| O
esquadrinhar do habitat brasileiro
resenha de fernando atique
A
questão habitacional é um dos temas mais presentes na historiografia
da arquitetura e do urbanismo. Livros dos mais variados enfoques
têm mapeado as políticas e os espaços ligados ao que chamamos
de casa. Alguns títulos bem conhecidos são Casa, pequena
história de uma idéia, de Witold Rybczynski (Record, 1999);
Quando o Moderno não era um estilo e sim uma causa, de
Anatole Kopp (Nobel, 1986); Origens da Habitação Social no
Brasil, de Nabil Bonduki (Estação Liberdade, 1998); Dos
Cortiços aos Condomínios Fechados, de Luiz César de Queiroz
Ribeiro (Civilização Brasileira, 1997); Cozinhas etc, de
Carlos Lemos (Perspectiva, 1976); O Palacete Paulistano,
de Maria Cecília Naclério Homem (Martins Fontes, 1996); Modernidade
e Moradia, de Lílian Vaz (Sete Letras/ FAPERJ, 2002), entre
uma dezena de outros títulos não menos importantes.
Essa
produção, sobretudo a brasileira, tem vasculhado a origem de muitas
iniciativas públicas ligadas ao provimento de moradias ao trabalhador
urbano, demonstrando a gênese de certos transtornos ainda hoje
presentes em nossas cidades. A contribuição da força patronal,
sobretudo em suas atitudes iniciais no Brasil, tem sido também,
tema de pesquisas criteriosas, desenvolvidas em algumas instituições
nacionais. Dentre essas, sem dúvida alguma o trabalho da arquiteta
e historiadora da arquitetura e do urbanismo, Telma de Barros
Correia, docente do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da
USP São Carlos, é um dos mais consistentes e profícuos. Abordando
o surgimento das formas de moradia voltadas à classe operária,
muito bem definidas como Núcleos Fabris e Vilas Operárias, Telma
Correia colaborou, já em seu primeiro livro, Pedra: plano e
cotidiano operário no sertão, (Papirus, 1998) para um entendimento
sistêmico da eclosão e da disseminação dessas atitudes ordenadoras
do território, entre finais do século XIX e primeiras décadas
do século XX, no país. Enfocando o núcleo fabril de Pedra (1),
construído, em 1914, no sertão de Alagoas, Correia conseguiu unir
as reflexões típicas do profissional da arquitetura e do urbanismo,
às análises sociais e históricas. O resultado foi um trabalho
de qualidade, reconhecido, inclusive, em premiação da Fundação
Joaquim Nabuco, de Recife. Entre vários méritos, um dos principais
talvez tenha sido demonstrar o desenvolvimento de posturas ordenadoras
da vida do trabalhador operário, fora do eixo Rio-São Paulo. Ao
apontar as atitudes de Delmiro Gouveia, o empreendedor da fábrica
de linhas de costura que erigiu esse núcleo no sertão de Alagoas,
Telma Correia demonstrou a existência de outras iniciativas patronais
no campo operário, e abriu sendas para o estudo de manifestações
semelhantes em outras partes do país.
Convém
ressaltar que essa capacidade de aliar a pesquisa em arquitetura
e urbanismo ao campo da história advêm da formação que Correia
recebeu ao longo de sua carreira. Não sendo graduada em História,
ela adquiriu domínio sobre o tema cursando disciplinas durante
sua tese de doutoramento, na FAUUSP, e na UNICAMP, na linha de
reflexões da Profa. Maria Stella Bresciani.
Essa
conciliação entre a arquitetura, campo de sua formação, e o enfoque
histórico pelo qual Maria Stella Bresciani trata a cidade, permitiu
com que Telma Correia desenvolvesse novas abordagens sobre a história
da habitação no Brasil. O produto dessas reflexões pode ser obtido
mediante a leitura de seu último livro: A Construção do Habitat
Moderno no Brasil: 1870-1950. (RiMa, 2004).
Livro
de forte caráter didático, A Construção do Habitat Moderno
no Brasil, sistematiza uma série de artigos publicados ao
longo de dez anos de pesquisa sobre o tema, em importantes reuniões
da área, como ANPUR, Seminários de História da Cidade e do Urbanismo,
e excertos de sua tese de doutorado, até então, inéditos. Em quatro
ensaios, que apesar de poderem ser lidos autonomamente, possuem
vínculos temporais entre si, a autora se aproxima da temática
da habitação por vieses diversos. Recorre a atitudes já desenvolvidas
por Maria Ruth Sampaio, Carlos Lemos, Nestor Goulart desde os
anos de 1970, quando publicaram livros sobre a moradia precária
brasileira, mas revalida a abordagem, ao se valer de outras posturas
historiográficas, como a de Michel Foucault e seu microcosmo.
Balizada por trechos de obras de literatos internacionais, por
pesquisas correlatas da Europa e dos Estados Unidos, Telma Correia
cria vínculos entre as manifestações da pobreza e do espaço habitacional
que se aplicam ao Brasil também. Mostra que certos arranjos espaciais,
citados como típicos da sociedade brasileira, na verdade, são,
também, formas de espoliação da população da cidade pela força
do capital, além de serem frutos – e muitas vezes – distorções
de projetos discutidos e implementados na passagem do século XIX
ao XX no país. Essa constatação, presente no primeiro capítulo,
denominado Imagens de Degradações: representações da moradia
do pobre e da grande cidade, é contraposta às análises de
seu segundo capítulo, Projetos de Regeneração: a intervenção
na habitação proletária. Nesse trecho, a autora demonstra
que a Teoria do Meio Formador, em voga na Europa e também entre
nós, no século XIX, levava a raciocínios em que a cidade era vista
como “um meio corruptor, favorável à perversão dos costumes
e à difusão de doenças” e por isso, “poderia ser transformada
em meio corretor”, e, numa escala diminuta, sendo a casa o
que “degrada o indivíduo”, ela deveria ser levada a se
tornar um “elemento que o corrige”. Essa detecção permite
com que Telma Correia identifique e analise os diversos processos
concomitantes que levaram à definição da espacialidade e da política
acerca da casa. Abordando um período anterior ao do livro de Marisa
Carpintéro, a Construção de um Sonho: os engenheiros e arquitetos
e a formulação da política habitacional no Brasil (UNICAMP,
1997), Correia ajuda a entender o debate acerca da noção de casa
própria de forma mais específica, inclusive apontando certa origem
desse procedimento de assentamento como francesa, e datada da
década de 1830.
Ao
mostrar que a casa se especializa, ainda no século XIX, Telma
Correia mostra que espaços como banheiros e cozinhas passam a
ser lugares dentro da habitação, e por isso, permitem com
que ao se sanear o habitat, a casa passe a ser vista, também como
“espaço sanitário”. Procurando, em todo tempo, circunscrever
a noção de casa ao seu espaço urbano, Correia se vale do conceito
de Habitat proposto por Lion Murad e Patrick Zylberman,
no qual “um novo modelo de moradia” deve estar articulado
a uma nova relação com o urbano mediante a ligação com redes de
infra-estrutura, a equipamentos coletivos e a espaços de trabalho.
Essa nova ligação é importante porque ela absorve funções antes
presentes na habitação, mas, principalmente, porque transforma
a casa em espaço restrito à vida familiar. Nos dizeres de Balzac,
citado no terceiro capítulo da obra, cria-se, no período em estudo,
“o estojo do homem privado”.
Por
sinal, esse terceiro capítulo apresenta uma nova forma de historiografia
no campo da arquitetura: a questão da semântica. Apoiada em estudos
que se desenvolvem concomitantemente em vários países do mundo,
inclusive no Brasil, sob a denominação de Palavras da Cidade (les
mots de la ville), Correia parece estudar as palavras da
habitação. Nessa escolha metodológica, os significados de
certas expressões triviais ao brasileiro contemporâneo se transformam
em chaves analíticas que ajudam a firmar projetos e interpretações
sobre a moradia, que muitas vezes não nos damos conta. Indo da
já referenciada noção de espaço sanitário à propalada expressão
“máquina de morar” de corbusieriana autoria, Correia mostra
como, no Brasil, essas expressões deram origem às interpretações
urbanas e domésticas singulares.
Fechando
as chaves analíticas pelas quais a habitação pode ser vista, Correia
aprofunda o debate acerca da contribuição da Arquitetura Racionalista
ao redesenho do espaço habitacional. Mas, sem se ater a uma história
focada em arquitetos-vilões historicistas e heróis-modernos, Correia
mostra debates políticos, de órgãos de classe e de profissionais
das mais variadas formações que formularam projetos e posturas
que se fizeram sentir no habitat do século XX. Explorando as contribuições
do IDORT – Instituto de Organização Racional do Trabalho – órgão
formado por empresários e engenheiros como Henrique Dumont Villares,
Roberto Mange, Armando de Salles Oliveira, entre outros, a autora
mostra o quanto termos como eficiência, organização, espaço mínimo,
redução de custos, entre muitos outros, ajudaram a criar o programa,
a imagem e a exacerbada compactação das moradias operárias e,
depois, populares do país.
Embora
a contribuição desse pequeno livro seja imensa, alguns pontos
deixam a desejar. O mais grave deles talvez seja a falta de um
capitulo à guisa de conclusão, que pudesse amarrar todos os ensaios,
e apontar, de fato, as heranças desse período importante, mas,
em grande parte, ainda desconhecido na história habitacional brasileira.
Outra lacuna sensível é a pouca quantidade de ilustrações. As
existentes se mostram adequadas ao entendimento das questões levantadas
pela autora, mas pelo fato do livro ser de fundamental relevância
a arquitetos e urbanistas, que têm no desenho uma de suas principais
formas de discurso, a economia de ilustrações prejudica a ênfase
de certas reflexões. Todavia, essas críticas não apagam a relevância
da obra, que se mostra de fundamental importância para todos aqueles
que interferem no espaço da cidade, seja desenhando casas, edifícios
ou conjuntos habitacionais, enfim, criando o habitat do brasileiro.
Nota
1
Termo adotado para designar, em português, as Company Towns
saxônicas e norte-americanas.
Fernando
Atique é arquiteto e urbanista e mestre pela USP de São Carlos.
É doutorando em História e Fundamentos da Arquitetura, na FAUUSP,
e docente dos cursos de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
São Francisco e do Centro Universitário de Araraquara / SP. É
autor do livro Memória Moderna: a trajetória do Edifício Esther
(2004), premiado pelo IAB/SP |