Sobre
como difundir conhecimento em paisagismo
resenha
de José W. Tabacow
Passando sobranceiro
ao largo da tentação de buscar um caráter antológico, armadilha
fácil quando se parte para uma proposta de colecionamento de textos
numa publicação de assunto específico, Paisagens úteis
de Eduardo Barra traz, em si, a qualidade à qual Roberto Burle
Marx (1) se referia como curiosidade pela vida, que os
que lidam com o espaço aberto, exterior ou se quiserem, paisagístico,
devem adotar como ponto de partida. Tal qualidade consiste na
inquietude em acrescentar ao acervo pessoal as informações e atualizações
que nos livram da fórmula fácil e da mesmice. Por outro lado,
quando digo “caráter antológico” não me refiro à acepção botânica
de estudo das flores, mas ao sentido, mais adequado a meus propósitos
de florilégio, significando colher e colecionar flores, por extensão,
textos que, em seu conjunto, representem uma idéia ou atitude
(2).
Ao examinar
a obra, é necessário explicar uma taxonomia que revela o fio condutor,
a linha comum subjacente que identifica a combinação dos conteúdos
com seu autor e, conseqüentemente, explicita a unidade indispensável
a esta – e a qualquer outra – coletânea de textos. Embora, pensando
bem, não seja fundamental para a compreensão e o prazer da leitura
trazer à luz critérios definidores, o que se segue é uma tentativa
de revelar tal estrutura que, mais que ao leitor, ajuda-me a sistematizar
a interpretação e me desincumbir da agradável – e talvez pretensiosa
– tarefa de prepará-lo para conhecer uma ampla varredura em paisagismo,
o que já denota a importância do livro ao tratar assunto tão pouco
bibliografado no Brasil.
Para facilitar,
proponho-me a iniciar esta hierarquia taxonômica caracterizando
as duas seções em que o livro claramente se divide: a primeira,
constituída por artigos completos em si, mas que, em sua independência
compõem um conjunto de ampla gama de conhecimentos paisagísticos,
a que me referi acima como varredura. A outra seção constitui-se
de notas que, como um mosaico de pequenos fragmentos, compõe a
cena sob o título geral de Diversas Paisagens, repetindo
em forma condensada, os temas da primeira seção. Se este parágrafo
parece ao leitor a descrição de uma sinfonia ou outra peça musical
qualquer é porque, na realidade, as estruturas do livro e de muitas
músicas têm, em comum, a recorrência de temas que, ora numa seção,
ora noutra, apresentam-se sob a forma de variações, modulações
ou “orquestrações” diferentes que podem surgir num pianíssimo
ou explodir num tutti, como veremos a seguir.
Logo no texto
de abertura temos uma bem humorada análise da, por vezes, curiosa
nomenclatura botânica que, a despeito dos rígidos padrões da nomenclatura
científica, encontra designações de clara interpretação antrópica
ou, mais, antropocêntrica (e.g. Oplismenus imbecilis),
atribuindo aos inocentes vegetais qualidades humanas nem sempre
elogiáveis. Este bom humor reflete-se, ora de forma direta, ora
utilizando-se do perigoso instrumento da ironia, em diversos outros
textos como em Moda ou coerência, um ataque implacável
aos modismos ditados pelas revistas “especializadas” e pelos eventos
do tipo Casa-Cor; em Febeapá de saibro, onde o autor denuncia
a tendência da padronização oficial (no caso, Prefeitura Municipal
do Rio de Janeiro) que, através de decretos e regulamentos, pretende
resolver com uma só solução a infinidade de distintos problemas
paisagísticos que podem ocorrer no ambiente urbano; e em Liberdade
para os anões, onde nos é dada notícia de uma ação da Frente
de Libertação dos Anões de Jardim, entidade cujo nome dispensa
maiores explicações.
Mas, é importante
notar que essa ironia não é uma arma gratuita apontada para personagens-alvos
mas para fatos que, em si, a merecem e justificam. Trata-se apenas
da revelação do lado ridículo de certos acontecimentos que não
passam despercebidos ao olhar atento de Barra, embora tais críticas
revistam-se de conotações jornalísticas sérias e bem intencionadas
que impregnaram o autor durante o tempo em que este manteve na
web o Jornal da Paisagem (3).
Este jornalismo
de origem digital está claro também em artigos que perdem o componente
irônico, substituído por mensagens claras e diretas cuja intenção
de documentação e registro implicam numa linguagem mais técnica,
mais objetiva e, em nome da concisão, mais direta. Começamos por
Os paisagistas, as bromélias e a dengue, reportagem sobre
mesa-redonda que tratou da polêmica envolvendo as bromélias, tão
queridas de paisagistas e não-paisagistas, como vetores de disseminação
da dengue, seguindo em Memorial Roosevelt: uma novela americana
(em dois capítulos), em que nos é relatada a meticulosa história
das marchas e contramarchas envolvendo os concursos e projetos
para a obra a que o título do artigo se refere. Impressões
paisagísticas de Israel registra a viagem e observações da
paisagista Rosa Grena Kliass sobre o tema e profissionais da área,
naquele país, e Passeio Público do Rio de Janeiro, de fora
para dentro é um bem documentado testemunho sem censura dos
diversos equívocos, omissões, imposições e tendenciosidades que
envolveram as obras de suposto restauro daquele que foi o primeiro
jardim público no Brasil. Neste texto é mencionada a enorme quantidade
de estátuas, hermas e bustos que, ao longo do tempo, foram infestando
aquele jardim histórico sob o olhar complacente do IPHAN – Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Faço esta menção
como pretexto para mencionar uma conferência dos anos 60 em que
Burle Marx criticava o que chamou de “bustificação” das praças
no Brasil, coincidentemente ironizando a estátua de Irineu Marinho
como suposto inventor da máquina de extrair caldo-de-cana. O leitor
irá entender a ironia quando ver o monumento, ou in situ
ou sua fotografia no corpo do artigo.
O lado jornalístico
é reafirmado na pequena e simpática crônica Será que “arquitetura
paisagística” foi uma boa idéia? que nos dá conta das angústias
de Olmsted e Vaux, supostos (e arrependidos) criadores do termo
que designa nossa profissão; constam ainda cinco outras notas
relacionadas com aspetos ambientais (Rio Paraíba luta para
sair da UTI, Recorde de espécies ameaçadas e Árvore
1 x Poste 0) e informes técnicos de paisagismo (Monumento
às vítimas do Holocausto e Tecnologia ajuda Paris a cadastrar
seu patrimônio arbóreo), este último tema também enriquecendo
a seção de artigos nos textos Reflexões sobre tetos-jardins,
com observações e exemplos de jardins sobre lajes de diversos
autores e Parque dos Enigmas: arqueologia do futuro, uma
análise sobre projeto nada convencional de Márcia Moss, com paisagismo
do próprio Eduardo Barra.
Completando
a coletânea de textos técnicos, temos Pocket Parks: oásis urbanos,
que inclui aspetos históricos e biográficos, além de Micropaisagismo:
um quebra-cabeças a ser resolvido, em que o autor faz uma
análise comparativa entre seu projeto de um pequeno jardim para
o jornal O Globo e o Splice Garden, de Martha Schwartz. Esta personagem
também está presente encabeçando a coletânea que, na taxonomia
proposta no início desta resenha, incluí como biográfica, classificação
que se justifica pela inclusão, em vários outros artigos, de nomes
como Thomas Church, Garret Eckbo, Isamu Noguchi e, em Duas
Mulheres, Gertrude Jekyll e Beatrix Farrand.
A história
ainda se faz presente em três notas importantes: em Um século
de arquitetura paisagística, Barra nos relata a evolução da
profissão nos Estados Unidos, estabelecendo uma comparação nada
lisonjeira, porém realista, com a atividade no Brasil. Em Martius
não morreu, resgata (4), pelo menos em parte, o autor da monumental
“Flora Brasiliensis”. E, finalmente, comove com seu testemunho
sobre o saudoso botânico Luiz Emygdio de Mello Filho, registrando
mais uma, entre suas inesquecíveis citações.
Três breves
citações em Três toques, de Laurence Halprin, Yoshinobu
Ashihara e Dan Kiley, respectivamente, e a transcrição de dois
pequenos textos de Luigi Pirandello sobre árvores em ambientes
urbanos e uma crítica à verticalização injustificada do Rio de
Janeiro, segundo ele “quase uma ofensa à paisagem”, completam
este alentado e diverso panorama do universo paisagístico.
De agradável
leitura, com textos a um tempo concisos e abrangentes, o mérito
maior de Paisagens úteis realiza-se ao proporcionar aquela
visão geral indispensável à compreensão de uma atividade profissional
ainda mal delineada no Brasil, ou, pior que isso, cada vez mais
mal delineada e pouco compreendida entre nós.
Notas
1
A frase correta, freqüentemente mencionada pelo paisagista é “Prefiro
morrer a perder a curiosidade pela vida!”. Ver TABACOW, José.
Roberto Burle Marx – arte & paisagem. São Paulo, Studio
Nobel, 2004.
2
INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS. Dicionário eletrônico da língua portuguesa.
Instituto Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. 1 CD-ROM.
Windows 98.
3
Jornal da Paisagem <www.jornaldapaisagem.unisul.br>,
site criado e mantido durante sete anos por Eduardo Barra,
posteriormente transferido para José Tabacow até a presente data.
4
Permito-me, neste caso, o uso do termo (que freqüentemente critico
por considerá-lo , de acordo Houaiss, como libertar mediante
o pagamento de quantia determinada), por admitir que Von Martius,
o maior injustiçado da história do Brasil, foi seqüestrado por
um inexplicável ostracismo. O preço a pagar, ou seja, o resgate,
é a reabilitação de seu nome e de suas realizações.
José
Tabacow, arquiteto paisagista, professor do Curso de Arquitetura
e Urbanismo da UNISUL – Universidade do Sul de Santa Catarina,
atual editor do Jornal da Paisagem (http://www.jornaldapaisagem.unisul.br/)
e Coordenador Editorial da revista ArKitéktón (http://www.arkitekton.unisul.br/),
é especialista em Ecologia e Recursos Naturais pela UFES
– Universidade Federal do Espírito Santo e doutor
em Geografia pela UFRJ – Universidade Federal do Rio de
Janeiro, na área de concentração de Geoprocessamento.
É sócio-gerente de Tabacow Chamas & Associados,
escritório de projetos de paisagismo e consultoria ambiental.
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