| Jane
Jacobs : olhando as cidades, percebendo as trevas
resenha de lilian fessler vaz
Em
1961 Jane Jacobs publicou Morte e Vida das Grandes Cidades
Norte-americanas, abalando os princípios do urbanismo e do
planejamento urbano moderno. Aos 88 anos, Jacobs volta à cena
com um livro polêmico e extremamente atual. Com sua atitude corajosa
e enfoque crítico, utilizando-se de uma linguagem clara e de conceitos
compreensíveis, a autora criou uma obra acessível a um vasto público
interessado em questões contemporâneas. Dark Age Ahead
nos alerta que a cultura norte americana, e, por extensão, a cultura
ocidental, se encontra no limiar de uma nova Idade das Trevas.
Muitos
povos neste planeta, e não apenas os que constituíram o império
romano, assistiram ao declínio de suas culturas e ao mergulho
em uma Idade das Trevas. Consta que esta fase é anunciada pelos
quatro cavaleiros do apocalipse – a fome, a guerra, a peste e
a morte, aos quais Jane Jacobs acrescenta mais um: o esquecimento.
Com a decadência da cultura e a perda de memória, ou melhor, com
a amnésia em massa, os saberes e os fazeres dos povos desaparecem.
E o que se perde, não se recupera mais.
Muitos
países procuram preservar suas culturas. Registram e arquivam
imenso volume de dados sobre as culturas, através dos mais diversos
meios – livros, fotografias, filmes, discos, ou outros, em ambientes
fechados e protegidos, buscando assegurar a sua permanência. Mas
a sensação de segurança assim obtida é falsa: as culturas são
vivas e complexas, se transmitem e são assimiladas essencialmente
através da palavra falada, do exemplo observado, da experiência
vivida, da educação recebida.
A
partir destas considerações iniciais, Jacobs aponta indícios das
trevas que se avizinham. Embora ela não faça referências específicas
ao mal estar da pós-modernidade, à desumana polarização social,
à crescente violência urbana, ou à degradação do meio ambiente,
estas percepções da contemporaneidade permeiam todo o livro. Para
a autora, os sinais da decadência podem ser percebidos em cinco
pilares sobre os quais se apóia a cultura norte-americana: comunidade
e família, educação superior, ciência e tecnologia, tributação
e governo, e auto-regulação profissional. A degradação de cada
um destes pilares é analisada e discutida em um capítulo específico.
Apesar
destes pilares não serem, aparentemente, temas dos estudos urbanos,
a argumentação se desenvolve essencialmente em torno das transformações
do espaço e da vida urbana, como no segundo capítulo, sobre a
dissolução da família e da comunidade, e no quarto capítulo, sobre
o abandono da ciência. Vale a pena observar mais detidamente estes
pontos.
O
processo de degradação desta duas esferas da vida humana – família
e comunidade – é paralelo ao aumento crescente do custo da habitação
e das dificuldades de manutenção de uma moradia. Desde os anos
30, nos Estados Unidos e no Canadá, a renda média de uma família
era suficiente para pagar o custo da compra de uma casa ou o aluguel
de um apartamento. Mas, partir dos anos 70, as estatísticas mostravam
que apenas 10% das famílias dispunham de renda para a compra de
uma casa “média”. Os 90% restantes adotavam diferentes meios para
reduzir as despesas domésticas e aumentar a renda familiar, sendo
o principal, lançar as mães e as esposas no mercado de trabalho.
Mas as despesas domésticas aumentaram quando uma nova necessidade
se impôs: o automóvel, devido ao declínio ou desaparecimento dos
transportes públicos nos subúrbios. Nas cidades que se renovavam,
e nos novos subúrbios, a distância entre o local de moradia e
de trabalho se ampliava crescentemente, obrigando as famílias
a se utilizarem do automóvel não somente para o trabalho mas para
os mais diversos deslocamentos.
Segundo
Jacobs, o maior destruidor das comunidades americanas não foram
nem as drogas nem a televisão, mas o automóvel. A modernização
por meio da renovação urbana destruiu comunidades ao arrasar bairros
antigos para a passagem de highways e expressways.
Estes, por sua vez, induziam a expansão, com a construção de subúrbios
que se alternavam com shopping centers. Mas poucas foram
as comunidades novas que se formavam, porque junto com a eliminação
das antigas comunidades desaparecia também a memória do que haviam
sido. Além disso, o espaço público já não propiciava mais o encontro
de pessoas, um ponto fundamental na formação e na ação das comunidades.
Pois muitas das demandas das populações são providas pelas comunidades,
sendo as mais importantes aquelas totalmente intangíveis e informais,
e que respondem à necessidade de contatos pessoais, de pertencimento
a grupos e redes, de comunicação com o outro.
O
impulso decisivo para este processo destruidor foi dado através
dos persistentes ataques corporativos aos sistemas de transportes
públicos, uma estratégia comandada pela General Motors. A autora
cita ainda nomes de políticos, de empresas e de construtores ao
relatar passagens em cidades americanas que viram, no decorrer
de décadas, seus eficientes sistemas de bondes, e depois, de ônibus
elétricos, serem desmantelados (e a memória de sua tecnologia,
perdida), a favor da disseminação irrestrita do automóvel particular.
Este
ponto é retomado no quarto capítulo, em que Jacobs usa a engenharia
de tráfego como um dos exemplos do abandono da ciência e da traição
ao pensamento científico. Apesar do seu status científico, a engenharia
e a gestão do tráfego são responsáveis não somente pela destruição
das comunidades, mas também pela poluição do meio ambiente e pelo
desperdício de tempo, de terra e de energia. Jacobs relata alguns
movimentos de resistência de moradores à construção de expressways
ou à modernização do tráfego em bairros residenciais, alegadas
como necessidades inegáveis e soluções irrecusáveis. Mesmo depois
de pesquisas terem mostrado que a construção de novas vias gera
mais tráfego, os engenheiros de tráfego mantiveram durante décadas
o mesmo discurso, recusando-se a admitir as evidências. Da mesma
maneira, nos outros exemplos, médicos e economistas não compreendiam
fenômenos ocorridos porque não conseguiam se livrar de pensamentos
pré-elaborados nem ver o que a cidade e a vida dos seus moradores
lhes apresentavam.
Os
exemplos ilustram não somente os desvios do pensamento científico,
mas também uma das conseqüências da educação superior. Este é
o tema do quarto capítulo, que mostra como o ensino foi sendo
menosprezado, e o credenciamento, privilegiado. Este é o termo
usado pela autora para designar o sistema de produção de títulos
e diplomas, vistos como garantia de trabalho e segurança no futuro.
A ilusão do pleno emprego incentivou a proliferação de escolas
superiores e de universidades; mas, à medida que o sistema de
produção de diplomas se expandia em quantidade, a educação declinava
em qualidade.
O
quinto capítulo mostra que há uma crescente desconexão entre os
recursos recolhidos através de taxas e impostos e o atendimento
às necessidades dos seus pagadores. À medida que os princípios
da subsidiaridade e da responsabilidade fiscal eram abandonados,
que as políticas neo-conservadoras, as paracerias público-privadas,
e as reformas econômicas demandadas pelo FMI se impunham, novos
critérios para a distribuição de recursos eram adotadas. A crescente
desassociação entre pagamento de tributos e o seu retorno como
provisão das demandas da população é analisada no caso canadense,
refletindo-se na degradação da vida urbana, através do crescente
encarecimento da moradia, da proliferação dos sem-teto, do agravamento
da poluição, da decadência dos mais diversos serviços públicos.
Além da irresponsabilidade dos governos, Jacobs critica a irresponsabilidade
de algumas categorias profissionais, como os da área contábil,
tema do sexto capítulo.
O
tema da decadência de uma cultura permite inúmeras abordagens,
a partir dos mais variados aspectos. Escolher a ruína dos cinco
pilares da cultura norte-americana é certamente um enfoque ousado
que dará margem à críticas, como a de que as transformações apontadas
não necessariamente levam à uma nova Idade das Trevas. Mas, no
que diz respeito à cidade, à vida urbana e à cultura urbana, o
olhar e a leitura de Jane Jacobs é fundamental para todos que
se interessam pelos estudos urbanos.
É
justamente para este segmento de leitores que uma outra leitura
se destaca: uma crítica vigorosa ao modo de urbanização norte-americano,
ao sprawl, e, por extensão, à cidade difusa, suburbana,
genérica. Como o objeto privilegiado de observação de Jacobs é
a cidade, e nela, o ponto mais crítico é a expansão suburbana,
suas causas e conseqüências, delineia-se um discurso contra esta
modalidade urbana contemporânea, que se explicita no sétimo capítulo,
em que Jacobs indica como desfazer os círculos viciosos que alimentam
este processo de expansão.
A
crítica ao sprawl se apresenta habitualmente confrontando
a cidade dispersa à cidade histórica, central, consolidada, apontando
as vantagens desta sobre aquela. Apontam-se na cidade difusa a
falta de historicidade, de identidade, de centralidade, de espaços
efetivamente públicos, assim como a predominância do transporte
particular e o consumo excessivo do território, com a perda de
espaços verdes. Novamente Jane Jacobs surpreende com um discurso
diferente, que mostra a formação dos subúrbios, os diferentes
interesses envolvidos neste processo, o modo como as ações engendradas
modificaram o espaço e o cotidiano das populações moradoras, seus
corações e suas mentes. Percebendo e articulando o material e
o simbólico, buscando elos e tecendo conexões, dando sentido a
fatos, fenômenos e processos aparentemente díspares, a autora
interpreta e explica transformações da cidade e da cultura urbana.
Um
novo marco da bibliografia sobre a cidade? Ou apenas um novo livro
saudosista? Ingênuo? Pessimista? Superficial? Só com o tempo poderemos
avaliar o valor do alerta de Jane Jacobs. E o tempo, ao menos
durante os 43 anos decorridos da publicação de Morte e Vida das
Grandes Cidades Norte-americanas, só fez mostrar a sensibilidade,
a atualidade e o acerto do pensamento desta jornalista apaixonada
pelas cidades.
Resenha
publicada originalmente na Revista Brasileira de Estudos Urbanos
e Regionais, v 6, nº I (maio 2004), ANPUR, 2005, p. 123-125.
Lilian
Fessler Vaz é Doutora pela FAU USP, pesquisadora CNPq, e professora
da FAU UFRJ, onde atua nos cursos de graduação e de pós-graduação
em urbanismo (PROURB). Publicou Modernidade e Moradia - uma história
da habitação coletiva no Rio de Janeiro, séculos XIX e XX, História
dos bairros do Rio de Janeiro (4 volumes, em co-autoria), além
de vários capítulos de livros e artigos sobre história urbana,
cultura urbana, habitação e urbanismo no Rio de Janeiro. |