| O
elogio da plástica
resenha
de luiz armando bagolin
Depois
do cubismo, livro escrito por Ozenfant e Le Corbusier e publicado
em finais de 1918, e somente agora traduzido para a língua portuguesa,
tem um especial interesse para o público brasileiro, não apenas
devido às relações entre Le Corbusier e a arquitetura moderna
liderada por Lúcio Costa e assistida por Niemeyer, entre outros,
mas também pela influência, ainda que indireta, sobre os discursos
que postularam a “modernidade” por aqui nos anos 20 e 30 do século
passado.
Sabe-se que
a revista L’Esprit Noveau, editada entre 1920 e 1925 pelos
mesmos autores de Depois do cubismo, era avidamente esperada
por Mário de Andrade que utilizou alguns de seus argumentos na
composição dos ensaios que integram o livro Aspectos das artes
plásticas no Brasil. Do enlace entre as idéias dos autores,
particularmente quando justapõem imagens de ruínas da antiguidade,
assim chamadas “clássicas”, e de máquinas produzidas pela cientificidade
e tecnologias modernas de então, em L’Esprit.., e o discurso
elogioso, porém sem compromisso com a historicidade, dos mestres
brasileiros do passado (Aleijadinho, Athayde...) em Aspectos...,
formaram-se posições em relação à prática artística e arquitetônica
que mantém, ainda em nossos dias, o status de verdadeiro.
Em outros
termos, como que se naturaliza por aqui o conceito de plástica,
importante nos discursos que acompanham a produção mais significativa,
seja no campo da pintura, seja no da escultura ou ainda no da
gravura (se pensarmos em Goeldi, por exemplo, ou em Evandro Carlos
Jardim), seja mesmo no terreno da arquitetura. Assim, quando Mário
de Andrade refere o desenho ou a plástica em Aspectos...
é o Invariante de Ozenfant e Le Corbusier que os significam.
Estes entendem-no como a expressão pura de leis naturais que se
manifestam no interior da matéria, coincidindo com uma causa eficiente
sempre idêntica a si mesma, imutável. Por isso, afirmam: “a pintura
vale pela qualidade intrínseca dos elementos plásticos e não por
suas possibilidades representativas ou narrativas...O purismo
exprime não as variações, mas o invariante” (p. 81).
A arte, a
exemplo da ciência, deve buscar o constante, diferindo
uma da outra apenas na escolha dos instrumentos utilizados para
investigar a natureza. “O objetivo da arte grave é também a busca
do Invariante” (p. 57), sendo tal também o objetivo da
ciência pura. A generalização é a finalidade de ambas, expungindo-se
os acasos, com eles o devir, pois o que é genérico circula
na qualidade de universais, formados de valores plásticos que
se depuraram a partir do mundo fenomênico, algo análogo ao pensamento
de Parmênides.
A concepção,
que alcança o cume na nova hierarquia proposta pelo Purismo
opõe-se, então, à dissecação, entendida como estratégia
que, por não implicar o genérico, admite apenas a apresentação
da sensação bruta, ou a subsunção da arte na brutalidade do sensório.
A dissecação caracterizou, segundo os autores, o movimento
artístico anterior, o cubismo, “essa arte turva de uma época turva”
(p. 26). Embora, oscilantes, as posições pró e contra o cubismo
são dirimidas na hierarquização das artes, sendo rebaixadas aquelas
que se encantam pelas sensações puras, brutas. Além disso, o cubismo
é ainda inferiorizado pelo fato de pertencer a uma época de pré-guerra,
principalmente na qual se ignora o valor da ciência e da máquina,
e na qual ainda não há condições sociais para a tal depuração.
O cubismo trai o selo de uma sociedade festiva, investindo no
ornamento, portanto no supérfluo. Em Depois... reencontramos
a oposição entre plástica e ornamento advinda do século XIX. Sabidamente
romântico, este posicionamento ativa ironicamente o moderno contra
o romantismo, do qual o cubismo seria o último representante,
na visada dos autores: “o purismo (...) estima que o cubismo permaneceu,
apesar do que se diz, uma arte decorativa, ornamentalismo romântico”
(p. 81).
Deslocado
para um antes, o que implica o “depois” do título, o cubismo
é a arte da dissecação, ou de produção de tapeçarias,
portanto, menos de concepção, conforme ainda atestam as
confusas posições de seus manifestadores (Gleizes, Metzinger...).
Merece, no entanto, elogios, pois subordina-se a uma antiga tradição,
ou seja, a da não-representação, para a qual deve sempre
haver o predomínio do plástico sobre o descritivo. Bruegel,
El Greco, Poussin, Claude Lorrain, Chardin, Ingres supostamente
a seguiram. Como produção anterior ao Purismo, este assomado
na hierarquia das artes porquanto resultante da organização em
plano duradouro das efemeridades do sensório, o cubismo é, por
fim, visto como um momento preparatório, mas necessário, à iniciação
do artista moderno, conforme Ozenfant, e, ao mesmo tempo, a passagem
para o novo espírito purista.
Le Corbusier
personifica esta passagem, guiado por Ozenfant na pintura insossa,
pois a cor é rebaixada na hierarquia onde a forma é preeminente
(p. 75). A função da cor é meramente acessória, o que não implica
em reedição da hierarquia achada em Leon Battista Alberti para
a pintura, que a subdivide em circunscrição, composição e recepção
de luzes em Da Pintura, um discurso de meados do século
XV, que opera a conveniência entre as três partes.
A teoria purista
submete a cor à forma, discriminando-a segundo o pejo de decorativa.
A mesma censura é feita pelos autores, notadamente por Le Corbusier,
à arquitetura, que tornada decorativa, é incapaz de realizar
a sua verdadeira missão. A arquitetura, romântica, também
é meramente acessória, preenchida de ornatos fornecidos pela escola,
entenda-se, a arquitetura como protocolar, que gradualmente a
vai matando. A arquitetura só escapa da morte certa, metáfora
contra o academicismo reinante, graças supostamente aos esforços
dos engenheiros e construtores (mas não os arquitetos). Aqueles
são capazes de reconduzi-la à sua verdadeira missão, o que pode
soar como uma provocação aos arquitetos, nos dias de hoje.
Luiz Armando
Bagolin é professor de Estética na FAAP e de História da Arte
na PUC/Poços
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