A
arte de Lina Bo Bardi
resenha de márcia ferreira luz
Arrojada e
experimental, a arquitetura e a arte de Lina Bo Bardi serviram
de inspiração para a tese de doutorado apresentada, na Escola
Técnica Superior d’Arquitectura, Universitat Politècnica
de Catalunya, em setembro de 2000, por Olivia de Oliveira, que
morou em Salvador, formou-se pela UFBA e hoje reside na Suíça.
O trabalho foi transformado no livro Lina Bo Bardi –
Sutis Substâncias da Arquitetura, que acaba de ser lançado
em conjunto pela Romano Guerra Editora (São Paulo) e Editorial
Gustavo Gili (Barcelona). A obra apresenta 700 imagens entre fotos
e desenhos e foi concebida com o apoio do Instituto Lina Bo Bardi.
A partir de
textos, fotos e reproduções de plantas e rascunhos da arquiteta
italiana, Olivia explica a obra e destrincha o estilo de Lina.
Ela toma alguns exemplos de projetos arquitetônicos como a Estação
Guanabara (centro de convivência da Unicamp, não construído);
Sesc Pompéia; Masp (1957, primeiro grande projeto de Lina, localizado
na Av. Paulista, entre o Parque Trianon e o Vale do Anhangabaú);
Casa de Vidro – primeira residência do bairro paulista do
Morumbi, ocupa um terreno de 700 metros quadrados – lá Lina
Bo Bardi viveu e morreu em 20 de março de 1992; além da famosa
Casa do Chame-Chame, construída em Salvador em 1958 e demolida
em 1984.
Também são
mostrados os elementos usados por Lina Bo Bardi na sua arquitetura:
gárgulas, escadas, cadeiras; jardins, além de fotos de exposições
realizadas por ela, a exemplo de Bahia e Nordeste, nas quais mostrou
ex-votos. A primeira aconteceu na Bienal de São Paulo, Ibirapuera,
em 1959, e a segunda, no Museu de Arte Moderna da Bahia, em 1963.
"O Sesc, o Masp, a Casa de Vidro e a Casa do Chama-Chame
apresentam-nos imagens que estão constantemente intercambiando-se:
caixa d’água, caixa de luz, imersão, flutuação. Imagens
que nos darão essa característica indeterminada e ao mesmo tempo
interminável e indivisível da obra de Lina", analisa Olivia.
O que mais
chama a atenção da autora no conjunto da italiana, que também
foi artista plástica, cenógrafa, designer de móveis, objetos e
jóias, e curadora de exposições, é o senso de liberdade privilegiado
pela arquiteta em cada projeto que desenvolveu. Liberdade de ousar,
de misturar coisas, criar funcionalidades e, sobretudo, não se
enquadrar em rótulos.
Na opinião
de Olivia, a criação de Lina é um "mosaico capaz de juntar
o impensável, não porque parta de projetos, não porque tenha fantasias,
mas, ao contrário, porque trabalha com o material disponível".
Ou seja, Lina constrói e desconstrói para atender à necessidade
do que tem a mão. Por isso, as obras dela sempre tiveram um ar
espontâneo.
Nascida em
Roma, em 5 de dezembro de 1914, Lina Bo Bardi formou-se no ano
de 1939, pela Escola Superior de Roma, e após ter o escritório
bombardeado durante a II Guerra Mundial, veio para o Brasil. Naturalizou-se
em 1951, mesmo ano em que projetou a Casa de Vidro.
Versátil –
ela integrou a geração intelectual das primeiras vanguardas
artística e política, que tinha o surrealismo como último grande
movimento artístico-ético. Portanto, isso explica a efervescência
criativa da arquiteta. Mais que isso: ela não exercia a arquitetura
pela arquitetura, mas pincelava no trabalho dela referências de
outros campos como arte, filosofia, antropologia, literatura e
psicanálise. Por causa disso se aproximou de Lygia Clark, Hélio
Oiticica, Glauber Rocha, José Celso Martinez e Flávio Império.
Ao longo das
400 páginas do livro, Olivia de Oliveira fala sobre essas coisas
e faz também avaliações técnicas dos projetos e comparações, como
ocorre entre a Casa de Vidro e a Casa do Chame-Chame. "Nessas
casas, já encontraremos todos os temas essenciais desenvolvidos
por sua arquitetura. Elas permitem que compreendamos, nos pequenos
objetos e detalhes, como estão sendo abordados os temas e preocupações
presentes em suas obras de maior envergadura. Em Lina, não há
diferença entre grande e pequeno, ao contrário, o que pretendo
fazer ver é que justamente nos aspectos marginais, fronteiriços,
esquecidos e "mudos" é que reside a potência de sua
arquitetura", comenta a autora.
Independente
do fato de trabalhar com materiais diversos, Lina Bo Bardi imprimiu
nas próprias obras uma unidade, que derruba qualquer tentativa
de entender tal criação a partir de uma seqüência temporal biográfica.
Essa característica permite identificar e interpretar obras concebidas
em lugares e épocas diferentes. Tal unidade, descreve Olivia,
é baseada na presença de elementos que se multiplicam na arquitetura,
como gárgulas, rios, tanques de água de chuva, cachoeiras, árvores,
pilares-árvores, escadas, carrosséis.
"Neste
trabalho quis, sobretudo, alertar contra uma certa leitura bastante
confusa e obscurantista em suas implicações políticas, salvaguardando
a potência e a atualidade da obra de Lina, enquanto confrontação
crítica e real a um estado de coisas. Sou contra uma leitura corrente
da obra de Lina onde se pretende inseri-la em uma linha de pensamento
utópico-imobilista originária das vanguardas modernas-européias",
afirma. Sutis Substâncias da Arquitetura é um livro para quem
é do ramo da arquitetura e também para quem gosta de arte e tem
bom gosto, mas, sobretudo, deseja fazer uma viagem pelo rico universo
de Lina Bo Bardi.
Texto publicado
originalmente no jornal A Tarde, Caderno 2. Salvador, 22
maio 2006, p. 3 <www.atarde.com.br>.
Márcia
Ferreira Luz é jornalista
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