| A
revitalização das Docklands londrinas
resenha de abilio guerra
As
seculares áreas portuárias das grandes cidades européias e norte-americanas
se deterioram nos anos 60 e 70, processo induzido pelo progresso
tecnológico, em especial pela transformação do modal de transporte
de carga marítima. A adoção crescente, a partir dos anos 60, do
container para armazenagem e translado de carga – que viria a
se tornar universal em poucos anos – abriu a possibilidade de
utilização de navios cada vez maiores. A “revolução dos conteiners”
foi muito rápida. O novo sistema de transporte marítimo – navios
de grande tonelagem e transporte/armazenagem via containers
– requisitava canais e áreas de cais compatíveis, condições estas
inexistentes nos antigos portos, cuja modernização compulsória
implicava na conquista de novas áreas, cada vez mais necessária
para estocagem dos milhares – depois milhões ! – de containers.
Em
consonância com esse processo ocorre um lento esvaziamento das
áreas mais inapropriadas às novas modalidades de transporte de
carga. A competição pela primazia do comércio internacional entre
os portos americanos e europeus é outro elemento chave para se
entender a febre pela modernização. Tais transformações na economia
portuária coincidiram com a queda das atividades industriais nas
áreas portuárias tradicionais, quase sempre na área central das
cidades, que foram deslocadas para novas áreas de oportunidade
mais apartadas. A expansão do porto – e conseqüente abandono de
áreas obsoletas – e a mudança das indústrias, deixaram locais
vagos e disponíveis para outros usos, com as condições amplamente
favoráveis da excelente localização e razoável infra-estrutura
instalada.
A
nova realidade da degradação e abandono trouxe a tona uma realidade
absolutamente negligenciada durante o período de apogeu das atividades
portuárias. Os rios e baías, que durante séculos abrigaram atividades
dinâmicas que geravam substancial parte das riquezas locais e
muitas vezes nacionais, uma vez abandonados pelas atividades portuárias
tradicionais, converteram-se rapidamente em verdadeiros “muros”,
que dividiam as cidades em partes diferentes e estranhas entre
si, e apartavam a vida urbana cotidiana das águas dos mares e
rios. Zonas portuárias abandonadas e/ou obsoletas no mundo inteiro
tornaram-se peças desconectadas da malha urbana. Territórios isolados
e causadores do isolamento urbano, quando tiveram que ser trazidos
para a cena urbana novamente, agora como base material para novas
atividades citadinas, colocaram como premissa fundamental para
o enfrentamento do problema a superação do isolamento, o que apenas
seria possível com o aporte de uma nova infra-estrutura urbanística
– pontes, túneis, passarelas, avenidas, metrôs, etc. – elementos
que sequer eram cogitados anteriormente pelo simples fato que
atrapalhariam as atividades portuárias.
Trata-se
de uma cena corriqueira a partir dos anos 70 nas mais variadas
partes do mundo, comprobatória do estágio globalizado da economia
mundial, que tem no transporte de carga marítimo um elemento fundamental
no jogo de xadrez das trocas internacionais de bens de produção
e consumo. Esta foi uma realidade vivenciada por cidades portuárias
em todos os quadrantes do globo terrestre. Os portos de Boston,
Nova York, Baltimore, Roterdã, Amsterdã, Londres, Buenos Aires,
Santos e dezenas de outras cidades passaram por processos muito
similares e legaram para suas respectivas cidades territórios
degradados com problemas equivalentes. As cidades que tomaram
a frente no processo de recuperação destas áreas acabaram por
forjar procedimentos de planejamento urbano que se tornaram modelos
para as outras, o que demonstra mecanismos de globalização não
só da economia, mas também do pensamento contemporâneo. Fundamentalmente
estas áreas passaram por reconversões das atividades nas antigas
áreas portuárias, em geral optando por um mix delas (habitação,
comércio, serviços, lazer, etc.), com aportes financeiros por
parte dos governos nas suas diversas instâncias (locais, regionais
e nacionais) e da iniciativa privada. Aos governos quase sempre
coube a instalação de infra-estrutura compatível com os novos
usos. À iniciativa privada os investimentos nas edificações que
abrigariam as novas atividades. Temos aqui uma clara aproximação
com os processos de recuperação de áreas ferroviárias, aonde o
mix de atividades e a PPP – Parceria Público-Privado –
também se tornaram no sucedâneo padrão para as mazelas urbanas
resultantes da obsolescência de atividades econômicas e/ou de
infra-estruturas, em especial a de transporte de carga.
É
justamente essa semelhança nos processos de degradação e de recuperação
que têm possibilitado o surgimento em anos recentes de um sem
número de trabalhos técnicos e acadêmicos que quase sempre os
“explicam” dentro de um quadro de similitudes, quase nunca ultrapassando
as generalidades e semelhanças, muitas vezes mais aparentes do
que reais. Se muitas vezes o estilo internacional das novas edificações
tornam impossível distinguir por fotos se estão sitiadas em Londres,
Nova York, Roterdã ou Buenos Aires, por outro lado temos enormes
diferenças nos procedimentos de planejamento urbano e no encaminhamento
dos trabalhos de recuperação nas diversas cidades, diferenças
motivadas por realidades locais, aonde os âmbitos do político,
do econômico, do tecnológico e do cultural se articulam para dar
vazão a processos específicos, únicos em sua síntese histórica
e geográfica. Por detrás da uniformização arquitetônica e urbanística
temos imensas diferenças nos âmbitos realmente decisórios, que
vão de fato definir a nova apropriação do território, o seu caráter
mais ou menos democrático, mais ou menos gentil para com a população
da cidade.
A
dissertação de Lilian de Almeida dal Pian, que aborda o caso específico
da revitalização das Docklands em Londres, tem como grande mérito
inicial o fato de inscrever a experiência dentro do contexto histórico
internacional descrito acima, mas tentando a todos os momentos
descrever e interpretar os mecanismo locais que levaram a cabo,
direta ou indiretamente, o processo de reconversão. Ao invés de
entrar imediatamente nos planos urbanísticos e projetos arquitetônicos,
como é de praxe nestas ocasiões, a autora se preocupa em fazer
um retrospecto do encaminhamento político inglês, acompanhando
as alternâncias no poder entre os partidos Trabalhista e Conservador,
que têm um enorme reflexo nas políticas sociais e urbanas implementadas.
O fato sempre presente e reiterado nos textos sobre este projeto
– a coincidência entre o Governo conservador de Margareth Tatcher
e a revitalização de Docklands – ganha aqui uma profundidade inusual,
com a presença das diversas agências oficiais reguladoras ou promotoras
que se sucedem ao longo do tempo e de diversos personagens – políticos,
funcionários, técnicos, urbanistas, etc. – que contribuíram com
suas ações ou suas idéias. Tal atitude da autora, por si só, faz
com que seu trabalho se aparte das constatações apressadas de
que Docklands é apenas um exemplo perfeito e acabado do neoliberalismo
descontrolado, com resultados fracassados que expressam a ausência
de planejamento e coordenação central.
O
que vemos no trabalho de Lilian dal Pian é um quadro muito mais
nuançado, aonde tais constatações – que não deixam de ser verdadeiras
– são relativizadas por ações e encaminhamentos mais complexos,
alguns deles advindos de práticas anteriores, outros de correções
de rumo a posteri. Se é certo que na lsle of Dogs o descontrole
urbanístico permitiu uma transformação acelerada e um adensamento
formidável incompatíveis com a infra-estrutura urbana existente,
gerando severos problemas urbanos de congestão, o mesmo não pode
ser dito de outras áreas de Docklands, aonde os acertos são mais
freqüentes do que os equívocos. Em Wapping, por exemplo, vai ser
concentrado o parque gráfico londrino, com a mudança para lá dos
grandes conglomerados editoriais, demonstrando que projetos deste
porte são oportunidades para se agrupar atividades indesejáveis,
diminuindo seu impacto ambiental ou urbanístico. Habitações para
classe média e de interesse social espalhados pelas diversas áreas
são o contrapeso de dimensão local para os grandes empreendimentos
imobiliários mais conhecidos, que garantem a fama de um dos mais
importantes enclaves do capitalismo internacional. E se é fato
que inicialmente as primeiras intervenções foram negligentes com
o patrimônio industrial e com a paisagem aquática das Docklands
– chegou-se ao absurdo de se aterrar áreas de água para se obter
novos terrenos para incorporações imobiliárias –, em um segundo
momento houve uma correção de rota, com a preservação, restauro
e reconversão de galpões e armazéns, e uma utilização intensiva
das docas como suporte paisagístico e simbólico da nova área.
Tal aprendizado se reflete na mudança de atitude da LDDC – London
Docklands Development Corporation –, que migra da postura inicial
voltada para interesses do mercado imobiliário e do capital financeiro
internacional para o atendimento de demandas locais, em especial
habitacionais.
Seguramente
o processo de redesenvolvimento de Docklands é expressão do período
neoliberal hegemônico não só na Inglaterra, mas também nos Estados
Unidos daquela época, sob governo Ronald Reagan durante duas gestões.
Nesse sentido, são ali evidentes os mecanismos próprios da ação
privada muitas vezes desenfreada, movida pela busca de lucros
imediatos, o que quase sempre é incompatível com a temporalidade
urbana, que requer ações duradouras e de períodos mais largos
de tempo. O “monofuncionalismo antidemocrático” – para usar uma
expressão usada pela própria autora – só vai ser confrontado,
como não poderia deixar de ser, quando as instâncias governamentais
vão socorrer o empreendimento e aportar uma imensidão de recursos
para resolver ou ao menos diminuir o impacto negativo da especulação
imobiliária. Um custoso sistema de transporte, com trens leves
e nova linha de metrô, uma nova rede de avenidas e obras de transposição
– pontes, passarelas, etc. – foram construídos em Docklands quando
as magníficas torres da Isle of Dogs já estavam funcionando. Tal
inversão cronológica das inaugurações de novas edificações e infra-estrutura
custou imensamente caro para a cidade de Londres e para o próprio
país, uma vez que a cidade ficou acéfala durante parte substancial
do período, com a eliminação da figura do prefeito por parte de
Margareth Tatcher. Se tudo isso é verdade, também é verdade que
diversos outros mecanismos mitigadores desta custosa aventura
também estiveram atuantes e também merecem a atenção de Lilian
dal Pian.
Outros
aspectos menos louváveis da dissertação precisam ser apontados.
Contrariando Umberto Eco, que em seu divertido livro “Como se
escreve uma tese” prescreve que um pesquisador deve sempre escolher
um objeto de pesquisa acessível, Lilian dal Pian incorre no enorme
risco de falar sobre uma realidade distante, separada por um Oceano
inteiro. Em parte, o risco é minorado pelo fato biográfico de
a autora ter residido na Inglaterra por alguns anos, o que facilita
sua compreensão dos encaminhamentos políticos, das terminologias
técnicas e da localização das áreas envolvidas (familiaridade
excessiva, que a leva ao esquecimento de melhor explicar estas
últimas ao leitor). Mas a distância fica intransponível quando
o problema é o acesso às fontes primárias e à documentação iconográfica.
Há, sem dúvida, um excesso de aposta na documentação disponibilizada
na rede Internet, quase sempre caracterizada por limitações técnicas
e culturais. Não poder acompanhar com fotos, desenhos, croquis
e mapas diversas das explicações contidas no corpo do texto é
uma frustração freqüente para o leitor mais curioso.
São
detectáveis algumas passagens excessivamente rápidas, que deixam
o leitor ignorante sobre aspectos pontuais, mas relevantes. Não
se sabe com precisão o que seria, por exemplo, a DLR – Docklands
Light Railway, tanto no que diz respeito à tecnologia adotada,
como sua relação com o meio urbano (trilhos e estações, em especial).
Também é um mistério a estrutura burocrática e administrativa
da “Autoridade Local”, figura importante nos encaminhamentos das
decisões urbanísticas tanto no momento aonde inexistia a figura
do Prefeito, como no final do processo, após a extinção da LDDC,
quando assume o controle administrativo e legal dos projetos de
revitalização. É inevitável a curiosidade sobre as características
urbanísticas do apenas mencionado projeto original capitaneado
por Gordon Cullen, que acabou sendo abandonado antes mesmo do
início da revitalização da área. Nos damos conta também, durante
a leitura, que algumas comparações com projetos análogos, levados
a cabo em outras cidades portuárias, tornariam ainda mais claros
as positividades e limitações das obras implantadas nas Docklands
londrinas. Por fim, é flagrante a ausência de uma abordagem mais
crítica e conceitual no momento da descrição dos projetos arquitetônicos
e urbanísticos, subtração que tem como sucedâneo uma exagerada
adesão aos argumentos oficiais presentes em algumas descrições.
Mesmo
considerando os problemas e limitações apontados, o balanço é
positivo e seguramente a dissertação é uma boa contribuição para
uma discussão “da hora”, cuja significação e importância cresce
à medida que se tornam cada vez mais fortes as preocupações ambientais
e históricas nos projetos de intervenções urbanísticas atuais.
O
presente texto é baseado na argüição proferida durante a Banca
de Mestrado, ocorrida na FAU Maranhão no dia 29 de abril de 2005.
Além do articulista, compunham a banca os Professores Doutores
Lucio Gomes Machado (orientador) e Rafael Perrone, ambos professores
da FAU-USP.
Abilio
Guerra, editor do Portal Vitruvius, professor da FAU PUC-Campinas,
Belas Artes e Escola da Cidade |