Arte
como resistência
resenha
de cecília rodrigues dos santos
O lançamento
no Brasil da tradução da obra de Giulio Carlo Argan, Projeto
e destino, merece ser festejado, ainda que aconteça com atraso
de quase 40 anos em relação à primeira edição italiana. Historiador
e crítico de arte, nascido em Turim em 1909, Argan morreu aos
83 anos de idade deixando vasta obra de reflexão sobre a arte,
o design e a arquitetura. E, ao eleger a cultura como objeto privilegiado
da sua reflexão, passou a se interessar especialmente pelas cidades,
considerando-as como obras de arte, ao mesmo tempo suporte da
memória dos homens e objeto da sua ação transformadora.
Outra obra
de Argan editada no Brasil em 1992, História da arte como história
da cidade, traz algumas dessas reflexões que anteciparam e
sucederam sua experiência como prefeito de Roma (1976-79), quando
teve a oportunidade de se confrontar, na prática da gestão, com
os desafios mais complexos e instigantes que poderiam ser lançados
por uma cidade a um administrador que, antes de tudo, era um historiador.
Projeto
e destino reúne sua produção anterior através de 29 ensaios
escritos entre 1930 a 1964, que resumem o pensamento de Argan
sobre a cultura durante a Segunda Guerra e no imediato pós-guerra,
celebrando o homem como o centro da história da arte e da história
da cidade. Leitura referencial bastante oportuna em um momento
brasileiro de “despertar”, geral e até consensual, para a necessidade
da recuperação e revitalização das nossas cidades, em particular
de suas edificações e tecidos históricos. Ao longo dos textos,
Argan ressalta a necessidade de conservação das obras de arte,
a cidade entre elas, de forma a não separá-las da vida nem arrancá-las
da consciência dos homens. Segundo ele, o centro de uma cidade,
entendido como uma realidade histórica, com conteúdo social e
pluralidade de funções, não pode ser imobilizado, nem agredido
fisicamente, nem mesmo violado em suas funções, e sim deve sempre
ser tratado como a obra de arte que de fato é. E recomenda: “o
dever dos arquitetos que elaboram um plano diretor para uma cidade
[...] é considerar o problema do conteúdo urbano na profundidade
e na estratificação da sua história e não apenas na superfície
das exigências atuais” (em A Cultura das cidades).
Esse recorte
da produção extremamente erudita do estudioso e professor mantém
uma característica intrínseca a toda sua produção: o enraizamento
no momento histórico específico e o tom profundamente crítico.
Assim, a leitura de cada um desses ensaios nos remete a uma instigante
operação “arganiana” de compreensão da dimensão conceitual esboçada
assim como de sua condição histórica específica. Esse deveria
ser o filtro para se entender a negação incondicional, quase emocional,
da “vulgaridade despropositada da edilicia (sic) fascista” em
Eliante ou da arquitetura, (arquitetura que hoje, tomado
o devido distanciamento, é merecedora de importantes estudos)
assim como entender suas considerações paralelas sobre a arquitetura
moderna racionalista dos arquitetos Giuseppe Pagano (morto em
um campo de concentração), Giuseppe Terragni e Edoardo Persico
(vítimas precoces de doenças contraídas durante a guerra), cujas
obras Argan acompanha com interesse de historiador, dialogando
com os autores nas páginas da revista de arquitetura Casabella.
Mesmo recusando sequer considerar a arquitetura italiana oficial
do fascismo, o crítico Argan não deixa de valorizar a arquitetura
racionalista de seu país situando-a no contexto internacional
da discussão “entre as duas instâncias de superação do racionalismo
do pós-guerra”. Este diálogo com seu tempo se dá em textos de
caráter geral, e em conversas mais diretas com críticos, artistas
e intelectuais como Cesare Brandi em Arquitetura e Ideologia
e “Eliante” ou da arquitetura, Bruni Zevi em Arquitetura
Orgânica e em A propósito de espaço interno, Henry
Hope Reed em A “terceira pilhagem” de Roma, Ernesto Rogers
em A igreja de Ronchamp - Le Corbusier.
A especificidade
desse debate que prevaleceu no meio arquitetônico italiano no
pós guerra, contrapondo modernidade / tradição e estética / ideologia,
demorou a ser compreendida pela crítica internacional em toda
sua dimensão histórica e regional, retardando assim o estudo e
o reconhecimento de uma produção artística de extrema importância,
conforme reconhece em 1984 Jean-Louis Cohen em seu estudo pioneiro
“La coupure entre architectes et intelectuels, ou les enseignements
de l´italophilie.
Merece menção
ainda, mesmo não estando incluído nessa obra como um dos interlocutores
diretos de Argan, o arquiteto Manfredo Tafuri, seu aluno e discípulo.
O trabalho fundamental de estudo e crítica desenvolvido por Tafuri
no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza a partir do
final dos anos 1960 dá continuidade à reflexão de Argan, particularmente
às idéias contidas nos textos reunidos nesse livro. Para chegar
à proposta de uma nova relação entre arquitetura e urbanismo,
e aprofundar as discussões sobre ideologia e estética na produção
arquitetônica, questionando o discurso dominante na história da
arquitetura produzida, também na Itália, por autores como Bruno
Zevi e Leonardo Benévolo, os intelectuais de Veneza, inclusive
Manfredo Tafuri, não poderiam ter deixado de mergulhar em textos
como Sobre o conceito de tipologia arquitetônica, A
arquitetura moderna ou Arquitetura e Ideologia.
Para os estudiosos
da arquitetura moderna no Brasil, os ensaios críticos reunidos
em Projeto e Destino têm uma importância particular. Sintetizam
as idéias que perpassam um dos momentos mais fecundos da criação
arquitetônica nacional e são bastante esclarecedores quando se
trata de localizar a polêmica de Lucio Costa e Oscar Niemeyer
com a crítica internacional nos anos 1950 - Walter Gropius, Max-Bill
e Ernest Rogers – quando discutiram sobre a validade das formas
orgânicas presentes na arquitetura de Niemeyer a partir dos projetos
elaborados para o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte e mais
tarde para a Casa das Canoas. Também são importantes como referência
para a discussão sobre estética e ideologia que está na origem
da arquitetura moderna produzida em São Paulo a partir de meados
dos anos 1950.
Argan se demora
discutindo e contrapondo especialmente duas correntes históricas
da arquitetura moderna, a racional e a orgânica.
Através da
análise da arquitetura racionalista européia produzida na época,
entre os anos 1940-1950, e de estudos sobre as obras de arquitetos
como Le Corbusier, Walter Gropius, Marcel Breuer, Pier Luigi Nervi,
Mies van der Rohe, Theo van Doesburg, do grupo De Stijl, bem como
através da análise de trabalhos desenvolvidos segundo uma linha
mais orgânica, especialmente aqueles de autoria do arquiteto americano
Frank Lloyd Wright, Argan levanta, ao longo dos 29 textos reunidos
no livro, as questões que dilaceraram uma época: universalismo
ou regionalismo? Europa ou América? “projetos utópicos de reforma”
ou “duros compromissos de luta”? ideologia ou poesia? arte ou
indústria? rigidez geométrica ou organicidade? ciência ou tecnologia?
projeto ou destino?
E se finalmente
perguntássemos a Argan “para quem”, ou “contra que”
se projeta, a resposta poderia ser encontrada no artigo que deu
nome à publicação: “contra a especulação imobiliária e as leis
ou as autoridades que a protege; contra a exploração do homem
pelo homem; contra a mecanização da existência; contra a inércia
do hábito e do costume; contra os tabus e as superstições; contra
a agressão dos violentos; contra a adversidade das forças naturais;
sobretudo projeta-se contra a resignação ao imprevisível, ao acaso,
à desordem, aos golpes cegos dos acontecimentos, ao destino [...]
projeta-se para a revolução, contra todo o tipo de conservadorismo”.
Hoje, nesse
início de um século XXI super-moderno dominado pela apatia e pela
banalização do conhecimento, de todos os aspectos que poderiam
recomendar a leitura de uma coletânea de textos clássicos, com
quase 40 anos, marcos referenciais no estudo da arte e da arquitetura,
talvez os mais importantes fossem: sua audaciosa juventude; seu
apelo revolucionário; sua incitação à tomada da palavra como arma
para a defesa e transformação da arte (e do mundo), através de
um trabalho reflexivo, sobretudo crítico, e da corajosa intervenção
na realidade.
Observação:
é uma pena que um livro de tal importância tenha sido tão maltratado
pela tradução, com certeza sem revisão por parte da editora. O
belo texto de Argan e a nossa língua portuguesa não merecem este
tratamento. Nem nós leitores.
Cecília
Rodrigues dos Santos, arquiteta, doutoranda pela FAU-USP. Foi
superintendente regional do Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional – IPHAN – e coordenadora do Núcleo de Arquitetura
do Centro Cultural São Paulo. Membro do Conselho do Museu da Casa
Brasileira e da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura – CNIC.
Professora e pesquisadora da FAU Mackenzie. Colabora com diversas
publicações no Brasil e no exterior. Entre outros livros, é co-autora
de Le Corbusier e o Brasil (Tessela/Projeto, 1987), De Santos
a Jundiaí: nos trilhos do café com a São Paulo Railway (Magma,
2005) e Fanucci-Ferraz – Brasil Arquitetura (CosacNaify, 2005).
Resenha publicada
no momento do lançamento do livro no Brasil, 2000, no Caderno
Cultural do jornal Gazeta Mercantil.
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