O
ângulo reto da análise urbana
resenha de lidia santana
Em “Uma estratégia
fatal: a cultura nas novas gerações urbanas”, a filósofa Otília
Arantes empreende uma análise crítica dos processos ideológicos
que presidem aos movimentos de globalização em sua relação com
o planejamento e a gestão de cidades, tema amplamente explorado
pela produção acadêmica no Brasil desde os anos 90. A erudição
e a fluência argumentativa da autora sustentam um discurso competente
que desfaz, de modo implacável, perspectivas construtivas diante
de um mundo subsumido ao capital.
Dois eixos
centrais se entrecruzam e se reforçam mutuamente no texto de Arantes:
o primeiro se relaciona à identidade de natureza do projeto moderno
das vanguardas arquitetônicas com a modernização capitalista,
daí a continuidade no pós-modernismo com “o formalismo do ciclo
anterior”, em que os movimentos nesse plano resultariam de “reviravoltas
niveladoras” tributárias da hegemonia global; o segundo centra-se
na “mercadorização” da cidade através de “abordagens culturalistas”
e políticas de image-making assimiladas nos projetos urbanos,
com a conseqüente transformação da cidade em “mercadoria total”
em que os variados encaminhamentos arquitetônicos e urbanísticos
desde o modernismo não passariam de representações ideológicas
das estratégias de dominação.
Partindo daí,
a autora deslinda a “estratégia fatal” em torno da construção
de um “pensamento único das cidades”, forjado pela simbiose entre
“o interesse econômico da cultura e as alegações culturais do
comando econômico” (p. 67). Nessa direção, busca o “encadeamento
objetivo” do chamado “culturalismo empresarial” encarnado não
apenas na ideologia dos planos estratégicos cuja matriz norte-americana
teria se generalizado, mas, também, assimilado nos movimentos
do urbanismo contemporâneo, e nos “Grandes Projetos” realizados
mundo afora (p. 47-48).
O foco da
análise não se restringe, portanto, aos enclaves das metrópoles
periféricas, ou às cidades genéricas e sem identidade dos EUA,
as edge cities, locais de reprodução de tipologias urbanas
e arquitetônicas que respondem às necessidades de comando da economia
global, e em que se opera a negociação das condições materiais
e simbólicas do capitalismo avançado. Trata-se de uma generalização
acerca das intervenções urbanas de cidades européias como Paris,
Lisboa, Barcelona, Londres e Berlim, e cidades dos Estados Unidos,
especialmente Baltimore, tida como matriz da tournant cultural
do capitalismo avançado.
Para Arantes,
as políticas de ocupação do território urbano sob a globalização
determinam de modo generalizado a transfiguração do espaço em
“cidade-negócio” capitaneada pelo “culturalismo de mercado”, ou
seja, uma verdadeira “máquina de produzir riquezas” conforme Molotch
e Logan (1) precocemente diagnosticaram. Nesse processo, a adesão
da população em torno dos “famigerados” projetos de requalificação/revitalização
urbana, então associados aos processos de gentrificação,
expressaria o poder da “máquina ideológica” mediante expedientes
do tipo “consensos cívicos” ou “coalizões urbanas pró-crescimento”.
Arquitetos
e urbanistas se incluiriam entre “o séqüito de coadjuvantes” dessas
coalizões e desempenhariam papel de “operadores-chave” da “máquina
urbana de crescimento” na criação da cidade-espetáculo; teóricos,
como Fredric Jameson e Jürgen Habermas, para não falar dos catalães
diretamente envolvidos com o planejamento estratégico de cidades,
restariam seduzidos, cada um a seu modo, ao espectro de uma esquerda
naturalmente assimilada ao cultural turn.
A análise
sobre a continuidade entre modernismo e pós-modernismo no urbano
mostra que a utopia modernista se esfuma na racionalidade funcionalista
da linha de montagem fordista e, do mesmo modo, as manifestações
arquitetônicas no pós-moderno se subsumem na “mercadorização integral”
da cidade. A diferença fundamental entre ambos estaria na ingenuidade
dos modernos ao se imaginarem desprendidos da “dura verdade de
sua funcionalidade sistêmica”, enquanto os pós-modernistas não
só legitimariam como invocariam a “cidade-empresa” (p.17). Em
poucas palavras, poderia se dizer que de Corbusier a Koolhaas,
nenhuma ruptura maior, apenas “a mesma e paradoxal animação urbana”.
A globalização
tem se apresentado nas análises marxistas como uma evolução do
sistema capitalista, uma continuação que é, contudo, acentuação
e aceleração, com manifestações na economia, na política, na cultura
e nos comportamentos sociais. Ao relacionar produção arquitetônica
e modernização capitalista, opera a autora uma interpretação unilateral
dessas teses que apresentam a substância do pós-moderno como a
conversão do capital em totalidade, isto é, como a realização
do moderno no sentido oposto ao de ruptura ou mutação do sistema
como insinua o conceito de ‘sociedade pós-industrial’.
Uma sobreposição
linear desse pensamento ao campo do saber ou à esfera cultural
tende para a uniformização dos movimentos, induz a ver continuidade
onde impera a diversidade, leva a produzir uniformizações onde
tudo se multiplica. Desse modo, a multiplicidade e a diversidade
dos eventos arquitetônicos desde meados do século XX se reduzem,
na dialética da autora, a uma condição homogeneizante, mera representação
ideológica da estrutura econômica.
Sabe-se que
o capital sempre foi indiferente ao mundo concreto e múltiplo
dos valores de uso, e que se participa desse mundo é na medida
de sua própria valorização. Fredric Jameson (2) compreende que
no nível econômico da globalização, a produção de meios de consumo
se tornou um fenômeno cultural, o que não significa que o capitalismo
tenha se tornado “uma forma cultural entre outras rivais”, como
traduz Arantes (p. 47). Com percepção diversa à postulada pela
autora acerca da dinâmica da relação entre a dimensão econômica
e cultural, Jameson (3) refere-se a uma “revolução cultural na
escala do próprio modo de produção”, compreendendo que a inter-relação
do cultural com o econômico “não é uma via de mão única, mas uma
contínua interação recíproca, um círculo de realimentação”.
Jameson (4)
percebe na lógica cultural do capitalismo avançado mudanças
substanciais na arquitetura pós-modernista e releva sua maior
proximidade, “entre todas as artes”, com o campo econômico através
da relação da obra com o valor do solo. Nesses termos, os grandes
investimentos em equipamentos culturais ou em preservação e restauração
não se constituiriam como afirma a autora, “uma dimensão associada
à cultura na condição de isca ou imagem publicitária”, mas, os
próprios equipamentos e edificações preservadas e restauradas
constituiriam, simultaneamente, a dimensão cultural e econômica
na estratégia de promoção da cidade.
Ao isolar
a componente cultural do campo das complexas relações de causas
e efeitos que se estabelecem entre os processos materiais e ideológicos
(5), “ao negar o caráter eficiente (e não apenas representativo)
e intelectivo (e não apenas ideológico ou pulsional) do discurso
arquitetônico [...] Otília nos lega um mundo governado por forças
intransponíveis do capital” (6). O mundo irremediavelmente obscuro
do Urbanismo em fim de linha.
Referindo-se
ao contexto brasileiro, Maricato (7) informa que o Planejamento
Estratégico (PE) trouxe, ao mesmo tempo, “a perspectiva de um
novo papel político e econômico” para as cidades, diante do “aumento
do desemprego e das demandas sociais, da guerra fiscal e da diminuição
dos recursos públicos nacionais, decorrentes dos cenários internacionais”.
O plano estratégico emerge, assim, entre outros estilos de planejamento
a partir da década de 1990, não apenas nas regiões desenvolvidas,
mas se generaliza como instrumento do projeto-cidade valorizando
o papel promotor do Poder Local e favorecendo a articulação entre
Estado, mercado e comunidade (8).
Um posicionamento
adverso à formação de parcerias e ao estabelecimento de um ambiente
dialógico entre Estado e a sociedade civil como o explicitado
pela autora, se contrapõe não apenas aos pressupostos do PE, mas
a qualquer projeto propositivo voltado para a promoção de oportunidades
locais, neutralizando iniciativas por novas formas de governabilidade
urbana a partir das práticas sociais e espaciais.
Partindo do
suposto de que a globalização é um processo submetido a determinações,
mas não a fatalismos, pode-se compreender a ênfase na “pró-colonização
urbano-cultural pelo reino da mercadoria” que norteia o discurso
de Arantes, como um alerta, e mesmo como a lógica que move segmentos
poderosos do capital. Mas, sua materialização não se reduziria
a uma homogeneidade ideológica nem à universalização de seus mecanismos
e resultados. A ausência desse foco deixa sem explicação os movimentos
mais recentes pelo direito à cidade, e neutraliza a discussão
da crise do sistema neoliberal na atualidade (9), ao tempo em
que nega a possibilidade de projetos urbanos socialmente necessários,
remetendo qualquer perspectiva emancipacionista para além do capital.
O texto de
Arantes parece, então, emergir da positividade discursiva da crise
da análise urbana comentada por Maricato (10), como sendo a recusa
de parte da elite intelectual despotenciada de visão prospectiva,
em colaborar de modo propositivo diante “da impossibilidade do
planejamento democrático e igualitário”. Outra é a positividade
dos enunciados de Ernst Bloch (11) e, antes dele, Antonio Gramsci
(12) no início do século XX, em que ambos comungam com Marx em
torno de resultados objetivos que extrapolam o âmbito da teleologia.
A retórica
do discurso da autora encerra a análise urbana no dualismo do
ângulo reto, em que o campo se fecha sem gradientes ou singularidades,
e em que não há espaço para a emancipação voltar a fazer parte
da dinâmica histórica consciente de seu tempo presente, nesse
processo inconcluso e de futuro indeterminado inventado pela globalização.
Notas
1
LOGAN, John R.; MOLOTCH, Harvey L. Urban Fortunes: the political
economy of place. University California Press, 1987.
2
JAMESON, Fredric. Postmodernism or the cultural logic of late
capitalism. London, E & FN Spon, 1992.
3
Idem, ibidem, p. 18.
4
Idem, ibidem, p. 31.
5
“Aos olhos do marxismo vulgar a superestrutura é uma conseqüência
mecânica, causal, do desenvolvimento das forças produtivas. O
método dialético não reconhece de fato relações desse tipo. A
dialética nega que possa existir em alguma parte do mundo relações
de causa-efeito puramente unilaterais; nos dados reais mais elementares
reconhece complexas relações de causas e efeitos”. LUKÁCS, Georg.
Beitrage zur Geschichte der Aesthetik, 1954. Apud PATETA, Luciano.
História de la arquitectura: antologia critica. Madrid,
Hermann Blume, 1984. p. 26-27.
6
Comentários de Abílio Guerra sobre o livro da autora intitulado
“Urbanismo em fim de linha”. GUERRA, Abílio. O véu e a mortalha.
Resenha Online nº 015. São Paulo, Portal Vitruvius, dez.
2001. <http://www.vitruvius.com.br/resenhas/textos/resenha015.asp>.
Acesso em 31/05/2006.
7
MARICATO, Ermínia. Brasil, cidades. Rio de Janeiro: Vozes,
2001, p. 61.
8
Esses processos vêm sendo induzidos, em grande parte, pelo aumento
da mobilidade, da renda e do tempo livre das sociedades, com o
crescimento da indústria do turismo e a ampliação, em escala planetária,
dos fluxos turísticos nas últimas décadas. O aumento da renda
coloca-se aí de um ponto de vista absoluto no caso dos países
periféricos, reduzindo-se crescentemente de um ponto de vista
relacional se comparado à renda das classes e países dominantes.
9
Segundo Harvey (2003), a crise do neoliberalismo se coloca como
resposta contraditória de suas próprias sociedades, na tentativa
de tornar a cidade cada vez mais livre das amarras políticas e
do capitalismo financeiro. Considera, ainda, que é no plano das
relações sociais, é nas cidades que as transformações necessárias
podem acontecer. HARVEY, David. The new imperialism. Oxford,
Oxford University Press, 2003.
10
MARICATO, Ermínia. Op. cit., p. 48.
11
Refere-se ao livro “O Princípio Esperança” de Ernst Bloch, volume
1, publicado em 1938.
12
Refere-se ao artigo “Contra o Pessimismo” de Gramsci, publicado
em 1924 no jornal italiano Ordine Nuovo.
Lidia
Maria Leal Santana, arquiteta (FAUFBA), MSC em Análise Regional
(UNIFACS), doutoranda em Arquitetura e Urbanismo (UFBA). Analista
de Serviços Urbanos da Prefeitura Municipal do Salvador (PMS),
sócia fundadora do Instituto de Pesquisas Sociais (IPS), Salvador
BA
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