no trazer à luz, neste livro de Mauro Claro,
de uma experiência que para nós hoje parece beirar a utopia mas
que, paradoxalmente, aconteceu de fato, em tempo e lugar. Há cinqüenta
anos atrás foi possível realizar no Brasil, em São Paulo, uma
produção de mobiliário industrial associando racionalidade de
desenho moderno, ações comunitárias cooperativas e humanismo pastoral
cristão. Semelhanças com o projeto moderno não são mera coincidência,
são possibilidades de sua realização concreta, neste caso, no
Brasil.
O
livro faz um trabalho cuidadoso de descrição desta experiência,
possibilitada pela iniciativa e liderança do padre dominicano
frei João Batista Pereira dos Santos (1913-1985), ao congregar
artistas, artesãos, intelectuais e personalidades políticas (Ciccilo
Matarazzo, Mário Carvalho de Jesus, André Franco Montoro, Jorge
da Cunha Lima, frei Benvenuto Santa Cruz, Maria Thereza Vargas,
Marieta Ribeiro de Azevedo, Flávio Império, Cinira Stocco Fausto,
Sebastiana Gervásio, Ilsa Leal Kawall Ferreira, Jairo Lopes, Célia
Baptista Ferreira, Alexandre Wollner e outros) em torno de um
projeto: da criação inicial de uma capela (Capela do Cristo Operário,
1950), decorada com obras de arte moderna (Alfredo Volpi, Yolanda
Mohalyi, Elisabeth Nobiling, Geraldo de Barros, Moussia Pinto
Alves, Robert Tatin, Giandomennico de Marchis, Bruno Giorgi e
Roberto Burle Marx), à constituição de uma fábrica, célula inicial
de uma comunidade de trabalho (Unilabor, 1954-1967, na origem
composta pela sociedade entre o artista e designer Geraldo
de Barros, o marceneiro Manuel Lopes da Silva, o serralheiro Antonio
Thereza e o engenheiro Justino Cardoso) pautada por procedimentos
de autogestão participativa na criação, produção e comercialização
do mobiliário, organicamente associados a várias atividades comunitárias,
realizadas por meio do Centro Social Cristo Operário – complementação
educacional infantil, teatro, lazer, debates, conferências, discussões
políticas, edição de jornal, catequese, tendo como particularidade,
sua efetivação na periferia da cidade de São Paulo, a Vila Brasílio
Machado, no Alto do Ipiranga. À ação do frei João Batista Pereira
dos Santos junta-se a participação de Geraldo de Barros, artista
concretista e designer, transformando em prática coletiva
numa experiência de desenho abrangente suas preocupações com respeito
à relação entre arte e indústria. Remanesce hoje o conjunto arquitetônico,
tombado pelo Condephaat (2001), regatada sua memória e à espera
de eventuais novas utopias.
Mauro
Claro, contudo, não pára na descrição. Oferece aos leitores algumas
chaves de sua própria leitura dos fatos, que lhes possam dar sentido
histórico e conceitual – do ponto de vista ético, estético e mesmo
metafísico.
A
experiência de frei João Batista, pautada pelas comunidades operárias
francesas, em particular a Comunidade Boimondau e articulada ao
movimento Economia e Humanismo, fundado pelo padre Louis-Joseph
Lebret, na França, durante a 2a. Guerra Mundial, teve
como base a retomada da filosofia de santo Tomás de Aquino – o
neotomismo –, força dominante no pensamento católico romano nos
primeiros trinta anos do século XX, como tentativa de resposta
teórica e política da Igreja aos problemas sociais e embates internos
à ordem social burguesa moderna – capitalista, industrial, urbana
e secularizada, para fazer frente aos aspectos de alienação, perda
de liberdade, criatividade e propriedade do produto final, típicos
da divisão de classes da sociedade capitalista, ao tentar conceber
uma possibilidade de manter aspectos comunitários em seu interior.
A teologia neotomista não põe em contradição a realidade dos fenômenos
à verdade sobrenatural, mas propõe à razão humana o dever e a
capacidade de compreender a ordem do mundo e reger a ordem das
coisas. Mauro Claro aponta para a oposição, presente na Unilabor,
dos conceitos de sociedade – respaldado por Marx –, e de comunidade.
Nos apresenta também uma leitura de distintas racionalidades,
desde o ponto de vista de Mannheim – a racionalidade instrumental,
característica da sociedade capitalista, operativa, funcional,
organizadora de atos arranjados para a obtenção de um fim estabelecido
(neste caso, o lucro) oposta à racionalidade substantiva, libertadora,
ato de discernimento humano, a ser construída no projeto da Unilabor,
em dicotomia às necessidades de organização racional do trabalho
em série.
Às
noções de distintas racionalidades, para a compreensão da experiência
da Unilabor, Mauro Claro inclui a racionalidade do projeto moderno
de design e arquitetura, como medida de aproximação, à
semelhança da experiência da Bauhaus, aquela racionalidade mesma
que pautou a articulação entre artesão, artista e arquiteto em
todo o processo de produção e concepção, e que compreendeu a racionalidade
do objeto desenhado: da concepção de desenho ordenado por estruturas
geométricas simples e regulares, da economia de meios, da redução
de peças, da componibilidade e acoplamento, do desenho como instrumento
operativo de decomposição, sistematização e re-integração de partes,
da arte como valor de uso além de valor de troca a partir de requisitos
de funcionalidade e questões estéticas, da boa forma, compreendendo
a inclusão de participação decisória de todos as pessoas envolvidas
em todo o processo, do projeto à produção e à comercialização
dos objetos, como um meio de combinação dos gestos inevitavelmente
repetitivos e alienantes aos de desenvolvimento de autonomia e
sentimento de pertinência comunitários.
Mauro
Claro completa sua leitura relacionando aspectos da experiência
da Unilabor às demais fábricas de móveis semelhantes suas contemporâneas,
em maior ou menor grau artesanais ou mais francamente industriais,
casos como os da Branco & Preto, da produção de Joaquim Tenreiro,
caminho antes iniciado por Lina Bo Bardi e associados no Studio
Palma, da Mobília Contemporânea de Michel Arnoult, da Móveis Z
de Zanine Caldas, da Ambiente de Leo Seincman e da L1Atelier,
de Jorge Zalzupin, dentro do quadro mais amplo de consolidação
da arte moderna no Brasil, desde a Semana de Arte Moderna de 22,
às inaugurações do MASP e MAM (1947 e 1948) tendo como base a
sistematização proposta por Mário de Andrade das fases “heróica,
destruidora e construtora” da arte moderna na nova realidade brasileira
da época, industrial e urbana, fundamentada pela possibilidade
de atualização universal da criação artística brasileira, no direito
à pesquisa estética e na estabilização de uma consciência criadora
nacional.
Mauro
Claro nos propõe ainda uma compreensão dessas experiências no
processo de industrialização brasileira e em particular desse
processo em São Paulo, desde o planejamento governamental pautado
pelos investimentos e consolidação da legislação trabalhista da
era Vargas ao programa de metas e ampliação do parque industrial
por meio do capital externo de Juscelino Kubitschek e à formação
de uma classe operária urbana consolidando uma cultura urbana
industrial no processo de constituição de classes sociais modernas
no Brasil – proletariado, burguesia e classe média. É dentro desse
universo que Mauro Claro propõe a leitura dos fenômenos de trabalho
artístico. Seu livro se apresenta, antes de tudo, como uma forma
de entendimento do que possa ter sido, na década de 50, uma das
faces da modernidade entre nós.
Um
livro muito cuidadoso, carinhoso com seus personagens, que contém
em germe uma espécie de inquietação sobre as atuais possibilidades
de desenho no Brasil. E, para completar esta experiência de beleza,
para quem quiser ainda mais, que possa ver também “Sobras em Obras”,
um filme de Michel Favre, sobre Geraldo de Barros, realização
em parceria da Tradam Productions, Suíça e Tatu Filmes, Brasil
em co-produção com a TV SENAC, São Paulo.
Vera
Santana Luz é formada pela FAU Mackenzie, Doutora pelo Curso de
Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
São Paulo, professora da FAU PUC-Campinas desde 1986 realizando
projetos e obras de arquitetura em escritório próprio em sociedade
com o arquiteto Fernando Vianna Peres na Casa de Projetos |