| Uma
contemporaneidade histórica: a arquitetura em discussão
resenha de ruy ohtake
1.
Visitei,
quando ainda estudante, a casa mais conhecida de Le Corbusier
a Ville Savoie (projeto de 1929). Uma emoção longa e muda foi
a aproximação a essa casa, no topo de uma colina. Força plástica
entre a serena proporção do 1º pavimento e a volumetria do terraço-jardim
da cobertura, a quase pictórica relação entre os cheios e vazios,
os pilotis a lhe conferirem uma surpreendente leveza e a rampa
interligando os três pavimentos, um passeio pelos espaços da casa
e o vislumbre da natureza que a envolve. Pouco antes dessa viagem,
havia lido Espacio, tiempo y arquitectura de Sigfried Giedion
(1888–1968), edição espanhola. Leitura que me permitiu compreender
a Casa Savoie, além daquela emoção imediata: aí estavam em pilares,
concreto, vidro e vazios, os cinco postulados do Modernismo propostos
por Le Corbusier, e mais ainda a conceituação de espaço-tempo,
ao observar que a estrutura independente da casa permitia que
o cubo elevado do pavimento superior, além de vazado, também tivesse
vazios em várias direções. Constituiu a leitura básica na formação
do arquiteto daquela época (final da década 50), ao lado de Bruno
Zevi (Saber ver arquitetura), Stamo Papadaki (Work in
progress: Oscar Niemeyer), Nicolau Pevsner (Pioneers of
modern design), Le Corbusier (Obras completas), Lewis
Mumford (Arte e técnica), entre outros.
Decorridos
pouco mais de quarenta anos, é lançada agora a edição em língua
portuguesa de Espaço, Tempo e Arquitetura. Nesse intervalo,
a arquitetura conheceu extraordinária produção, pontilhada de
diversificadas proposições, quase inimagináveis no período anterior,
época da edição inicial do livro. Daí se compreender porque Giedion
acrescentara mais de cem páginas a essa primeira edição (1941),
em sucessivos adendos e capítulos até 1967 (ele viera a falecer
em 1968), em função dos novos movimentos que a arquitetura começa
a experimentar no pós-guerra. O próprio subtítulo colocado por
Giedion, “desenvolvimento de uma nova tradição”, denuncia seus
propósitos e sua instigante percepção.
2.
Adendo
significativo é dedicado ao arquiteto dinamarquês Jorn Utzon (Ópera
de Sidney, 1957), eleito por Giedion como o representante da então
terceira geração de arquitetos contemporâneos, que surgia a partir
da década 50, procurando, afirma ele, consolidar as tendências
escultóricas na arquitetura. Ao referir-se, com comentários entusiasmados
e pormenorizados à Ópera de Sidney, salienta que “ele (Utzon)
une de maneira inovadora duas intenções separadas: o exterior
com maravilhosas abóbadas acopladas e o interior, espaço independente
e funcional de uma ópera, inserido sob as abóbadas” e que “após
meio século de desenvolvimento, a arquitetura contemporânea (década
60) inaugura um novo capítulo promissor para o futuro” (p. 701-707).
Sem dúvida, um dos pontos altos do texto. A inquietação intelectual
de Giedion o fez perceber, já naquela época, os “futuros caminhos
da arquitetura”, que vieram a se confirmar, despontando, a partir
da década 80 trabalhos de Jean Nouvel, Frank Gehry, Zaha Hadid,
Renzo Piano, Calatrava, etc. (1)
3.
Giedion
sempre considerou que o historiador de arquitetura devesse manter
estreito contato com as concepções contemporâneas e que, ao estar
impregnado pelo espírito de sua época, pode detectar aspectos
do passado desapercebidos pelas gerações anteriores. Indiferente
ao chamado distanciamento histórico, participou intensamente das
atividades dos arquitetos de sua época, sem receio que isso pudesse
ser uma ameaça à sua imparcialidade, à sua dignidade, à sua amplitude
de visão. Com essa perspectiva, selecionou mestres da arquitetura,
alguns deles fora do Movimento Modernista, examinando o cenário
cultural, econômico e social que envolveu cada arquiteto cujas
obras receberam magistrais e perspicazes comentários, permeando
de proposições conceituais a sutis pormenores. Uma das razões
que o tornaram um dos autores mais lidos no ambiente arquitetônico.
De
Frank Lloyd Wright (1867–1959) coroando uma densa narrativa abrangendo
o início do desenvolvimento industrial norte-americano e passando
pela Escola de Chicago, o autor observa com entusiasmo, o longo
e contínuo exercício do arquiteto e provoca: “a maleabilidade
dos espaços internos concebidos por FLW trouxe vida, movimento
e liberdade ao corpo rígido e inerte da arquitetura moderna”.
Seria um alerta? Giedion apesar de reconhecer em Wright o arquiteto
mais dotado de agudeza de espírito, um gênio com uma vitalidade
de inexplicável riqueza, procura entender a ausência de seguidores
de sua arquitetura, entre outras razões, pelo fato de a arquitetura
norte-americana naquela época estar corroída pelos modismos clássicos
e góticos, fato esse que se repete em várias cidades brasileiras,
notadamente em São Paulo. Da “pequena e encantadora“ Casa Roberts
(1907), Giedion destaca que a planta tipo “moinho de vento” possivelmente
tenha influenciado Mies van der Rohe. Do conhecido projeto dos
escritórios Johnson, o autor faz uma indagação que já é a resposta:
“por que um local de trabalho não poderia uma vez só se basear
na poesia?” citando elogiosamente os espaços descomunais e os
pilares em forma de cogumelo. Fica no ar, agora, uma interrogação:
o Museu Guggenheim (1943–1959), considerado por muitos como a
obra mais significativa de Wright, não recebeu nenhuma referência.
Le
Corbusier (1887–1964), pela lição de idealismo, pela convicção
profissional, é o arquiteto celebrado no livro. Ao observar que
o poder de Corbusier residiu na sua força arquitetônica, enaltece
o grande espetáculo de arquitetura, referindo-se ao terraço-jardim
da cobertura de Marselha (1947), exalta Chandigarh (1956), que
considera sua maior ousadia arquitetônica, atenta para a incorporação
do equilíbrio flutuante das forças, leveza e transparência nas
dezenas de casas, em La Tourette sente que todo o edifício exala
uma ardente vitalidade, destaca a abordagem escultural de Ronchamp,
identificando-a como uma aspiração da arquitetura contemporânea,
e aponta uma direção para os arquitetos: “Le Corbusier expressa
tridimensionalmente à imaginação social”, aludindo-se à Unidade
de Habitação de Marselha, onde o arquiteto levou ao 7º andar do
edifício, uma rua com lojas, alimentação, estúdios e ateliês,
passeio público, “procurando com isso reconstruir uma relação
rompida entre o indivíduo e o coletivo”.
Desde
o princípio, Le Corbusier manifestava a irresistível força do
gênio e, além de formular já em 1926 os célebres cinco princípios
do Movimento Modernista, converteu a estrutura independente, ou
o esqueleto de concreto, em linguagem de arquitetura, abrindo
enormes possibilidades de desenhar volumes, espaços e vazios,
e a isso chamou de “arquitetura espiritual”, da qual a Ville Savoie
constitui-se no mais belo e puro exemplo. Giedion ao lhe atribuir
dois talentos, o de saber reduzir (sem simplificar) um problema
complicado a elementos básicos e o de sintetizar esses resultados
com clareza primorosa, evidencia seu trabalho indissolúvel, como
arquiteto, urbanista, pintor, escultor, poeta e pensador, e poder-se-ia
mencionar, a mão aberta em Chandigarh, as texturas das paredes
de Cambridge, as cores das paredes das sacadas de Marselha, de
onde, anota Giedion, “Le Corbusier capturou na moldura arquitetônica
a alma da paisagem de Provence, que Cézanne foi capaz de apreender”,
os baixo-relevos de Firminy, os vitrais de Ronchamp, a concepção
do Modulor. Essa a personalidade que, não sem razão, recebeu mais
de 300 citações ao longo da narrativa de Giedion.
Com
relação à escolha do projeto para o edifício da ONU (1947) em
New York, cabe um reparo: a preferência unânime, entre os 10 arquitetos
convidados que participaram do concurso, recaiu sobre o projeto
de Oscar Niemeyer, o qual concordou, posteriormente, em deslocar
a posição do bloco da Assembléia, atendendo ao velho mestre Le
Corbusier. Portanto, diferente do longo relato apresentado por
Giedion.
Le
Corbusier desenvolveu obras de maior porte nos últimos quinze
anos de vida, e atravessava uma fase de intenso trabalho, quando
veio a falecer, deixando como legado, seu idealismo, suas influências
que se espraiaram a todos os continentes e um expressivo número
de seguidores. Lê-se o brado lancinante de Giedion: “arrancaram
o lápis de sua mão”.
4.
Duas
omissões: a estranha ausência de Oscar Niemeyer, que já tinha
construído o conjunto de Pampulha (1943), a residência de Canoas
(1956), as obras principais de Brasília (inauguradas em 1960),
além do edifício do Ministério da Educação, este coordenado por
Lúcio Costa, com croquis inicial de Le Corbusier e desenvolvido
pela equipe brasileira, que se constitui num dos grandes marcos
do Modernismo. Nota-se, igualmente, a ausência de observações
mais desenvolvidas sobre Brasília (1960), cujo Plano Piloto abriga
500.000 habitantes, e ainda mais quando o próprio Giedion, no
capítulo “Planejamento Urbano” reconhece que na cidade moderna
somente fragmentos foram realizados. A rápida referência à praça
dos Três Poderes, mesmo com duas ilustrações, parece ser insuficiente.
5.
Antes
de abordar a arquitetura do século 20, Giedion abre três capítulos,
remetendo ao Renascimento até o século 19, onde vários aspectos
são analisados sob sua lente contemporânea, e aludindo-se, por
exemplo, ao Capitólio de Roma, observa que um grande artista como
Michelangelo é capaz de criar forma artística de sua fase histórica,
bem antes que esta fase tenha começado a tomar forma tangível.
Analisa, no início da industrialização, o uso do ferro e do aço
na arquitetura, e também o do concreto armado, e o autor se refere
a Eiffel e sua emblemática Torre a níveis técnico, estético e
emotivo, e a Maillart com as lajes cogumelo e as surpreendentes
pontes. Antes de chegar à arquitetura contemporânea, não deixa
de saudar Van Der Velde e Victor Horta pelos esforços em retirar
os enfeites que mascararam a arquitetura conservadora que dominou
a Europa no século 19, e segundo Giedion, restabelecendo a “moralidade
na arquitetura”.
Nos
capítulos dedicados ao urbanismo, fica clara a dificuldade, na
Europa, de se concretizarem projetos urbanísticos no período em
torno da 2ª Guerra Mundial, e Giedion crava uma sentença: “o futuro
da arquitetura está indissoluvelmente ligado ao planejamento urbano”.
Por isso, sente-se, em seus comentários, a ausência de Brasília,
inaugurada antes da 4ª edição. A recuperação econômica dos países
europeus, principalmente a partir da década 80, e o autor já falecido,
possibilitou importantes intervenções, em Barcelona, Berlim, Lisboa,
permitiu as grandes obras de Mitterand em Paris, e mais recentemente
verifica-se o gigantesco “boom” das cidades chinesas.
6.
Hoje,
quando se observa uma retomada, denominada por críticos de arquitetura,
de Modernismo Tardio, torna-se muito oportuno o lançamento da
edição em língua portuguesa de Espaço, Tempo e Arquitetura,
que mereceu uma criteriosa apresentação de Ana Luiza Nobre. Cabe
ressaltar o alcance do texto de Giedion, ao observar criticamente
a educação de hoje, direcionada à especialização cultural enquanto
a educação das emoções é negligenciada (p. 908), de modo que se
chega ao paradoxo curioso de que sentir, atualmente, se tornou
mais difícil do que pensar, e arremata: “nossa consciência cultural
pode despertar repentinamente, porém não sem antes um desejo intenso
de uma mudança interior e jamais sem uma preparação direcionada
para o futuro”.
Nota
1
Aqui no Brasil, o professor e crítico Agnaldo Farias foi o precursor
na ênfase a esses novos conceitos da arquitetura contemporânea.
Texto
publicado originalmente no “Caderno Mais” do jornal Folha
de São Paulo, em 17 abr. 2005, a pedido do corpo editorial.
Ruy
Ohtake é arquiteto. |