| Novos
argumentos de uma mesma história
resenha de luis espallargas gimenez
“Se
queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”
Tomasi di Lampedusa, O Leopardo (1)
Na
introdução, fica estipulado o objetivo principal do livro: “criar
uma história da arquitetura brasileira que abra espaço para a
emergência do novo” (2). Predicado que faz pensar em outra história
que a consagrada, pois, conforme defendem os organizadores do
livro, não há chance para uma nova arquitetura se a precedente
não tiver sido engolida pela história, não tenha sido banida das
condições e possibilidades contemporâneas. Andreoli e Forty parecem
convencidos de que a arquitetura brasileira atual ainda se atrapalha
e confunde, enredada no carisma, no mesmerismo da produção
das décadas de 1940 a 1960, sem dela, conseguir – desejar – libertar-se.
Por
isso convidaram a nova geração de críticos e pesquisadores brasileiros
para decisivo esforço historiográfico com fôlego e esclarecimento
para desfazer um vínculo resistente e contraproducente. Tal estratégia
parece ter surtido resultado imprevisto, já que instados a falar
do estéril panorama contemporâneo em detrimento do glorioso modernismo,
os ensaístas teriam sentido-se acuados ou desconfortáveis e reagido
com derradeira defesa e trincheira do valor histórico – pertinência
– daquela vistosa arquitetura e dos textos correlatos. Enrijeceram
mais o que se pretendia relaxar.
Como
numa catarse, arquitetos deveriam vislumbrar desproporcional subordinação
repressora na autoridade desse passado insolúvel, insistente,
prestigioso, todavia imobilizador, de heróis e feitos magníficos,
para oferecer novo quadro produtivo aliviado de imensas obrigações.
Para
advertir que o passado convertido em história não assombra, os
editores mostram generosidade e tato na maneira como alertam para
os danos da ortodoxia exacerbada, sempre atiçada, rememorada
e repetida pelo culto à criatividade, ao dom inato e ao moderno
congênito característicos do arquiteto moderno brasileiro.
O embaraço está na visão que se tem – a idéia que se faz – do
arquiteto brasileiro.
Chama
a atenção que a proposta original de Forty e Andreoli paute a
arquitetura contemporânea brasileira e que esta produção acabe
por comparecer decididamente apenas no ensaio de fechamento dos
mesmos editores. Já o deslocamento tácito para o campo seguro
e prestigioso da arquitetura brasileira faz pensar na insuficiência
daquilo que se produz e na camisa de força em que se transformou
a tradição modernista, evocada, com insistência, como medida e
modelo de tudo que se venha a fazer.
Na
ortodoxia se esconde a implacável xenofobia que impede
profanar – questionar – templo e altar dos preciosos e intocáveis
feitos artísticos. Outra história poderia incorporar processoshibridizadores
de contato e intercâmbio entre culturas para dar lugar a um modelo
de identidade diluída. Por isso, os editores sugerem emprestar
da crítica literária – hibridização, transculturação,
tradução e simbiose – para que se possa avaliar
à margem da identidade patriótica, origem, cultura convencionada
e autoctonia, com que a crítica abstraiu o estrangeiro, para viver
reclusa sua presunção, conforme voluntário afastamento.
Sugerir
o fim do modelo ortodoxo e introspectivo implica em ultimar
testamento para que se produza antes legado que espólio, já que
a máxima de Mário Pedrosa, na que estamos condenados ao moderno,
adaptada no livro, por Guilherme Wisnik, à biologia genética,
com o passar do tempo, parece perder o encanto profético pelo
povo favorecido, para assustar pelo castigo que toda condenação
implica.
Independentemente
da idéia que os organizadores façam do que seria apropriado à
arquitetura contemporânea, faz sentido referir-se ao enquadramento
que a versão histórica e o estímulo à vigência cultural da arquitetura
moderna sujeitam a produção subseqüente, considerada a pressão
exercida pela notabilidade de seus personagens e constante expectativa
heróica nos arquitetos. Daí, intuir uma possível armadilha da
história convencionada – ortodoxa – a inibir a produção
posterior.
É
provável que no Brasil essa conscientização não tenha tido lugar,
pelo receio que derrubasse a superestima da arquitetura moderna
brasileira, por temer que destruísse a esmorecida esperança num
distante glamour profissional e por desconfiar que deflagrasse
a dúvida entre a formação universitária mais rígida e intelectiva
e a mais relaxada e abandonada à inspiração – inventividade –
ou à conseqüente insistência em comprometer o moderno com a mentalidade
romântica e experimental.
Parece
que dentro da categoria em que se fala muito dos arquitetos e
textos e pouco sobre arquitetura, é improvável criticar qualquer
obra sem que haja ofensa. E quando se exalta algo, dá a impressão
que isso não foi motivado pelos reais atributos da arquitetura,
sempre pressupostos, mas segundo acordo tácito animado pelo espírito
de corpo. Pretende-se manter um papel determinante nas decisões
sobre a cidade e projeto das construções com preparação tantas
vezes insuficiente e com postura profissional imprecisa: como
é insistir na arquitetura com desdobramento social e protegida
no lógico projeto racional. Facilitaria se fosse aceito, de uma
vez por todas, que o fundamento da arquitetura é estético e que
o melhor seria esclarecer com qual das noções estéticas se pretende
praticá-la. Caso contrário, abandonar as escolas de arquitetura
para aprender, na engenharia, a autêntica construção racional.
Segundo
entendimento dos próprios autores, o livro corresponde a um conjunto
de ensaios críticos e autônomos, ora superpostos, ora contraditórios.
Em comum, todos parecem estar de acordo com a urgência em restabelecer
a auto-estima e confiança na atual arquitetura que parece desmoralizada
e desorientada. É claro, que todos confirmam que o importante
é a transformação social e que a arquitetura reflete o estágio
técnico. Com tais certezas e como quem calça sandália franciscana
num pé e bota de patins on line no outro, a crítica pega
a estrada. Já é tempo de reconhecer que se dependesse do engajamento
social e da razão técnica, a arquitetura moderna sequer teria
existido.
Um
livro que Luiz Recamán, numa boutade, descreveria, mais
tarde, como coisa para inglês ver, já que não contava com
que viesse a receber de pronto a versão em português que, como
um boomerang – metáfora reiterada depois por Pedro Arantes
–, volta sobre a própria cabeça. Nesse sentido, os autores enfrentam
agora o paradoxo de uma condição editorial de textos com quantidade
de zelo explicativo para um leitor estrangeiro a ser informado
sobre as conclusões recentes da condição moderna brasileira e
o efeito desse mesmo texto entre os nativos.
Para
Guilherme Wisnik o moderno equivale à eqüidade social e
emancipação política, como também, no caso brasileiro, ao gosto
pelo formalismo exagerado. Não teria se completado o moderno no
Brasil porque não foi superada a injustiça. Por isso é necessário
admitir sua peculiaridade: imperfeição. Correção que apenas poderia
ser feita por intermédio do aperfeiçoamento político.
Wisnik
procura situar e atribuir valor à arquitetura moderna brasileira
valendo-se do debate internacional. Faz referência aos comentários
sobre arquitetura brasileira de Gideon, Pevsner, Max Bill e Giulio
Carlo Argan. Admite nosso exagerado formalismo, mas anima-se quando
o considera característico da índole nacional e, portanto constitutivo
desta cultura. Ao contrário de buscar alternativa à ortodoxia
histórica, volta à carga para defender o ufanismo da arquitetura
moderna brasileira. Aceita sem reparo o regionalismo da difícil
cruzada vernáculo-moderna de Lúcio Costa e entende ser saudável
o desvio brasileiro e a ponta de – necessária – irracionalidade
de sua arquitetura moderna. Já nem mesmo parece importar se tudo
isso seria moderno mesmo, pois o que importa é que se explique
segundo possibilidades locais e desígnios caseiros, para ser legítimo.
Com essa disposição para o moderno, pouco importará a universalidade
da atitude moderna, quase sempre travestida primeiro como internacionalismo
e, depois, como assunto imperialista, na maneira de modelos impostos
por países desenvolvidos para empurrar interesses e dependência
a subdesenvolvidos. Reafirma o que já se conhece: é melhor confiar
na expressão individual e na história da genialidade do que no
feito coletivo. Melhor para os historiadores, mas pior para a
profissão.
Convoca
famosos historiadores de arquitetura para concluir que não disseram
o que escreveram e para concluir que seriam cegos diante do fenômeno
brasileiro que apenas a perspicácia nacional capacitaria compreender
em profundidade. Num rompante, infere que, ao ser um organicista,
Gideon não poderia entender que se passava por aqui.
Insiste
nas frases confortadoras e agradáveis, como aquela em que o regionalismo
promove a equivalência entre as plásticas do Barroco e do moderno,
a culminação dos grandes momentos artísticos nacionais.
Roberto
Conduru parece propor a tectônica no sentido imediato do
que é construtivo e material (3). Sua hipótese confiada ao determinismo
técnico – da situação produtiva insuficiente no Brasil – quer
dar satisfação ao descumprimento dos princípios europeus. Princípios
que exigiriam estágio tecnológico avançado. Tal lapso não deveria
ser visto como obstáculo, segundo o autor, mas como parte da condição
moderna brasileira. De qualquer maneira, a técnica continuaria
a ser determinante, causa do que é peculiar no moderno brasileiro.
Talvez
por dedicar pouco tempo às obras, não surja dúvida quanto ao uso
inteligente e pertinente de qualquer que seja o meio de produção
utilizado, ou quanto à realidade construtiva material que se ajusta
à estrutura abstrata e formativa da obra. A exigência moderna
não se estranha com a técnica ancestral – mesmo convencional –
desde que consiga reconhecer nela a vocação construtiva material
e disponível para organizá-la segundo o sentido mais claro, preciso
e econômico da forma moderna. Parece certo que grande parte da
obra de Le Corbusier está confiada nisso.
Quando
há telhado, não se deve escondê-lo com platibanda para simular
cobertura horizontal, mas construir com a forma dos planos inclinados.
Lição útil a aprender com Le Corbusier na casa Errazuris e mais
efetiva que decorar os cinco pontos. Na primeira e preconceituosa
atitude, o moderno é igualado ao estilo, já na segunda, há chance
de acordo entre forma moderna e técnicas quaisquer.
Ao
invés de questionar mitos historiográficos, Conduru prefere a
história que se complica para sobreviver. Acata, de imediato,
a maldade brutalista de Reyner Banham e Theo Crosby e a sucessão
de estilos ou fases modernistas de Yves Bruand para, a exemplo
do Cubismo, anunciar a existência do brutalismo sintético
e do brutalismo analítico que, de quebra, corroborariam
a oposição bairrista entre escolas brasileiras.
Ao
haver uma previsível adaptação do moderno à peculiaridade geográfica,
social e técnica, acontece a interpretação regionalista do moderno
europeu e se embasa aquilo que seria o mais autêntico e importante
do equivalente brasileiro. É costume admitir essa adaptação, tão
defendida por Lúcio Costa, como atitude crítica que enquadra o
moderno no Brasil ao inquiri-lo, filtrá-lo e adequá-lo segundo
o desígnio local. A essa nacionalização adere, de pronto, um sentido
positivo, já que atesta autodeterminação nos assuntos internos
e adequação regional. Quase sempre o clima, a tradição construtiva
e o modelo vernáculo amparam correções. Por isso, é raro deparar-se
com a autocrítica da adaptação. Prestigiada a reformulação ao
meio, torna-se improvável entender, por exemplo, o rebaixamento
a que Lúcio Costa submete o projeto das maisons Loucheur
de Le Corbusier, de 1929, quando adaptadas ao concurso em Monlevade,
de 1934. O que era brilhante e havia alcançado o sentido moderno
mais elevado, na forma estruturante da unidade mínima de existência,
com sanitário – ilha – que organiza a circulação em espaços de
flexibilidade crepuscular, avacalha-se numa espécie de convencionalismo
asseado, sem relevância arquitetônica.
Conduru
reitera a razão material, ao afirmar que a racionalidade
dos primeiros exemplares modernos foi do tipo estético
e formal, pois estariam conectados “apenas superficialmente
à lógica do regime industrial” (4) e por isso não apresentavam
– desejável – ênfase tectônica. Insinua prejuízo à ordem
estética e obvia a noção tectônica. No sentido moderno, formar
e construir deveriam ser sinônimos. Ao contrário, não deveria
estranhar se a ênfase crescente e exclusiva na estrutura material
do objeto denotasse desvio moderno ao invés de elaboração moderna
e se a arquitetura moderna brasileira, assim como a internacional,
tivessem rifado, já a partir da década de 1950, a forma moderna
em favor do mais raso realismo artístico típico de qualquer engenheiro
metido a artista. Ao contrário do que afirma Conduru, não foi
a forma que se tornou fetichista, mas a enfática estrutura
de concreto tão aplaudida em seu argumento.
Luiz
Recamán procede à autópsia do moderno no Brasil ao sustentar que
não apenas desapareceram as condições históricas e ideológicas
que sustentaram o moderno, como, ademais, no Brasil, nunca estiveram
presentes essas condições favoráveis para o desenvolvimento e
a apreciação do moderno.
A
forma sem utopia poderia ser entendida como a proposta
formal elaborada pelas vanguardas históricas formativas ou construtivas
– Suprematismo, Purismo e Neo-plasticismo – ao contrário da figura
com utopia que corresponderia às vanguardas históricas éticas
e ideológicas (5) – Dada, Surrealismo, Futurismo – favoráveis
às revoluções. No entanto, o lamento de Recamán, como o eco de
Projetto e Utopia de Manfrado Tafuri, se refere à perda
de utopia das vanguardas ideológicas que, por coincidência, são,
certamente, as mais confusas e panfletárias e as menos confiáveis
para suportar a compreensão e a ação moderna na arquitetura.
A
hipótese e o caos urbano de Recamán escolhem a história do país
e a crítica marxista para explicar o fracasso moderno da arquitetura.
A organização tardia da indústria e do capital e a ópera política
das oligarquias somadas à condição periférica e dependente estabeleceriam
restrição cultural e constrangimento artístico, além de privilegiar
um julgamento homogenizador de um espelho do Movimento Moderno
moldado, adaptado e conveniente às determinantes estruturais.
Mas
já que se quer fazer menção ao fracasso, talvez fosse útil medir
qual era a espessura cultural disponível nos anos de 1930, para
especular sobre a provável dificuldade em entender e assimilar
a complicada e secular teoria do puro-visualismo, impermeável
ao academicismo, que sustenta atitude e estética modernas. Se
isso for certo, a idéia que se fez do moderno no Brasil não foi
a adaptada pela cultura para a cultura, ou a submetida e talhada
ao projeto de dominação e expropriação, mas teria sido uma cópia
aproximada e possível, formulada por um desigual empenho intelectual,
em tempo recorde (6). Tal limitação, sem ser privilégio brasileiro,
poderia muito bem explicar o isolamento da forma e abstração na
preferência pela exagerada figuração – gestual ou estrutural –
modernista, o culto à inspiração em detrimento do prazer cognitivo,
a celebração da autoria que compromete a obra coletiva, o incentivo
à excepcionalidade contrária ao standard universal e o
experimentalismo inadequado ao aperfeiçoamento contínuo do artefato
moderno.
Assim
se formulou a idéia estapafúrdia de um moderno que não precisa
ser cultivado, que sem explicação nasce adulto, completo ou maduro
para, num instante, ser atualizado por espasmos estilísticos.
Uma falsificação que nega ao moderno o direito ao processo contínuo
e trabalhoso de correções e aperfeiçoamento da construção da forma
na técnica. Só assim se pode mal-entender o International Stile
como um processo decadente em que se deturparia a forma moderna
original. Ao invés de enxergá-lo como culminação e conquista nas
obras dos últimos anos de 1950. Esforço acumulado de arquitetos
para projetar, com experiência e máxima correção, ou tarefa de
cinqüenta anos para consolidar competência e ajustar técnica e
material aos exigentes pressupostos da forma e estética modernas.
Como
é possível que a história recente da arquitetura cultue a torre
Velasca e veja no edifício Seagram decadência? Como não perceber
o quanto há de acerto e experiência acumulada no projeto do Royal
Hotel e terminal SAS, em Copenhague? Como se pode concordar que
o conjunto habitacional da avenida Marquês de São Vicente seja
um aperfeiçoamento do conjunto habitacional de Pedregulho? Como
alguém pode se convencer que a segunda residência Mário Bittencourt,
tão festejada, seja mais bem desenhada que a anterior e anônima
residência D’Estefani?
Recamán
continua a reprimenda ao considerar que a produção habitacional
e coletiva dos modernos brasileiros foi secundária e, por isso,
teria abandonado a obrigação central do Movimento Moderno. Não
lhe ocorreu que essa obrigação fosse propaganda – ideologia
– das vanguardas que parece prezar e que o procedimento moderno
não fosse atrelado a, sequer privilegiasse, qualquer tema funcional,
como ele mesmo reconhece ao escrever: Seu resultado – o
do Conjunto de Pedregulho – indicava que aquela vocação formal
era fruto de agenda que prescindia de tal extroversão social
(7). Ao prescindir, de duas, uma: não se trata de arquitetura
moderna porque copia a mesma matriz plástico-formal dos
exemplos alienados e, portanto, nunca teria existido arquitetura
moderna e social. Ou, a arquitetura moderna independe da tônica
social e Reidy deve ser considerado bom arquiteto porque soube
construir com a forma moderna e não porque utilizou um programa
comunitário inclusivo. Recamán parece indeciso, pois reconhece
o mérito de Pedregulho, ao mesmo tempo em que o condena pela falta
de perspectiva habitacional no País, pela degradação da sociedade
e pela similitude com a arquitetura intrinsecamente formalista
do Movimento Moderno.
João
Kamita desenvolve o tema mais restrito entre todos: a casa
brasileira. Depois, numa mesa-redonda, confessaria que lhe
pareceu muito fácil começar o texto, porém experimentou muitas
dúvidas para acabá-lo segundo o rumo incerto da hipótese tipológica
da casa brasileira. Acabaria por reconhecer o que já se sabia
de antemão: não há condições homogêneas e subjacentes à produção
de moradias unifamiliares. Arquitetos interpretam o tema da moradia
de maneira peculiar e mutante, por estarem atentos a problemas
variados e imprevisíveis. Porém, choca ler que: a preocupação
de Oswaldo Bratke era de natureza construtiva (8).
A
variável de Kamita é tipológica, portanto pouco adequada à análise
moderna, em que diversos projetos apresentados pareceriam familiares
porque incluem pátio ou vazio. É incompreensível que a falta da
modalidade técnica industrial seja apontada, como comprometedora
do artefato moderno, entre 1930 e 1960. Mais enigmático ainda
é que tal carência tivesse propiciado, ainda segundo o autor,
ausência de standard e experimentação plástica com
a conservação de valores tradicionais, além de recato
e intimismo. Trinta anos de um país não seria tanto tempo
para desenvolver acuidade visual, testar e dominar possibilidades
da estética moderna.
Os
atributos da arquitetura não deveriam ser confiados a emoções
e afetos, ou à percepção espacial, associados a psicologismos
variados. Qualquer lar é um espaço encharcado em cultura, lembranças,
valores domésticos, escala singela, em sentimento de
tranqüilidade e sossego. Essas características nada acrescentam
a uma construção que reivindique universalidade e artisticidade.
Definitiva é a sensação dos sentidos que aprendem e entendem na
correção e oportunidade da forma do artefato.
Kamita
reconhece, com admirável acerto, a congruência entre a maison
Errazuris e a residência Portinho. Diferentes, porém concebidas
segundo a mesma hipótese formativa. Mas se atrapalha quando as
equipara à residência Kubitcheck de Niemeyer, modelo parecido
e, no entanto, alheio àquela formação. Despreza a estruturação
formal para enveredar pela similitude casual entre os partidos
da residência Portinho e da Casa de vidro de Lina Bo, por
causa da vaga coincidência dos cortes que pouco, ou nada, ensina
sobre a ordem e conformação de cada uma dessas residências. No
caso da residência Portinho, o purismo corbusiano é essencial
para desvelar o processo formativo, incluídos aí, os pilotis.
No caso da residência do Morumbi parece improvável encontrar uma
hipótese formativa que confira autêntico sentido moderno a esse
projeto híbrido. Aparência e partido confundem.
Ao
chegar em tempos de brutalismo, Kamita quer entender – repetir
que – essa mudança da sensibilidade artística como reação à arquitetura
moderna que resultava de esteticismo e formalismo
(9), por isso, sem maiores explicações, exime a nova arquitetura
da prática retrógrada de ornamentação estrutural e decomposição
cubista.
Finaliza
de maneira apressada. Ao juntar a residência do Butantã com a
residência Fernando Millan, de Paulo Mendes da Rocha, no saco
do brutalismo paulistano, torna patente quanto generaliza e confunde.
Pese sua data de concepção, não se pode considerar a residência
do Butantã, obra brutalista. Tal erro apenas prova como se tornou
difícil reconhecer uma autêntica obra moderna através de sua estrutura
formal e como a história pode pregar peças quando – confiada às
horas e aparência do concreto – se tornou incapaz do juízo estético.
Para
Pedro Arantes o canteiro é como o tacógrafo da ação arquitetônica.
Reproduz o esquema que distingue entre as técnicas internas, intrínsecas
ou intradisciplinares e técnicas externas, extrínsecas ou extradisciplinares
à arquitetura, ao preocupar-se com as injustiças do projeto e
do plano advertidas no capitalismo.
Em
Pedro Arantes, por curioso que seja e com diferença aos demais
textos, não prevalece a soberba da arquitetura moderna, mas a
soberba do arquiteto-militante, na nostalgia de sua crítica
radical. O acerto de contas.
A
injustiça a que se refere Arantes é legítima. A desigual distribuição
de renda praticada no Brasil serve como indicador definitivo da
selvageria social que aqui se tem praticado e que continua enquistada
e suportada apesar da consolidação das instituições ditas democráticas
e esperança em governos com rótulo progressista ou socialista.
No
que diz respeito à arquitetura, ao deslocar o discurso da estética
e da forma para o dos meios de produção, ficam os juízos artísticos
e culturais mascarados ou suspensos pela crítica à mercadoria
e ao capital. Deixam de ser burgueses, porém persistem, e são
substituídos, ora pela espontânea – autêntica – manifestação popular
da grossura, ora pela consciência – ética – do profissional engajado
e líder do canteiro. Estes dois radicalismos defendidos por Lina
Bo e pelo Grupo Arquitetura Nova abastecem a inabalável
aspiração artística de objetos confessos, com o padrão estético
preferido pelos personagens.
Nesse
sentido, apesar de dispersar a arquitetura e optar pela via mais
populista e antiprogressista, Lina Bo é até mais coerente, pois
na verdade quer acreditar que ao homem comum brasileiro, ao nordestino,
não faz falta o erudito típico da intelectualidade ocidental.
Se
havia que estar do lado dos trabalhadores para devolver-lhes a
auto-estima e respeito ao trabalho na construção, não bastaria
celebrar as marcas deixadas pela mão do operário, como reconhecimento
e índice arqueológico, ou denunciar a arquitetura branca por caiar
vestígios humanos.
Para
isso, ao invés de acumular a organização do projeto – pedagogia
do desenho – e a autoridade sobre a obra – pedagogia do
canteiro –, melhor teria sido reconduzir o pedreiro, ou o
mestre-de-obras, mesmo o empreiteiro italiano, ao comando técnico
do canteiro, ao aceitar a autonomia e suficiência de suas experiências
técnicas para grande parte das tarefas construtivas, ampliando-as
quando possível. Ao contrário, o arquiteto-militante preferiu
liderar o homem simples e levar soluções ao canteiro, com a troca
de rotinas construtivas tradicionais, coletivas e econômicas por
idiossincrasias, invenções, experimentalismos técnicos e sistemas
alternativos incomuns de estética pitoresca, que nunca emplacaram,
mas foram legalizados pela racionalização dos processos participativos
e explicados segundo intenções moralistas e libertadoras que omitem
o quanto é favorável organizar a comunidade e contar com sua força
de trabalho nos mutirões para defender o trabalho das assessorias
técnicas. Arantes é forçado a reconhecer que essa ação não mudou
o cotidiano violento e desesperançado nas periferias onde, hoje,
os movimentos populares configuram uma casta privilegiada. A arquitetura
não tem porque ser melhor por causa do processo participativo,
didático ou produtivo.
De
qualquer maneira, melhor que quando arquitetos e concreto armado,
em nome da técnica construtiva moderna que não poderia
ter sido mais artesanal e primitiva, transformaram o canteiro
medieval da alvenaria a prumo, da habilidade e dignidade profissional,
num lugar de horrores, não por causa da degradante condição trabalhista,
mas principalmente pela banalização daquela sucessão de tarefas
embrutecidas e burras. Não se pode esperar muito de homens que
passam o dia a dobrar ferros, escorar pontaletes, virar concreto,
carregar latões, vibrar e desformar tábuas com pé-de-cabra.
Como
reconhece Arantes, a exigência inventiva levaria às abóbadas resultantes
do interesse pela obra de Le Corbusier e pela possibilidade que
se abria para que, em nome do moderno, se investigasse na origem
da arquitetura, se flertasse com todos os tempos, mesmo o mais
remoto. A técnica moderna dos pórticos rígidos ortogonais havia
sucumbido ao sincretismo estrutural com que, então, se faria um
sobrado em que, a exemplo da tenda, tudo fosse executado de uma
só vez, com resultado espacial contrário à noção mais imediata
que o sentido comum, do homem excluído, faria da moradia.
A
abóbada admite a síntese construtiva, porém não a formal, com
a condensação da cobertura e parede, num elemento. Traz benefício
social ao canteiro, na medida que propiciaria a integridade profissional
que o uso intensivo de concreto armado havia banido (10). É certo
que as abóbadas estão de acordo com o emprego de técnicas de canteiro
mais leves, no entanto, o uso convencional dessas técnicas faria
prescindir do arquiteto que apenas acredita sobreviver pela organização
diversa, ou seja, com inventividade. Tal exigência explicaria
o fato das abóbadas arrancarem do solo. Não ocorreu que os sistemas
ancestrais que combinavam paredes de carga verticais com abóbadas
aparavam quantidade de dificuldades.
As
abóbadas encobrem um pouco da contracultura e não é impróprio
dizer que, considerado o interminável debate cultural brasileiro,
evocam o habitat indígena. Imaginar uma cidade de abóbadas
é imaginar o acampamento militar ou a aldeia. Apenas se pode admitir
um subúrbio pontuado por poucas dessas exceções, laboratórios
experimentais com que avaliar as tantas limitações do sistema:
a distância de seus apoios, a dificuldade para perfurar a casca,
a conseqüente delimitação de aberturas nas tampas, a inaptidão
para programas complexos, as restrições à combinação de curvas
parabólicas, a exigência de largura e nível nos terrenos, a horizontalidade,
as perdas de área e o isolamento, só para citar o mais evidente.
Mesmo que a técnica seja leve, barata e prática, no caso de pequenas
obras, é individual e inadequada quando se pensa no problema da
habitação de massas ou na saída criativa para a autoconstrução.
Essas dificuldades parecem sugerir que talvez não sejam
adequadas à cidade moderna, que pede para o problema habitacional
uma solução coletiva, condensada, vertical e justaposta.
Apesar
da notável ordem que estrutura as plantas residenciais do Grupo
Arquitetura Nova, não há elogio à concepção formal, apenas
ao canteiro como arena da arquitetura. Os arquitetos já haviam
se acostumado a falar da arquitetura apenas como ideologia, ao
mesmo tempo em que formalizavam seus projetos com escrúpulo e
rigor, sem deixar perceber a importância que isso tinha para eles
e sem antever o dano que essa omissão causaria nos jovens mais
crédulos.
A
crise da arquitetura moderna no Brasil não veio dos males externos,
mas com a sucessão de decisões desastradas, recomendadas por uma
crítica irresponsável e tomadas pelos próprios arquitetos na busca
de reconhecimento rápido e da propaganda fácil de vantagens profissionais.
É de se esperar que, para reencontrar o devido – merecido – reconhecimento
social da profissão de arquitetura, seja necessário rever fantasias
e ilusões que ao contrário de abrir portas e oportunidades para
a maioria, atiram a arquitetura num terreno de improvável relevo
e comprometem a ação corporativa contemporânea. Essa condição
contemporânea alerta mais que as palavras.
Para
tentar esboçar resposta à indagação inicial, arriscar-se-ia dizer
que é preciso construir uma história mais clara e resistente amparada
em juízo artístico moderno mais autêntico e imparcial, portanto
menos romântica e corporativa. Pois ao se perder a história de
vista, perde-se o rumo, já que a arquitetura progride e cresce
com o trabalho coletivo na prancheta, com a obsessão quase interminável
na busca de sentido, aproximações, correções e ajustes.
É
muito provável que, quando na arquitetura, se sobressaia o aspecto
técnico ou estrutural, do aspecto formal ou plástico, se explicite
a insuficiente síntese do artefato: seu fracasso. Dá a impressão
que, se algum arquiteto começar a desvendar os limites, as vicissitudes
e detalhes das estruturas de madeira, muito esquisitos e pouco
conhecidos do país, precisará anos para dominar seus segredos
construtivos e vantagens e terá que construir muito para entender
e aprender como a forma abstrata e a enjoada construção com madeira
se fundem e condensam num resultado que poderia definir-se como
intenso. É essa intensidade da forma, que o olho atento
reconhece e distingue, o atributo do artefato de arquitetura que
alcança a posição moderna mais elevada e cobiçada. É essa intensidade
– tectônica – a que impede perceber no objeto divisão em partes
ou qualquer coisa que não seja concisão plástica e oportuna conformação
ao lugar.
Uma
forma rara de arquitetura que parece resultar do esforço de poucos
e silenciosos arquitetos atarefados e encantados nesse jogo arguto
e imprevisível medido pelo juízo estético. A arquitetura será
promissora e melhor quando for acordado, segundo as regras desse
jogo, quem são os doutores.
Notas
1
Fala de Tancredi para seu tio, Príncipe Fabrizio Salina, no romance
O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Tradução de
Marina Colasanti, Editora Record.
2
ANDREOLI, Elisabetta; FORTY, Adrian. Arquitetura Moderna Brasileira.
Londres, Phaidon, 2004, p. 8.
3
Tectônico
é o atributo do que é construído e transcende a condição material
de sua constituição física. Caso contrário, para todas as construções
poderia ser reivindicado status arquitetônico. Fenômeno que costuma
acontecer quando autores e arquitetos acatam, sem restrição, teses
sobre o determinismo técnico e material.
4
ANDREOLI, Elisabetta; FORTY. Op. cit., p. 61.
5
Para a distinção entre as vanguardas éticas ou ideológicas e as
vanguardas formativas ou construtivas do começo do século XX,
ver PIÑÓN, Helio. L’humanisme essencial de l’arquitectura moderna.
Barcelona, Real Academia de Doctors, 2003, p. 102-140.
6
Nos
textos históricos é comemorado que a equipe de Lúcio Costa tivesse
aprendido, em uma semana, a teoria moderna e os métodos de projeto
de Le Corbusier, em sua visita de 1936.
7
ANDREOLI, Elisabetta; FORTY. Op. cit., p. 128.
8
Idem, ibidem, p. 158.
9
Idem, ibidem, p. 163.
10
ACAYABA, Marlene Milan; FERRO, Sérgio. “Reflexões sobre o brutalismo
caboclo”. Revista Projeto, nº 86. São Paulo, abr. 1986,
p. 69: (Marlene) As abóbadas eram novidade quando vocês as projetaram?
(Ferro) Eram, sim. A primeira foi do Guedes, mas depois variamos,
indo até o chão. Essa mudança não era formal. O Niemeyer já havia
construído abóbadas em Pampulha. O novo era a crítica ao canteiro.
A tentativa de projetar uma arquitetura barata e fácil de fazer,
que pudesse realmente substituir as barbaridades do BNH.
Luis
Espallargas Gimenez, arquiteto e doutor pela FAU-USP, com a tese
Arquitetura paulistana da década de 1960: forma e técnica e professor
da FAU PUC-Campinas e FAU Unip. |