| Do
especular ao espetacular
resenha de paola berenstein jacques
Espelho
das Cidades reúne
dois livros distintos de Henri-Pierre Jeudy. A decisão de juntá-los
em um só volume deveu-se a sua evidente complementaridade. La
Machinerie Patrimoniale (A maquinaria patrimonial) é uma análise
crítica da questão patrimonial urbana atual, e Critique de
l’esthétique urbaine (Crítica da estética urbana), um questionamento
sobre a representação simbólica das cidades contemporâneas.
O
autor trata de processos distintos, que podem ser chamados de
patrimonialização e estetização urbanas, mas que fazem parte de
um mesmo processo contemporâneo e mais vasto que chamo de espetacularização
das cidades. Este processo, por sua vez, é indissociável das novas
estratégias de marketing, ou mesmo do que podemos chamar
hoje de branding urbano, ditas de revitalização, que buscam
construir uma nova imagem para as cidades contemporâneas que lhe
garantam um lugar na nova geopolítica das redes internacionais.
Na lógica contemporânea de consumo cultural, a cultura passou
a ser concebida como uma simples imagem de marca ou grife de entretenimento,
a ser consumida rapidamente. Com relação às cidades, o que ocorre
não é muito diferente: a competição, principalmente por turistas
e investimentos estrangeiros, é acirrada e os políticos se empenham
para melhor vender a imagem de marca de suas cidades.
Nas
políticas e nos projetos urbanos contemporâneos, principalmente
dentro da lógica do planejamento estratégico, existe uma clara
intenção de se produzir uma imagem singular de cidade. Essa imagem,
de marca, seria fruto de uma cultura própria, da dita “identidade”
da cidade. Paradoxalmente, essas imagens de marca de cidades distintas,
com culturas distintas, se parecem cada vez mais. Essa contradição
pode ser explicada: cada vez mais as cidades precisam seguir um
modelo internacional extremamente homogeneizador, imposto pelos
financiadores multinacionais dos grandes projetos urbanos. Este
modelo visa basicamente o turista internacional – e não o habitante
local – e exige um certo padrão mundial, um espaço urbano tipo,
padronizado. O modelo de gestão patrimonial mundial, por exemplo,
segue a mesma lógica de homogeneização: ao preservar áreas históricas,
de forte importância cultural local, utiliza normas de intervenção
internacionais que não são pensadas nem adaptadas de acordo com
as singularidades locais. Assim, esse modelo acaba tornando todas
essas áreas – em diferentes países, de culturas das mais diversas
– cada vez mais semelhantes entre si. Seria um processo de museificação
urbana em escala global: e os turistas acabam visitando as cidades
do mundo todo como se visitassem um único museu.
Para
Jeudy, a cidade se tornou o principal alvo dos cuidados patrimoniais
e por esta razão passou a sofrer cirurgias plásticas ou
liftings. Sua restauração permanente é o espelho atual do
porvir das sociedades contemporâneas. A conservação patrimonial,
muitas vezes obsessiva, corre o risco de petrificar a própria
cidade, que se transforma assim em um museu de si mesma. E prevalece
o princípio da reflexividade: princípio por excelência da gestão
urbana, baseado na idéia de que uma sociedade tem melhores condições
de gestão quando se vê refletida em seu próprio espelho. Espelho
este que seria tanto das cidades quanto das sociedades contemporâneas.
A
noção de reflexividade é, para o autor, um modo determinante de
preservação da ordem simbólica de uma sociedade. Mas essa preservação
se tornou mundial, “globalizada”. O que interessa é a forma pela
qual um certo enquadramento simbólico assegura a transmissão de
sentido. A questão patrimonial se torna cada vez mais um problema
de transmissão de sentido. O enquadramento simbólico supõe uma
determinada gestão das representações comuns de uma sociedade
ou de uma cultura. E a transmissão de sentido se vê, por vezes,
representada como uma ordem de transmissão. Esta ordem de transmissão,
por sua vez, está cada vez mais integrada a um processo, que seria
o próprio processo de reflexividade. A lógica patrimonial conduz
a uma apologia da reflexividade, ou seja, um estímulo contínuo
de se olhar no próprio espelho. O princípio de reflexividade,
um dos motores da lógica patrimonial, pode evidentemente provocar
efeitos de saturação, como toda longa observação no espelho. Pois
a reflexividade patrimonial se desenvolve a partir de um certo
exibicionismo cultural: tudo está à mostra, tudo se tornou visível,
até mesmo super visível, ou seja, o especular passou a ser espetacular,
principalmente nas cidades contemporâneas.
Torna-se,
pois, de fato, cada vez mais urgente, a respeito das cidades contemporâneas,
um questionamento mais complexo e crítico da noção de patrimônio
cultural e das práticas de intervenção urbanas que lhe são tributárias.
Henri-Pierre Jeudy busca nos dar ferramentas teóricas para refletir
sobre questões bem atuais. O que são exatamente os patrimônios
urbanos, ou os ambientes culturais contemporâneos? Em que medida
estes devem ou não ser preservados, ou ainda, como se diz, “revitalizados”?
Qual o sentido da atual museificação urbana (transformação da
cidade em museu)? E o que podemos dizer do uso contemporâneo que
se faz da cultura como estratégia principal dos novos projetos
ditos de revitalização urbana? O que quer dizer da atual "musealização"
(proliferação de novos museus ou centros ditos culturais) que
se produz nas cidades globalizadas? Qual o sentido desta estetização
generalizada dos modos de vida? A nova produção artística que
passa a ter novas funções sociais, além daquelas puramente estéticas,
ainda pode ser considerada “arte”? E ainda, o que podemos pensar
sobre o novo papel dos artistas, contratados pelo Estado, para
“salvar” espaços públicos considerados “problemáticos”? E qual
seria o novo papel do arquiteto-urbanista diante desses processos
urbanos contemporâneos?
Nas
últimas décadas, vêm-se acentuando em todo o mundo iniciativas
que desencadeiam processos que podem ser classificados como uma
"culturalização" das cidades contemporâneas. Essas intervenções
– que tendem sempre a uma espetacularização urbana – muitas vezes
se iniciam com uma patrimonialização das próprias cidades, com
vistas a uma revitalização urbana que possibilite sua efetiva
inserção na competitiva rede global das cidades turísticas.
A
noção de Patrimônio Cultural Urbano – e seus conceitos correlatos,
historicamente construídos – é hoje tratada como se fosse algo
natural, como se a conservação patrimonial se desse quase por
instinto, e esta “naturalização”, inicialmente conceitual, se
rebate nos próprios procedimentos técnicos e práticos de intervenção
e preservação dos patrimônios urbanos. Assim se dá uma “naturalização”
dos procedimentos técnicos, decorrente da naturalização das noções
conceituais, que se tornou tão intensa a ponto de construir um
pretenso consenso entre os discursos teóricos, práticos, institucionais
e políticos sobre a questão: “a preservação é uma prioridade da
gestão urbana”.
A
preservação do patrimônio urbano destaca-se hoje como uma das
principais estratégias para a revitalização de certas cidades.
Os casos orientais, principalmente das cidades japonesas – onde
a questão do patrimônio não tem tanta importância, uma vez que
as tradições ancestrais se mantêm vivas no cotidiano da população
– poderiam ser vistos, como sugere Henri-Pierre Jeudy, como um
contraponto aos casos europeus, ou seja, à atual museificação
e petrificação das cidades européias, que chegam a ser consideradas
cidades mortas. O caso brasileiro parece estar entre esses dois
“modelos”: patrimonialização (européia) e inexistência da noção
de patrimônio (oriental), muito embora os procedimentos técnicos
e práticos sejam, em sua maioria, uma simples importação do savoir-faire
europeu.
Pensar
em outra forma de intervir torna-se, então, urgente, diante da
tensão atual entre as forças de preservação e de destruição, que
têm como principal palco de batalha as cidades contemporâneas
globalizadas. No Brasil, os projetos de revitalização urbana de
caráter patrimonial, realizados por intermédio da conservação
do Patrimônio Cultural, vêm-se multiplicando em diferentes cidades
consideradas históricas. A maior parte desses projetos repete
a mesma fórmula, sem questionamento crítico: patrimonialização,
estetização, espetacularização, padronização dos espaços, e o
que seria mais grave, gentrificação (expulsão dos moradores mais
pobres das áreas de intervenção que recebe moradores mais abastados
ou novas funções elitizadas).
O
projeto, dito de revitalização, do Centro Histórico de Salvador
(Pelourinho), por exemplo, literalmente “limpou” o sítio histórico
ao expulsar seus habitantes e suas respectivas práticas cotidianas
populares e substituí-las por simulacros culturais turísticos.
O antigo centro, tombado pela UNESCO como patrimônio mundial da
humanidade, vem sendo restaurado desde 1992 (hoje na 7a
etapa, com auxílio do BID, programa Monumenta), através de um
processo de patrimonialização – restauração de fachadas, do espaço
público (muitas vezes criados em antigos quintais das casas coloniais)
– de mudanças de uso e de gentrificação – com a remoção de mais
de 2000 famílias para dar lugar a restaurantes, bares e lojas
de souvenirs para turistas – que faz parte de uma agenda
maior, de um plano estratégico da agência estadual de turismo.
O plano, que visa vender o produto cultural “Pelourinho” para
turistas – conta ainda com uma programação de animação cultural
nas praças criadas: “Pelourinho Noite & Dia”- que visa exatamente
dar nova “vitalidade” ao local. A nova vitalidade inventada para
turistas, com baianas fantasiadas para fotos e rodas de exibição
de capoeira regional, é totalmente artificial, cenográfica. O
projeto faz parte de um contexto político específico, mas se insere
em uma estratégia de marketing genérica que visa construir
uma nova imagem urbana (no caso, da primeira capital do país),
que estaria a princípio ancorada na valorização da sua “identidade”
cultural singular.
Espelho
das cidades é uma excelente contribuição no sentido de se
tentar desnaturalizar, através de um questionamento teórico-crítico,
algumas noções e conceitos ligados tanto ao processo de patrimonialização
quanto ao de estetização das cidades contemporâneas, cidades globalizadas,
cada dia mais padronizadas e uniformizadas. Uma das maiores contribuições
deste livro estaria portanto no questionamento dos atuais projetos
urbanos contemporâneos, ditos de revitalização urbana, que vem
sendo realizados no mundo inteiro segundo uma mesma estratégia
– genérica, homogeneizadora e espetacular – de marketing
ou ainda de branding (mais recente substituto contemporâneo
do planejamento) urbano. Henri-Pierre Jeudy busca ir além da simples
crítica `a espetacularização urbana contemporânea, hoje já recorrente
no meio acadêmico, e, ao homenagear seu mestre, Henri Lefebvre,
nos indica uma pista para se tentar sair deste ciclo vicioso contemporâneo
– do especular que se torna espetacular – que seria de se vislumbrar
na própria vida cotidiana das cidades contemporâneas, e de seus
cidadãos, caminhos alternativos a este processo.
Este
texto é a apresentação da edição brasileira do livro de Henri-Pierre
Jeudy
Paola
Berenstein Jacques, Arquiteta e Urbanista, professora da Faculdade
de Arquitetura e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e
Urbanismo da Universidade Federal da Bahia, pesquisadora CNPq |