| Da
colônia a neocolônia: Cuba e seus portos
resenha de lohania aruca alonso
tradução
ivana barossi garcia
A
História sustenta, abunda e confirma os enunciados da Teoria política
(e também de muitas outras ciências sociais). Ainda que cada uma
dessas disciplinas tem seu próprio passo, e sucede que a pesquisa
histórica nem sempre marcha no mesmo tempo do desenvolvimento
da teoria e da praxe da política ou da economia. Por este motivo,
às vezes, fica na sombra a demonstração dos mecanismos, instituições,
personalidades inclusive, que formam parte, ou intervêm de algum
modo, em processos sociais complexos, de duração longa ou conjuntural,
desatados a partir de uma política, ou de uma mudança nesta, que,
simultaneamente, afeta a muitos aspectos da vida de uma sociedade
em particular.
Esta identificação
tardia de um fato histórico concreto com uma teoria, que se valida
precisamente mediante os dados experimentais que aporta o primeiro,
causa certa confusão na ideologia que orienta o comportamento
de uma parte importante da sociedade. Especialmente tem lugar,
quando os novos resultados das pesquisas históricas não cumprem
seu objetivo essencial de atualizar e transformar
a informação e formação dadas como conhecimentos, capacidades
e habilidades, às novas gerações, através da instrução e da educação
nos diversos níveis de ensino; quando o pensamento e o conhecimento,
que se transmitem como um valioso legado cultural, ficaram detidos
por motivos alheios à cientificidade que deve caracterizar um
plano de estudo, e se propõe a educação por um conservadorismo
que evade o cotejo e o confronto com novas realidades.
Posso acrescentar
que, lamentavelmente, poucas vezes nos encontramos com estudiosos
procedentes das “altas regiões” da atmosfera intelectual “primeiro-mundista”,
que se interessem por nossos pontos de vista, e sobre tudo que
citem nossas publicações. No geral nos julgam fora de moda ou
faltos de referências teóricas, do primeiro mundo acadêmico certamente.
Não obstante, avançamos certeiramente na recuperação e na análise
de temas do passado, ao mesmo tempo em que vamos construindo um
ponto de vista apropriado para enfocar os problemas que nos suscita
nossa realidade.
Depois desta
introdução, talvez demasiadamente ampla, vou ao ponto, para tratar
do tema que anuncia o título de meu artigo – resenha: um novo
livro que recentemente foi lançado, e que foi a causa de muitas
das reflexões que já lhes antecipei.
Cuba e
sus puertos – siglos do XV al XXI, 2005, co-patrocinado pelo
Grupo de Trabalho Estatal Baía Havana, Instituto de História de
Cuba, Editora Historia y Carisub; reúne vinte e cinco trabalhos
que foram compilados por uma equipe integrada pelas doutoras Mercedes
García Rodríguez e Yolanda Díaz Martínez, o doutor Gustavo Placer
Cervera e a mestre em ciências Marilín Fernández Pérez. Foi apresentado
no domingo 12 de fevereiro na Feira Internacional do Livro de
Havana; anteriormente já se havia noticiado seu lançamento em
outras atividades realizadas no Instituto de História de Cuba
e na União de Escritores e Artistas de Cuba.
Na historiografia
cubana a questão dos portos foi abordada anteriormente de muitas
maneiras dentro da historia geral, mas sem chegar à profundidade
requerida e merecida no estudo de suas características particulares.
Os livros que acometem o tema com um enfoque específico sobre
este campo, quase sempre, são compilações de artigos transformados
em uma obra de autoria coletiva.
Posso mencionar
como um antecedente notável da obra que nos ocupa, La Habana,
Puerto colonial – siglos XVIII – XIX, 2000, coordenado por
Agustín Guimerá e Fernando Monge e patrocinado pela Fundação Portuária,
Madrid; deu inicio à série “Biblioteca Portuária”. Neste enxundioso
tratado em torno à baía e porto de Havana, participaram um total
de vinte e um autores, de várias nacionalidades: espanhóis (oito),
cubanos (doze) e um colombiano. De modo, que podemos considerá-lo,
com certa propriedade, dentro de nossa historiografia nacional.
Posteriormente,
se realizaram outros projetos com o auspicio da Universidade de
Veracruz no México e da Universidade de Havana, sobre as relações
entre os portos de Havana e Veracruz. Um projeto mais ambicioso
ainda foi patrocinado pelo Instituto José Luis Mora, El Golfo-Caribe
e sus puertos, tomos I e II, coordenado pela doutora Johanna
Von Grafestein. Este último possivelmente será lançado em abril
de 2006. Neste caso junto a outros estudiosos caribenhos, também
participaram alguns cubanos, esboçando as singularidades de nossa
história portuária.
Uma delas
é que, apesar de que Cuba, a maior ilha de nosso arquipélago,
possui um número importante de excelentes baías, enseadas, rias,
estuários, surgidouros e outros acidentes hidrográficos, onde
podiam habilitar-se portos de distintas categorias, com
assentamentos de populações próximos, este potencial econômico
não se aproveitou durante um longo período da época colonial (1).
O monopólio do comercio pela metrópole espanhola foi a
doutrina principal para a dominação de suas colônias americanas
e do Pacífico – e também foi empregado na Península. Um de seus
efeitos foi a restrição do uso e desenvolvimento das zonas costeiras,
inclusive vedou o acesso a estas (2). Sem duvida, o monopólio
comercial foi a causa mais importante do comercio ilegal (contrabando)
por cais clandestinos, para realizar um intercâmbio muito ativo
por Cuba com outros territórios caribenhos ou continentais da
América, violando deste modo, continuamente, as ordens reais.
A partir da
organização da Frota do ouro e da prata (1561) até as primeiras
regulamentações de liberdade de portos selecionados (1778) e a
implantação do livre comércio em 1818, transcorreram mais de dois
séculos, durante os quais a exploração da colônia se assentou
firmemente no monopólio exercido através do porto de Havana. Santiago
de Cuba e outros portos menores realizavam um comércio legal limitado
unicamente à cabotagem. Por isso, grande parte da história dos
portos cubanos neste primeiro período colonial se centra em La
Habana, puerto–ciudad–región.
Esta compilação
aparece dividida de acordo com eixos temáticos principais em seis
Partes: I. Portos: economia e comércio; II. Portos: história e
entorno; III. Portos: espaço cultural e recreativo; IV. Entorno
portuário: identidade e Sociedade; V. Infra-estrutura portuária
e espaço urbano; VI. Portos: sua função militar. O peso e rigor
de muitos especialistas já conhecidos por sua obra neste tema,
ou outros afins, como é o caso de Gustavo Placer Cervera (historiador
militar e naval), Ovidio Ortega Perera (historiador arqueólogo),
Mercedes García Rodríguez (historiadora econômica), Carlos Venegas
Fornias (historiador de arte), Ernildo González Pérez (historiador
do Ministério da Pesca), avalizam a seriedade desta obra que inicia
uma linha de pesquisa de grande importância historiográfica.
Destacam-se
vários trabalhos da Parte I por discutir com acerto algumas das
formas nas que se organizou e manifestou o monopólio colonial
sobre a industria e o comércio havanês, recomendo: “El Real Arsenal”
do Dr. Ovidio Ortega Perera; “El trasiego mercantil de la Real
Compañía por el puerto habanero” da Dra. Mercedes García Rodríguez:
“Arqueología del comercio en el puerto de La Habana a inicios
del siglo XIX” do Dr. Ortega, Yamilé Luguera González e César
Alonso Sansón. Uma nota do Dr. Gustavo Placer Cervera titulada
“El faro del Morro de La Habana en su 160 aniversario” (pertencente
à Parte II), rememora a importância desta instalação e sua renovação
tecnológica com meios muito avançados do século XIX.
Posteriormente,
1820 em diante, Ernildo González Pérez detalha em “Desarrollo
de la pesca en el puerto de La Habana durante el período colonial”,
como se estendem os métodos monopólicos favorecendo a influentes
personagens peninsulares. Revelam-se as artimanhas da administração
colonial para o estabelecimento do novo peixeiro e seu
controle sobre o peixe em Havana, através do alferes de fragata
da Real Armada Francisco Marty y Torrens, um carismático catalão
da época, traficante de escravos africanos negros e proprietário
do grande Teatro Tacón. A este seguiram no negocio do pescado
outras personalidades, tão interessantes como o escritor havanês
José Güell y Renté (1818-1884) (3), membro da ilustre família
do Condado de Güell, na Catalunha (4), casado com a irmã do rei
consorte de Isabel II, dom Francisco de Asís de Borbón (1822-1862),
e, por último, senador pela Universidade de Havana em 1879.
Um extenso
estudo sobre “Regionalidad en el Oriente de Cuba; puertos, migraciones
y comercio” (Parte I) da MC Ivette García González, emoldura as
generalidades de um desenvolvimento econômico social a fins do
século XVIII e durante o XIX, muito diferente do protagonizado
pelo ocidente cubano. Este último, quase sempre é mais conhecido,
pela transcendência econômica social que teve nessa região a plantação
açucareira escravista e a liderança nacionalista da classe que
a fomentou; foi analisado erroneamente como um esquema geral da
“historia de Cuba” em alguns livros de texto que precedem à historiografia
contemporânea (dos anos sessenta até hoje em dia).
Os estudos
de caso de portos habilitados depois da implantação do livre comércio,
durante o início do século XIX, suas cidades portuárias e regiões
econômicas adjacentes, têm grande interesse para os leitores,
porque pelo quadro local se associam a diversos temas históricos
gerais revelando dados muito peculiares no modus operandi
do regime colonial. Assim sucede no artigo que trata sobre “El
puerto de Matanzas y el tráfico de esclavos (1793-1839)” (Parte
I), da Lic. Martha Silvia Escalona Sánchez; ou os que estudam
valores urbanísticos e arquitetônicos associados a novos assentamentos
de população com vocação portuária, que aspiram simultaneamente
seguir o paradigma da modernidade: “Sagua la Grande, puerto naciente”
do Lic. Carlos Venegas Fornias (Parte II); “El puerto de Santiago
de Cuba a fines del siglo XIX: la utopía de la modernización”
da Dra. María Teresa Fleitas Monnar, onde se resumem a inconformidade
do obtido frente às aspirações de uma camada social da burguesia
santiaguera que se destaca por sua cultura urbana. A influência
das novas imigrações peninsulares é o centro do estudo nomeado
“Emigrantes asturianos en Cienfuegos: comercio, arquitectura y
modernidad” do Lic. Alejandro García, descobre uma nova faceta
ou aresta da identidade daquela formosa cidade da região central
de Cuba, fundada principalmente por imigrantes franceses. Os dois
trabalhos que acabo de mencionar podem ser encontrados na Parte
III.
“Puerto Príncipe:
comercio marítimo y identidad cultural” do Lic. Marcos Antonio
Tamames Henderson, confirma que as raízes do subdesenvolvimento
brotaram nas cidades interiores ou mediterrâneas, intimamente
relacionadas com a ausência do comercio marítimo legal, afetadas
pelas limitações, carências e pelos altos preços que emanavam
do contrabando de mercadorias de toda índole através de portos
e cais próximos, estimulando seus incrementos pela permanente
perseguição da Armada contra os que cometiam tais delitos.
As marcas
histórico-sociais que constituem a identidade de segmentos de
populações pobres, estabelecidos ao redor de portos com grande
movimento comercial açucareiro escravista, como é o caso de Havana,
Matanzas e Cárdenas, no século XIX, se refletem nas análises da
MC. Ohilda Hevia Lanier sobre o mutualismo e suas contradições
raciais, neste trabalho se destacam as evidências de uma contracultura
negra: “La sociedad secreta Abakuá: una organización del entorno
portuario de La Habana y Matanzas en el siglo XIX”. Enquanto que,
“Delincuencia y marginalidad en torno al puerto habanero a fines
del siglo XIX” da Dra. Yolanda Díaz Martínez, descreve os procedimentos
da corrupção administrativa na sociedade colonial branca.
Através do
feminismo a doutora Raquel Vinant Mata leva a cabo um olhar à
vida portuária que documenta em “Los puertos de Cuba y la actividad
laboral femenina”. A exploração da mão de obra feminina mediante
a produção domiciliar alimentou um comércio ilegal vinculado a
artigos de vestir, enxovais e outras atividades ao redor das confecções
têxteis. A saída destes produtos, via do contrabando, foi o porto
de Santiago de Cuba para outros países antilhanos, e tal atividade
transcorreu desde fins do XIX até as primeiras décadas do século
XX. Um esboço para o estudo do aceso à Ilha e sua cultura de novas
religiões, de origem distinta ao metropolitano, foi através de
certos portos cubanos, segundo propõe “Protestantes en puertos
cubanos”, da MC. Yoana Hernández Suárez; todos os trabalhos mencionados
aparecem na Parte IV.
Especialmente
notável na etapa neocolonial da República de Cuba (1902- 1958),
foi a evolução da instituição Marinha de Guerra e suas relações
de subordinação aos corpos militares dos Estados Unidos da América.
Sobre os momentos de trascendência histórica na conformação de
tais vínculos de dominação, antes e durante a II Guerra Mundial
e com posterioridade a esta, tratam os artigos da Parte VI: “Bahías
y puertos cubanos en la geoestrategia norteamericana (1939-1945)”
do Dr. Servando Valdés Sánchez e “Particularidades de una institución
al servicio de las comunicaciones marítimas” de Marilú Uralde
Cancio.
Ponho ponto
final a estes comentários incompletos -porque é impossível referir-me
a cada um dos vinte e cinco trabalhos por igual num espaço limitado,
que me compreendam e desculpem todos os autores e organizadores-,
quando expresso com sinceridade o acerto da Parte V, onde confluem
vários trabalhos que se projetam em direção aos vindouros anos
do século XXI com um enfoque ambientalista sobre os portos de
Cuba. Isto é, de certa maneira, inovador e muito positivo.
De novo a
baía e o porto de Havana centram a atenção, agora a do Grupo de
Trabalho Estatal Baía de Havana. Seus projetos de recuperação,
conservação e reutilização – em certas funções novas - deste centro
marítimo de nossa capital, servirão de pauta para o resto do país
(como já ocorreu em 1861, com as Ordens de construção de Havana).
Dos quatro artigos assinados pelos especialistas Lic. Angel Valdés
Mujica, a MC. Marilín Fernández Pérez, outro de um coletivo de
autores sobre um sistema de informação geográfica na Baía de Havana,
há um muito interessante, que já foi reconhecido em outra publicação
excelente (El Pelícano da Bahía de La Habana, ano 2, agosto de
2005, p. 8-15): “Perímetro de la Bahía de La Habana: reflexiones
sobre una evolución. Conformación y imagen de un territorio”,
do arquiteto Yasser Farrés Delgado.
Parabéns para
todos, os organizadores e autores!
Notas
1
As populações aruacas que haviam descoberto e habitavam a Ilha
não realizavam a função comercial que caracteriza essencialmente
aos portos, empregavam as baías, enseadas, e outros lugares costeiros,
como acessos, ou parte dos caminhos marítimos que uniam às Antilhas
com as terras continentais. Também como fonte dos produtos que
necessitavam para apoiar uma economia de subsistência.
2
O Vedado é o nome de uma nova urbanização em Havana da segunda
metade do século XIX, que derivou do apelativo empregado para
a zona da costa (vedado) à oeste da cidade amuralhada.
3
Diccionario de la Literatura Cubana, Instituto de Literatura
e Lingüística da Academia de Ciências de Cuba, 1980, Editorial
Letras Cubanas, Havana, Tomo I, A-LL, p. 396-397.
4
O condado de Güell, foi comprado com a fortuna de origem cubana
unida por dom Antonio López López (1817-1883), primeiro marquês
de Comillas, quem também respaldou economicamente a obra artística
de Antonio Gaudí.
Lohania
Aruca Alonso é membro da UNEAC, Vice-presidente da Seção
de História da Associação de Escritores e
membro da UNAICC
|