Jogos
caleidoscópicos em Lina Bo Bardi
resenha de vera santana luz
Primeiramente
impressionam as imagens. O livro de Olívia de Oliveira, editado
pela Romano Guerra e Gustavo Gili, nos faz ver o imaginário de
Lina Bo Bardi ampliando consideravelmente a iconografia editada
– o que é um grande prazer para o estudioso do assunto. Dispõe
seus belos desenhos e imagens da arquitetura projetada e construída
montando coleções de quadros finamente articulados ao texto. Isto,
desde já, é uma preciosidade. Lina Bo Bardi mencionou certa vez
seu amor pela coleção de pedras e a estima pelas pedras brasileiras
não consideradas preciosas – possível embrião para o desenho de
jóias.
O texto de
Olívia de Oliveira vai também colecionando imagens a partir de
associações de idéias, impressões, analogias. Constrói uma escritura
poética particular, uma narrativa livre pautada na observação
e leitura das obras, dos desenhos, dos indícios, mais do que a
construção estrita de uma estrutura de tese. Esse procedimento
convida o leitor à imaginação. O texto aponta para uma rede de
possibilidades de significados, sobrepõe camadas chegando, em
certos momentos, a flertar com o onírico.
Não fora,
muitas vezes, a arquitetura de Lina Bo Bardi também próxima ao
onírico e este procedimento poderia nos causar espécie, ou uma
certa estranheza; não fora também, muitas vezes, à primeira vista,
causa de estranhamento a arquitetura de Lina Bo Bardi? Meditando
sobre essa escritura tão particular podemos imaginar que exista,
no limite, um certo mimetismo entre o que Olívia de Oliveira destaca
do que vê na arquitetura de Lina Bo Bardi e o recurso de seu próprio
método narrativo. É provável que, se de fato esta mimese se dá,
seja por uma atitude emotiva, uma relação muito afetiva entre
o objeto de pesquisa e a pesquisadora.
inegável a
impressão que fica, ao ler seu depoimento sobre as obras – vivencial,
existencial –, de que haja uma relação de paixão, o que contribui,
a nosso ver, para a legitimidade ao texto. A linguagem da paixão
é cifrada, individual, cheia de particularidades, permite incursões
por territórios e lógicas que a racionalidade não contém. Mas
existe também uma dimensão racional implacável na obra de Lina
Bo Bardi, racionalidade a qual, ao que nos parece, mede, ordena,
calcula, organiza. Talvez o poder da arquitetura de Lina Bo Bardi
resida, em grande parte, no controle e rigor da razão sobre a
pulsão imaginativa. E estes dois pólos, neste caso, são indissociáveis,
embora pareçam paradoxais.
Olívia de
Oliveira propõe infinitos jogos de significado, especulares, labirínticos,
caleidoscópicos. Por entre a vertigem de idéias e especulações
podemos escolher as alternativas que quisermos, não há um texto
fechado, convergente. Nessa articulação tecida, uma renda, uma
colcha de retalhos, são estabelecidas categorias onde podem estar
contidos ar, luz e tempo como sutis substâncias; onde tempo e
respiração podem ser uma demonstração vital da arquitetura; onde
espirais podem ser desenhadas no ar procurando sentido e onde
natureza, arte e história são lidas como ritmos de candomblé.
Se houver alguma procura mística nesse texto, certamente estará
relacionada a uma ancestralidade pagã – musical e pré-verbal –,
anterior e subjacente à história monoteísta mais recente.
Benvindos,
sempre, os livros que falam de arquitetura; pois a arquitetura
detém a irredutível necessidade de existir de fato, sem palavras,
no mundo, nas cidades, ser construída e utilizada plenamente,
formar ambiente. Mais além de se contentar com sua existência
real há os que se detém procurando descobrir nos artefatos da
arquitetura significados recônditos não evidentes. Parece que
a obra de Lina Bo Bardi instiga essa busca. Que venham pois, os
livros, nos convidar a pensar. Ou ao menos sonhar.
Vera Santana
Luz é formada pela FAU Mackenzie, Doutora pelo Curso de
Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da Universidade São Paulo, professora da FAU
PUC-Campinas desde 1986 realizando projetos e obras de arquitetura
em escritório próprio em sociedade com o arquiteto
Fernando Vianna Peres na Casa de Projetos
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