| Silêncio
crítico
resenha de stefano
ferracini
João
Álvaro Rocha apresenta-se de uma forma muito discreta nesta monografia.
Podemos
observar os projetos mais significativos de um breve mas intenso
percurso que levou a obra de Rocha a definir parte do controverso
e intrincado desenho que hoje define a arquitetura portuguesa
contemporânea.
Francesco
Craca, responsável pelo texto, subdivide o múltiplo trabalho do
arquiteto em diferentes seções: Habitações Unifamiliares, Edifícios
de Habitação Coletiva, Edifícios Públicos, Planos Urbanos: ação
e interação. Percorrendo os diferentes programas, Rocha surge
imediatamente como construtor coerente e firme, associando de
forma inigualável os termos tradição, rigor, prática e técnica.
É
o resultado de um trabalho silencioso, noturno, sob a ténue luz
de uma lâmpada Naska Lux com numerosas folhas de croquis espalhadas
sobre a prancheta. Não é raro depararmo-nos com Rocha, solitário
e a qualquer hora do dia, desenhando um detalhe ou raciocinando
atentamente sobre a forma de resolver de maneira mais “simples”
o complexo compromisso próprio da “tectônica” do projeto.
José
Manuel Pozo, na sua introdução ao texto, interpreta o gesto de
Rocha: silencioso, calmo, aparentemente simples. Respeitar o território
e reconhecer o papel protagonista do lugar, constitui a premissa
de uma atividade que parece inspirar-se no anonimato. O projeto
dissimula-se para fazer parte da paisagem através do uso dos materiais
existentes na envolvente. Os pormenores são simples mas eficazes,
o desenho na sua totalidade mostra-se sem estranhas surpresas
nem maneirismos, em perfeita harmonia com o contexto.
É
nesta procura de simplicidade e de exclusão do supérfluo que fica
evidente a coerência e a técnica do seu trabalho. Técnica e não
tecnologia, como refere Francisco Mangado: um diálogo através
de materiais e formas, sem o uso de produtos standard ou de revistas
técnicas. Os pormenores construtivos não são casuais, estabelecem-se
na interação com o projeto diferenciando-se nas várias necessidades
formais e funcionais. Minimalismo talvez, mas percebido como sinônimo
de decantação, investigação, e processo determinado em resolver
problemas complexos através do uso da sensibilidade e cultura.
Obras
e projetos alternam-se demonstrando todos os pressupostos característicos
de um percurso marcado pelo seu início na Escola do Porto. Refiro-me
em particular à obra mais antiga (Casa I e II em Vermoim, Maia)
na qual o “moderno português”, orientado pela entusiasmante obra
de Siza, professor na época, influencia inevitavelmente o jovem
arquiteto. Porém, à parte desta justificável inflexão, desde o
princípio é sempre clara uma procura de uma identidade específica.
É
com o edifício do ICP e com o Complexo Veterinário do LNIV, construídos
imediatamente depois, que Rocha conquista maior liberdade expressiva
e autonomia estilística, mantendo inalteradas todas as características
típicas da Escola, mas estabelecendo uma posição de compromisso
com o lugar, técnica e a linguagem européia contemporânea.
As
numerosas casas espalhadas por Portugal recolhem indistintamente
da paisagem circundante os elementos para a sua composição. Cores,
formas, ambientes desenvolvem condições que em conjunto com as
exigências específicas dos programas e forte capacidade crítica
determinam as formas já divulgadas pelas publicações internacionais
como a Casa de Carreço, ou a Casa da Marina. A Casa Várzea III
constitui um capítulo, marcando com a mesma lógica, coerência
e discrição a pequena área habitada em Vermoim, Maia. A diversidade
de resultados, partindo de um pressuposto comum às três casas,
demonstra além da sucessão temporal um evidente desenvolvimento
do grau de maturidade.
O
tema da habitação colectiva e em particular econômica, é tratado
em Rocha atualizando escrupulosamente os princípios datados do
antigo programa SAAL, no qual participou a primeira geração da
Escola do Porto. Importância do contexto, economia de meios, e
a atenção prestada aos aspectos sociais construíram numerosos
edifícios do programa PER da Maia, tornando-os num exemplo acabado
da compreensão de princípios como modulação, rigor e precisão.
A contraposição entre amplas janelas em banda numa das fachadas,
e pequenas aberturas pontuais na fachada oposta, denunciam imediatamente
a distribuição interna, bem como a relação entre a pequena escala
do pormenor e o respectivo reflexo na fachada e ainda, a consequente
influência na escala urbana.
O
Parque de Moutidos e a recuperação da Quinta da Gruta com o seu
jardim colocam Rocha perante problemas de âmbito urbano. Intervenções
pontuais, objectos quase caídos do alto, e percebidos de forma
diversa em função dos diferentes percursos, compõem um excelente
exemplo de Land Art Européia.
A
numerosa quantidade de obras e projetos respondendo a diversos
programas citados neste livro, definem-se como base de um trabalho
recentemente começado, mas que por número, empenho e coerência,
denota uma capacidade crítica madura. Os textos no seu interior
são de Antonio Ravalli, Antonio Armesto, José Manuel Pozo, José
V. Vallejo Lobete, Val K. Warke, Francisco Mangado, e do fotógrafo
Luís Ferreira Alves.
Texto
publicado originalmente em italiano, na seção “Books Review” de
www.architettura.it.
Stefano
Ferracini (Treviso, Itália 1974) é arquiteto formado pela Faculdade
de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP) em 2002. Estudou
também no IUAV de Veneza e na Universidade Strathclyde de Glasgow.
Tem projetos publicados em Veneza e Porto em diversas exposições
de estudantes. É vencedor do Concurso Iberico Pladur em 2001.
Colaborador de João Álvaro Rocha, escreveu diversos artigos sobre
a arquitetura portuguesa. |