| Cidades
tagarelas... ou que mudas permanecem. A sociabilidade observada
nas ruas de Goitia
resenha de rossana honorato
“Edifica-se
a casa para se estar nela;
funda-se a cidade para se sair de casa e reunir-se com outros
que também saíram de suas casas”
Fernando Chueca Goitia, Breve História do Urbanismo
Na
plenitude de seus atributos, as cidades são insubstituíveis. Pode
viver-se fora delas, mas sempre contando com elas, abertas ou
fechadas...
Valores
como esses ilustram as convicções de Goitia em sua investigação
sobre as origens das formas de cidades e os modelos de civilização
a que deram vida e conduziram a complexa trajetória da humanidade
à urbanidade de nossos dias. Como faz isso, é o que pretendo agora
demonstrar, elegendo quatro das dez lições de seu livro Breve
História do Urbanismo (Lisboa: Editorial Presença, 1982),
em que desfila no pano da história tipos fundamentais de cidade
e especula anotações sobre suas manifestações na antiguidade,
no medievo e na atualidade.
Impressionado
com a “mais compreensível das obras do homem” (citando
Walt Whitman, 1982:07), é na tarefa da definição do termo que
o autor reconhece uma primeira dificuldade. Em busca deste esclarecimento,
presta atenção à forma com que as cidades do tempo deixaram marcas
no espaço, e relacionaram o morar e os espaços públicos, e consolidaram
ou não a existência e o funcionamento de ruas.
Para
isso Goitia dirige o seu olhar para o modo de vida nas cidades,
caracterizando-o segundo essenciais traços físicos decorrentes
e as recíprocas interpenetrações culturais que engendraram, como
arquivo da história, como palco da presença ativa de pessoas.
Deixando inclusive que vislumbremos o seu profundo descontentamento
com o lugar conquistado pelo insaciável monstro desintegrador
da vida de rua da cidade contemporânea: o automóvel.
Uma
série de abordagens distintas atrai o pensamento do curioso investigador
sobre as possibilidades de estudar-se a cidade: a da história,
que encontra amparo no trabalho de Spengler, certo de que a história
universal é história de cidades; a da geografia, conforme
defende Vidal La Blanche a preeminência da natureza sobre o homem,
que nela apenas organiza necessidades e desejos; a da economia,
em que Pirenne sustenta a inexistência de civilizações que promoveram
a vida das cidades sem a vigência do comércio e da indústria;
a da política, contextualizada por Aristóteles como uma
conjunção de um certo número de cidadãos; a da sociedade,
como símbolo de relações sociais integradas, conforme concebida
nos preceitos de Munford; e a da arte e da arquitetura,
em que Alberti amarrou a grandeza da arquitetura à cidade cujos
muros de proteção externassem a solidez de suas instituições.
Para
o autor, entre todas, fica explícito o valor que agrega à urbe
ao papel fundamental da praça, corroborando a cidade clássica
de Ortega & Gasset, nascida de um instinto oposto ao doméstico,
por pontuar a rua, o lado de fora, como o local para conversa,
ágora, discurso, eloqüência, política: “em rigor, a urbe clássica
não devia ter casas, mas apenas as fachadas necessárias para delimitar
uma praça... (Ortega e Gasset apud Goitia, 1982:9). E assim,
contrapondo vida doméstica e vida civil – cidades domésticas e
cidades públicas, Goitia reclama a carência de estudos que banhem
de luz a cidade de dentro das portas mediante aquela do lado de
fora. Enquanto encarece um apelo à essência definitiva da praça
para a vida da cidade, chega a afirmar que a sua inexistência
em um aglomerado urbano retira dele a condição de chamar-se cidade,
associando a identificação do termo à presença de vida exterior
e civil.
Para
ele, emerge em significância a loquacidade da cidade: a cidade
grande sala de reunião e sede da tertúlia em que se constituiu
a ágora conversadeira e promotora da vida citadina, cujo arrefecimento
funcional fez igualmente declinar o exercício da cidadania. Daí
a ênfase que dá à questão da sociabilidade, aquela capacidade
individual ou de grupos à interação social, cujas características
formais do espaço podem ou não impulsioná-la.
A
cidade antiga, precedendo a técnica industrial posterior – como
a do império romano que já herdara da grega os sistemas de instalação
de esgoto, de aquedutos, de água corrente, os balneários, os pavimentos,
os mercados etc. –, ofertou às cidades contemporâneas a contribuição
mais importante para o traçado urbano que se consolidou na memória
contemporânea.
A
aparentemente insípida cidade islâmica preconizada pela cidade-casa,
cidade lá dentro, cidade-santuário, tem a plenitude da
vida privada atormentada pelo próprio muçulmano, dividido entre
o harém e a vida ‘de relação’ que configuram a fisionomia aparente
da cidade lá fora. Compreensível fica a importância não dada à
rua e à praça da cidade muçulmana – esta última, ‘restrita’ exclusivamente
ao pátio da mesquita, espaço religioso para meditação e passivo
deleite do tempo que flui, flui, sem parecer causar vexame.
A
família da cidade muçulmana é a organização de dentro para fora,
da casa para a rua, em oposição à cidade ocidental, em que se
qeneralizou o contrário: a rua traçada condicionando a ocupação
das casas. Na cidade muçulmana, a casa prevaleceu e obrigou a
‘rua’ à acomodação tortuosa, à intimidade labiríntica, becos sem
saída. Estrutura que, inadequadamente nominada para Goitia, justifica
o caráter decisivo de seus véus – as portas da cidade. Intrigante
configuração, entretanto, pouca atenção mereceu de historiadores
da cidade.
A
cidade espanhola transparece uma intensa conciliação: a urbe latina,
loquaz, dialética e o hermetismo do harém da sociedade islâmica,
cujo modelo barroco deu forma a que o autor chama de cidade-convento.
O
que provoca a inquietude de Goitia são as questões que indagam
o caráter da vida pública para a definição de cidade, visto a
sua ausência em alguma delas. Ele busca um conceito que englobe
espécies tão diferentes, sobretudo mediante a presença de aglomerações
humanas que não constituem cidades, como as das regiões primitivas
ou as do interior da África atual ou aquelas da China posterior.
Recorre
a Splenger outra vez para corroborar a tese de uma alma da
cidade, um verdadeiro milagre que subitamente faça emergir
a espiritualidade geral da cultura, uma alma coletiva de nova
espécie, “cujos fundamentos últimos permanecerão para nós envoltos
em eterno mistério” (1982:15). Uma alma que uma vez desperta forma
um corpo visível que vive, respira, cresce, adquire um rosto peculiar,
um idioma de formas de história intensa que dá curso ao ciclo
vital de uma cultura. Para assim pensar o problema da cidade que
a primeira era industrial engendrou, consolidando publica e universalmente
seu termo à cidade mais insensata, mais sem alma e mais desintegradora
de que somos partícipes, cuja expressão formal engata a racionalidade
da quadrícula e alia o símbolo de progresso ao amontoado de gente
num lugar que se designa por um nome próprio para mero efeito
de correspondência. O que na Grécia antiga representou um triunfo
do racionalismo, em Roma e na América do Sul do século XIX converteu-se
no principal instrumento dos especuladores de terreno (1982:18).
Sem
esquecer as vantagens e possibilidades trazidas pelos novos meios
de telecomunicação emergidos da indústria, mas contra a corrente
desintegradora da cidade contemporânea, o autor continua acreditando
nos locais de reunião pública, nas praças, nos passeios, nos cafés,
nos cassinos populares, que são para ele o que fomenta o livre
encontro, a livre conversa, fundamentais ao desenvolvimento da
valorizada cidade-alma. Por isso reclama uma atenção à
reconstrução dos órgãos públicos de uma cidade.
São
algumas das questões refletidas pelo arquiteto, historiador da
arte, professor e apreciador de palavras Fernando Chueca Goitia
para tratar a história de rua: cidades de dentro das portas
e cidades de fora das portas; cidade de fachadas,
cidade de interiores, cidades sem alma, civilizações
sem cidades, insensatas cidades figurando um idioma
de imagens em nosso olhar, reclamando ao presente a ágora de agora
– um órgão da sensibilidade pública – para gerar vigorosas cidades
do lado de fora dos muros.
Exercício
apresentado à Disciplina História da forma urbana, período 2004,
1º semestre, do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano
da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE – CAC – PPGDU, ministrada
pelo arquiteto e professor doutor Geraldo Gomes.
Rossana
Honorato é graduada em Arquitetura e Urbanismo e mestre em Ciências
Sociais pela Universidade Federal da Paraíba. É aluna do Programa
de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da UFPE. É professora
de Desenho Urbano do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPB,
onde ministra a disciplina Desenho Urbano V. Foi presidente do
IAB-Paraíba e atuou em diversos conselhos de gestão nos três níveis
de governo no país. É autora dos livros Se essa cidade fosse minha
e A cidade entrevista, sobre a cidade de João Pessoa, publicados
em 1999 pela Editora Universitária da UFPB, e de diversos artigos
publicados em revistas científicas e na imprensa escrita. |