| Viollet-le-Duc
e o conceito moderno de restauração
resenha de ana carolina melaré dos santos
Viollet-le-Duc
foi um dos primeiros estudiosos que, ao pensar no conceito moderno
de restauração, tentou estabelecer princípios de intervenção em
monumentos históricos e uma metodologia para esse trabalho. Suas
teorias e projetos sempre foram muito questionados, aceitos por
muitos e combatidos por outros tantos. Apesar de sua racionalidade,
lógica e coesão de idéias, sua forma dogmática e abusiva de atuar
acabou por condená-lo ao ostracismo nas décadas seguintes. E somente
muitos anos após sua morte é que suas teorias foram revistas e
avaliadas dentro do contexto em que foram produzidas, evidenciando
a contribuição do seu trabalho para o restauro contemporâneo,
principalmente em relação à metodologia de projeto (importância
dos levantamentos detalhados do edifício) e atuação calcada em
circunstâncias particulares a cada projeto (princípios absolutos
podem levar a um resultado absurdo).
Viollet-le-Duc
viveu na França em uma época em que a restauração se firmava como
ciência, principalmente por causa dos eventos econômicos, políticos
e sociais que vinham ocorrendo por toda Europa influenciados pelo
Iluminismo, pela Revolução Industrial e Revolução Francesa. A
ruptura com o passado que esses movimentos geraram, propiciaram
o estabelecimento de uma identidade nacional e, conseqüentemente,
o surgimento do sentimento de proteção aos edifícios e ambientes
históricos.
Nascido
em uma família burguesa que cultivava as artes e a cultura, iniciou
seus estudos em 1830, época dos grandes debates sobre as artes
e arquitetura, da sistematização da formação do arquiteto e da
multiplicação de revistas especializadas. Viajou pela França e
Normandia (1831/1833), desenvolvendo grande interesse pela arquitetura
medieval, e pela Itália (1836) onde aprofundou seus conhecimentos
sobre arquitetura clássica. Constatou, ao contrapor os dois estilos
arquitetônicos, que existem princípios verdadeiros por trás da
adequação da forma à função, da estrutura à forma e da ornamentação
ao conjunto, independente de estilo adotado.
Em
1837 surgiu a Comissão dos Monumentos Históricos, órgão de suporte
para a Inspetoria Geral, que designou muitos arquitetos para a
direção das obras de restauro. Em 1840 Le-Duc foi indicado pelo
Ministro do Interior, por recomendação de Mérimée (secretário
do Conselho de Construção Civil da Comissão de Monumentos) para
restaurar a Igreja de Vézelay, o que foi uma surpresa geral, já
que Le-Duc não possuía experiência nesse campo e era uma obra
bastante complexa. Sua atuação bem sucedida neste projeto alavancou
sua carreira aparecendo diversos trabalhos no ramo da restauração:
foi convidado por Jean-Batiste Lassus a participar do concurso
para restauração da Catedral de Notre Dame de Paris (o projeto
foi o vencedor), atuou em diversas missões para o Serviço de Cultos
(1), fez o projeto de Saint-Sernin (Toulouse) e da Abadia de Saint-Denis.
Ao
mesmo tempo em que seu reconhecimento crescia por sua atuação
no campo da restauração, sua obra teórica também tomava corpo,
discorrendo sobre o papel do arquiteto e suas condições de trabalho
e elaborando documentos técnicos que ensinavam desde técnicas
medievais de entalhe de pedra e rejunte, até formas de levantamento,
verificação e análise de patologias e indicação de técnicas de
restauro. Nesses escritos demonstrava grande conhecimento sobre
arquitetura e construção, especialmente da arquitetura medieval,
e uma forte preocupação com a adequação de formas, materiais,
funções e estruturas que, na concepção de um projeto de restauro,
deveriam formar um “sistema lógico, perfeito, e fechado em si”
(p. 17) de forma a estabelecer o “modelo ideal” e retornar o edifício
a “um estado completo que pode não ter existido nunca em um dado
momento” (p. 29). Para isso, fazia uma análise profunda de como
teria sido feito o projeto original se detivesse todo o conhecimento
e experiência da época da concepção, concebia o “modelo ideal”
e impunha sobre a obra esse esquema já montado. Por isso em sua
obra muitas vezes percebe-se a falta de respeito pela matéria
e pelas modificações sofridas pelo edifício ao longo do tempo,
pois “acertava os defeitos” buscando a pureza de estilo através
da retomada do projeto original ou, como aconteceu em diversas
obras, reconstituía edifícios inteiros a partir desse “modelo
ideal” resultando em um edifício completamente diferente do original.
De
toda sua obra escrita, o Dictionnaire Raisonné de l´Architecture
Française du XIe au XVIe Siécle teve a maior repercussão e
difusão, tanto na França quanto no exterior. Através do verbete
“Restauração”, pode explicar a origem e o conceito do termo que
até então não existia como é concebido atualmente. Como ele próprio
dizia “a palavra e o assunto são modernos” (p. 29) e foi somente
a partir do segundo quartel do século XIX, principalmente através
da sua colaboração, que se definiu o conceito aceito atualmente.
Até então, nenhum edifício havia sido “restaurado” conforme o
fazemos hoje. Na Ásia, deixavam o edifício abandonado e construíam
outro edifício adjacente ao primeiro. Os romanos reconstituíam
de acordo com o modo admitido na época da reconstrução através
da substituição de peças quebradas e os gregos davam o cunho do
momento, não reproduzindo as formas anteriores do edifício onde
ocorria a intervenção. O gosto pelas restaurações como renovação
se manifestou sempre ao final dos períodos das civilizações nas
antigas sociedades, como no final do Império Romano na Grécia
ou às vésperas da Reforma de Martinho Lutero.
No
começo do século XIX a Inglaterra e a Alemanha já ensaiavam técnicas
de restauro sobre seus edifícios e esses princípios rapidamente
se propagaram pela França. A Comissão dos Monumentos Históricos
passou a utilizar o programa já adotado nesses dois países, na
Itália e Espanha, cuja metodologia de trabalho dava indicações
de como intervir, assinalando que cada edifício, ou parte dele,
fosse restaurado no estilo a que pertencia (em aparência e estrutura),
devendo-se constatar a idade e o caráter de cada parte para compor
um relatório respaldado por documentos seguros (notas escritas
e levantamento gráfico). Para isso era necessário ter conhecimento
das escolas, seus princípios e meios práticos, assim como dos
tipos de cada período de arte e dos estilos de cada época.
No
Dictionnaire, Le-Duc apontou o grande preconceito que havia
em relação à restauração, vista como uma “fantasia, uma moda,
um estado de desconforto moral” (p. 33) pela maioria das pessoas
que, na sua opinião, na verdade tinham medo de sair da zona de
conforto, como se a descoberta do novo fosse uma perda da tradição.
Esse preconceito se devia em grande parte à retomada e revalorização
das obras da Idade Média, vista pelos estudiosos como o caminho
para a identidade nacional e pelo povo como a volta àquele período
marcado pela intransigência e castigo aos que saíam do caminho
“correto”.
No
verbete, Le-Duc descreve exemplos de algumas situações que poderiam
se apresentar diante do restaurador e procedimentos passíveis
de serem aplicados a elas, enfatizando que ao intervir, estando
o restaurador diante de duas opções distintas de intervenção,
“a adoção absoluta de um dos dois partidos pode oferecer perigos,
e que é necessário, ao contrário, não se admitindo nenhum dos
dois princípios de uma maneira absoluta, agir em razão das circunstâncias
particulares” (p. 48/49). Ele afirmava categoricamente o perigo
tanto de se reproduzir exatamente o original como de substituí-lo
por formas posteriores, e deixa claro que nada deve ser encarado
como um dogma, mas como algo relativo e específico de cada obra.
Na prática, percebe-se que Le-Duc ao utilizar-se da constituição
do “tipo” e do “modelo ideal” não conseguia atuar com imparcialidade
e sem dogmatismo, pois intervinha com base em um modelo que ele
considerava perfeito e adequado, e propunha soluções que não respeitavam
o edifício, suas marcas, sua história e suas peculiaridades, mas
que satisfaziam apenas a pureza de estilo que ele próprio determinava.
Em
meio aos exemplos, Le-Duc levantou diversas questões quanto a
obras mutiladas, substituição de materiais e recuperações estruturais,
propondo o refazimento em estado novo, no estilo próprio e escala
do monumento (sem alterar as proporções), de porções das quais
não restasse traço algum, a substituição de toda a parte retirada
por materiais melhores e mais duráveis e meios mais eficazes,
aperfeiçoamento no sistema estrutural para suprimir deficiências.
Pregava o indispensável conhecimento do que ele chamava de “temperamento”
do edifício:, que nada mais era que a combinação da natureza dos
materiais, qualidade das argamassas e do solo, sistema estrutural
(pontos de apoio vertical e uniões horizontais), peso, concreção
das abóbadas e elasticidade das alvenarias. Para esse completo
entendimento, o restaurador deveria ser um construtor hábil e
experiente, que conhecesse todos os procedimentos de construção
admitidos nas diferentes épocas da arte e escolas.
Quase
ao final do verbete, Le-Duc levanta outras questões pertinentes
ao trabalho de restauração como a utilização do edifício como
a melhor forma de conservá-lo, a importância da fotografia nos
estudos científicos, como forma de fornecer documentos que pudessem
ser sempre consultados e meios para justificar as ações, e a importância
e presteza dos operários nos canteiros de restauração. Mais uma
vez aponta a importância da investigação científica e do perigo
das hipóteses quando diz que “é necessário, antes de começar,
tudo buscar, tudo examinar, reunir os menores fragmentos tendo
o cuidado de constatar o ponto onde foram descobertos, e somente
iniciar a obra quando todos os remanescentes tiverem encontrado
logicamente sua destinação e seu lugar” (p. 69). Um julgamento
sem a certeza total pode levar a uma seqüência de deduções que
afastam a restauração da realidade.
O
que é importante lembrar e atentar na obra de Viollet-le-Duc é
a atualidade de muitas das suas formulações e sua aplicabilidade
nas intervenções de restauro atuais: a restauração tanto da função
portante do edifício como de sua aparência, o estudo do projeto
original como fonte de conhecimento para resolução de problemas
estruturais, a importância dos levantamentos detalhados da condição
existente, a reutilização do edifício para sua sobrevivência e,
principalmente, a atuação baseada em circunstâncias e especificidades
de cada projeto, pois como Beatriz Mugayar Kül coloca em sua introdução
“restaurar não é apenas uma conservação da matéria, mas de um
espírito da qual ela é suporte”.
Nota
1
Até a separação definitiva da Igreja e do Estado no século XIX,
as igrejas eram restauradas pelo “Serviço dos Cultos”, que possuía
sua própria equipe de trabalho. Os monumentos ditos “pagãos” ficavam
sob a responsabilidade da Comissão de Monumentos Históricos. Posteriormente
os grupos foram unificados e passaram a atuar sobre todos os monumentos.
Ana
Carolina Melaré dos Santos, arquiteta e urbanista formada em 2001
pela FAUUSP e pós graduada em Administração de Empresas pela FAAP
em 2003. Atualmente atua em uma instituição bancária com gerenciamento
de projetos e cursa pós-graduação na área de Restauração de Patrimônio
Histórico na Universidade Cruzeiro do Sul – UNICSUL. |